Paraná reforça ações para enfrentar o El Niño

Paraná reforça ações para enfrentar o El Niño

Paraná intensificou obras e preparação para reduzir impactos do El Niño. Foto: Divulgação.
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Curitiba (PR). A confirmação do retorno do El Niño para o segundo semestre de 2026 levou o Governo do Paraná a reforçar uma mobilização que já vinha sendo estruturada nos últimos anos para enfrentar eventos climáticos extremos. Com previsão de chuvas acima da média até dezembro, sobretudo entre a primavera e o verão, e com atenção especial para o Oeste, o Sudoeste e a bacia do Rio Iguaçu, o Estado passou a combinar monitoramento, orientação aos municípios, simulados, obras de contenção, drenagem urbana, controle de erosão e ações de segurança hídrica.

A confirmação oficial do fenômeno foi divulgada em junho, quando a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou que as condições do El Niño já estavam presentes no Oceano Pacífico equatorial. No Paraná, o acompanhamento é feito pelo Simepar, que apontou a possibilidade de chuva acima da média mensal até o fim do ano, com tendência de intensificação ao longo dos próximos meses.

Essa preparação ganhou dimensão financeira e operacional. Segundo o balanço estadual mais recente, a estratégia reúne mais de R$ 840 milhões em obras e projetos coordenados pelo Instituto Água e Terra (IAT), voltados à contenção de cheias, drenagem urbana, controle de erosão, recuperação ambiental e segurança hídrica. No mesmo levantamento, o governo informou ter destinado R$ 17,9 milhões do Fundo Estadual para Calamidades Públicas (Fecap), nos últimos sete meses, para obras preventivas em Londrina, Guaratuba, Espigão Alto do Iguaçu e Perobal, com foco na construção de pontes e em sistemas de drenagem para reduzir os efeitos de enxurradas e inundações.

Na frente operacional, a Coordenadoria Estadual da Defesa Civil (Cedec) intensificou o trabalho com as prefeituras dos 399 municípios paranaenses. A orientação foi revisar os Planos de Contingência, atualizar o mapeamento de áreas de risco, preparar abrigos, revisar rotas de evacuação e reforçar medidas preventivas, como a limpeza de galerias pluviais, a dragagem de canais e o acompanhamento permanente dos alertas meteorológicos. Reuniões com associações de prefeitos, gestores de barragens e diferentes secretarias estaduais também passaram a integrar essa preparação, com o objetivo de reduzir o tempo de resposta em situações críticas.

Outra medida adotada em 2026 foi a regulamentação, pelo IAT, da dispensa de licenciamento ambiental para obras emergenciais de prevenção, resposta e recuperação de desastres naturais. A norma busca acelerar intervenções em situações de risco iminente, previsão oficial de evento climático severo ou em municípios com decretos de emergência ou calamidade pública. Entre as obras contempladas estão contenção de encostas, limpeza e desassoreamento de rios, drenagem, reconstrução de pontes, recuperação de vias e restabelecimento de sistemas de abastecimento de água, energia e saneamento. A dispensa, porém, não elimina exigências técnicas. As intervenções continuam sujeitas a critérios de engenharia, acompanhamento de profissionais habilitados e regularização posterior, quando necessária.

O Litoral recebeu atenção especial por causa do histórico de desastres associados à chuva intensa. Morretes e Antonina participaram de simulados presenciais voltados à evacuação de áreas de risco, atendimento à população e teste da estrutura de resposta. A partir deste mês, a Defesa Civil também passou a promover simulados de mesa on-line, divididos por regiões do Estado. Até o fim de agosto, a previsão é realizar cinco encontros virtuais para que servidores estaduais e municipais enfrentem cenários simulados de eventos extremos, revisem protocolos e aperfeiçoem a tomada de decisões. Hoje, o Paraná mantém 1.353 abrigos ativos para acolher pessoas desalojadas em caso de desastre.

Entre as obras já concluídas, uma das mais relevantes é a intervenção de R$ 58 milhões em Francisco Beltrão, no Sudoeste, para contenção das cheias do Rio Marrecas. O sistema inclui um túnel de 1,2 quilômetro que desvia parte do fluxo de água durante períodos de chuva intensa. Segundo o governo, a estrutura já foi testada em um episódio recente de mais de 220 milímetros de chuva em 30 horas, quando evitou uma enchente de maior proporção. Em vez de centenas de famílias desalojadas, como em eventos anteriores, desta vez dez residências foram afetadas.

Outro eixo estratégico está no Vale do Iguaçu. O Estado apresentou o anteprojeto de engenharia para um conjunto de obras estimadas em R$ 1,3 bilhão, destinado a reduzir as cheias históricas do Rio Iguaçu em União da Vitória. A primeira etapa está estimada em R$ 497,7 milhões. A proposta reúne 20 intervenções, incluindo escavações, dragagens, retificação de trechos do rio, construção de canais, túneis e diques de proteção. Os estudos apontam potencial de redução de até 2,7 metros no nível das enchentes em uma região que convive há décadas com episódios recorrentes de inundação.

Na área de drenagem e adaptação urbana, o IAT mantém convênios para prevenir alagamentos e melhorar o escoamento de águas pluviais, com intervenções em andamento ou concluídas em municípios da Região Metropolitana de Curitiba, como Pinhais, Colombo e Fazenda Rio Grande. Outra frente relevante é o Programa de Ressocialização e Combate à Erosão Urbana (Proceu), que soma R$ 164,7 milhões eminvestimentos para obras de controle de erosão. Ao todo, são 158 intervenções em diferentes regiões do Estado, das quais 134 já foram concluídas em 112 municípios.

No Noroeste, os investimentos priorizam o controle da erosão em áreas de Arenito Caiuá, mais vulneráveis aos efeitos das chuvas intensas. No Litoral, o Estado atua em parceria com os municípios na limpeza e no desassoreamento de canais de macrodrenagem em Antonina, Guaratuba, Matinhos, Morretes, Paranaguá, Pontal do Paraná e Guaraqueçaba. As obras de recuperação e requalificação das orlas de Matinhos, Pontal do Paraná, Guaratuba e Paranaguá também fazem parte dessa estratégia, ao combinar revitalização urbana com melhoria da drenagem e aumento da resiliência costeira.

A agenda preventiva inclui ainda a criação e recuperação de áreas verdes em fundos de vale e zonas ambientalmente sensíveis. Desde 2019, o Estado firmou 74 convênios para implantação de parques urbanos, com investimento superior a R$ 120,8 milhões. Desse total, 51 espaços já foram concluídos. A lógica é usar esses parques também como infraestrutura ambiental, ajudando a reduzir a erosão, ampliar áreas permeáveis, preservar recursos hídricos e melhorar a drenagem natural das cidades.

A preparação para o El Niño também envolve o risco oposto, o da estiagem. Por isso, o governo mantém o programa Água no Campo, coordenado pelo IAT, para ampliar a segurança hídrica em áreas rurais. Entre 2019 e 2025, a iniciativa perfurou 785 poços tubulares em 220 municípios. Somente em 2026, já foram executados 37 novos poços em 14 municípios, com novas perfurações previstas.

O conjunto dessas medidas mostra que o Paraná tenta responder ao El Niño em várias frentes ao mesmo tempo: monitoramento climático, preparação institucional, simulados, obras estruturais, drenagem urbana, contenção de cheias e abastecimento de água. O teste real, porém, virá quando a previsão sair do papel. É nesse momento que se verá se planejamento, recursos e infraestrutura serão suficientes para proteger os municípios mais expostos.


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