Español Português
AGORA

Luana Piovani expõe engrenagem política da privatização das praias

Atriz afirma que erro foi mirar só em Neymar enquanto o senador Flávio Bolsonaro e o grande capital avançam sobre a orla pública.

Em vídeo político, atriz alertou que a proposta cria segregação com áreas exclusivas na faixa de areia. Foto: Reprodução/Luana Piovani.

Brasília, DF – A disputa pelo controle da faixa litorânea brasileira ganhou novo fôlego político com uma manifestação contundente da atriz Luana Piovani. Em participação em um vídeo do canal Revelando, focado na trajetória do senador Flávio Bolsonaro (PL) — atual postulante ao Planalto —, Piovani colocou o dedo na ferida da PEC das Praias e revisitou o embate ruidoso que travou contra o jogador Neymar Jr.

A artista fez uma autocrítica pública sobre o alcance daquele confronto. Ela avaliou que personificar a pauta exclusivamente no atacante do Santos mascarou os verdadeiros articuladores do projeto que tramita no Congresso:

“Eu errei! Há dois anos, eu arrumei uma briga com o Neymar. Eu achei que ele queria privatizar as nossas praias. O meu erro não foi brigar com ele, foi brigar só com ele. Eu não sabia que essa história era bem maior que o Neymar.”

Na prática, a proposta quer rasgar a proteção constitucional sobre os terrenos de marinha hoje geridos pela União. O texto abre caminho para repassar essas áreas estratégicas a estados e municípios com o objetivo expresso de vendê-las ao grande capital privado, atendendo à sanha de incorporadoras imobiliárias, megacomplexos hoteleiros e condomínios fechados.

Ao ler trechos da matéria durante a gravação, Piovani denunciou a segregação espacial que a medida impõe, convertendo bens de uso comum do povo em privilégio cercado para poucos:

“Esse projeto pode mudar a praia que você frequenta, impedir que você chegue até a sua areia e mergulhe no mar, que poste a sua foto bonita, pode criar a praia com área VIP e lista na entrada. Já pensou?”

O atrito original estourou em 2024, quando Piovani expôs como os negócios imobiliários de Neymar no litoral casavam perfeitamente com os interesses econômicos blindados pela proposta em Brasília. Na ocasião, a atriz conclamou a sociedade a barrar o avanço do projeto e confrontou a idolatria cega ao jogador:

“Quero lembrar que todos devem votar contra a privatização das praias. É, senhoras, 2024. A gente tem que ter esse tipo de desgaste. Lembra quando falei que era difícil ser cidadão no Brasil? E vem aí esse ignóbil, desse ex-ídolo… porque realmente já fez muita coisa pelo Brasil. Claro que fez, senão não era quem é hoje. Como uma pessoa pode acabar tanto com tudo que construiu dessa maneira?”

Em outro trecho da cobrança pública, a atriz atacou a conivência e a postura moral do atleta diante da especulação imobiliária predatória:

“Como consegue fazer tanta mrda, como consegue ser tão mau-caráter? Porque são muitos históricos, não vou ficar aqui puxando para gente lembrar quanta mrda grave esse garoto, que de garoto não tem p*rra nenhuma, já fez.”

Piovani também insistiu no boicote como ferramenta de pressão popular, alertando sobre a cumplicidade das redes sociais no avanço de projetos que retiram direitos territoriais da população:

“Façam um favor, pra todos nós brasileiros, vota contra a privatização das praias e raciocina cada vez que você for dar um like em qualquer coisa que esse estrupício aparecer, dá uma puxadinha pela memória.”

O confronto descambou para a esfera judicial após Neymar processar Piovani pelas críticas que o classificaram como “mau-caráter” e “péssimo exemplo de pai e de homem”. O Judiciário condenou a atriz a quatro meses e 15 dias de detenção em regime aberto.

A punição acabou convertida em prestação de serviços comunitários em entidade pública ou assistencial. A ofensiva nos tribunais, porém, não abafou a contradição central: enquanto o debate foi empurrado para o bate-boca de celebridades, o lobby imobiliário e seus representantes no parlamento continuam operando para cercar o litoral brasileiro e mercantilizar o que é de todos.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

Receba notícias no WhatsApp do Fronteira LivreReceba notícias no WhatsApp do Fronteira Livre

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *