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Criança armada em comemoração bolsonarista é alvo de inquérito

Investigação na Grande Natal mira adultos que expuseram menino armado durante comemoração da votação de Flávio Bolsonaro.

Criança com camiseta da seleção empunha arma no teto de carro durante ato bolsonarista em Parnamirim (RN). Foto: Reprodução.

Parnamirim, RN – Um vídeo gravado durante uma comemoração de bolsonaristas na noite de domingo, 4 de outubro, em Parnamirim, na Região Metropolitana de Natal, mostra um menino em cima do teto de um carro com uma arma preta na mão direita. Cercada por militantes da extrema-direita com camisas amarelas, a criança veste a camiseta da seleção brasileira e também aparece segurando o que parece ser uma réplica de outra arma.

A gravação foi confirmada como autêntica pela Polícia Civil do Rio Grande do Norte, que apura quem são os responsáveis e se o artefato era verdadeiro. O caso ocorreu na Avenida Castor Vieira Régis, no bairro Cohabinal, ponto tradicional de mobilização bolsonarista no município potiguar, onde Flávio Bolsonaro (PL) liderou a votação de primeiro turno com 50,92% dos votos válidos, contra 42,12% de Lula.

Até a manhã de terça-feira, 6 de outubro, nenhuma ocorrência havia sido registrada na delegacia. Diante da repercussão das imagens na internet, a 17ª Delegacia de Parnamirim abriu investigação de ofício para apurar a conduta dos adultos na celebração eleitoral e identificar os envolvidos.

A corporação confirmou o início das diligências:

“A 17ª Delegacia de Parnamirim realizará diligências para apurar a situação, incluindo a coleta e análise das imagens disponíveis, a fim de esclarecer as circunstâncias do ocorrido.”

O Conselho Tutelar de Parnamirim foi procurado para informar se acompanha o caso ou se tomou medidas de proteção à criança, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. A apuração envolve infrações previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e crimes descritos no Estatuto do Desarmamento.

A perícia nas imagens e a localização do objeto vão determinar por quais crimes os adultos que estavam no ato bolsonarista podem responder. Segundo a advogada criminalista Beatriz Alaia Colin, especialista em Direito Penal e Processo Penal, entregar uma arma verdadeira para uma criança rende pena de três a seis anos de prisão, além de multa, tanto pelo ECA quanto pela Lei 10.826/2003.

A advogada explica a responsabilidade de quem levou o armamento para a manifestação:

“Se não houve entrega deliberada, mas o menor teve acesso à arma por descuido do dono, configura-se a omissão de cautela. O adulto que levou o objeto ao evento responde ainda, conforme o caso, por porte ilegal de arma de uso permitido ou restrito, salvo se tiver porte válido para aquela situação.”

Ela afirma ainda que a situação pode configurar crime de perigo para a vida ou a saúde de terceiros. No caso dos pais ou responsáveis legais, pode haver enquadramento por maus-tratos, já que a criança foi colocada em situação de risco em meio à multidão.

O criminalista Daniel Allan Burg reforça que a punição não se limita aos pais, alcançando qualquer pessoa que facilite o acesso do menino à arma:

“O texto da lei não exige nenhuma qualidade ou condição especial do sujeito que pratica a infração. Desse modo, qualquer pessoa, os pais, responsáveis legais ou outros adultos poderão ser responsabilizados.”

A situação do próprio jovem depende da idade. Se for adolescente, entre 12 e 18 anos, ele pode responder por ato infracional equivalente ao porte ilegal de arma. Se tiver menos de 12 anos, a legislação prevê apenas medidas de proteção e acompanhamento pelo Conselho Tutelar e pela Justiça, sem medidas socioeducativas de internação.

Além da frente penal, os pais podem ser acionados na Vara da Infância e da Juventude pelo Ministério Público ou pelo Conselho Tutelar por negligência e descumprimento dos deveres familiares:

“Há também a infração administrativa do art. 249 do ECA, por descumprimento doloso ou culposo dos deveres inerentes ao poder familiar, punida com multa de 3 a 20 salários de referência.”

Para Daniel Burg, existe risco até de perda da guarda se ficar comprovado em processo judicial que os responsáveis falharam no dever básico de proteger o filho.

Beatriz Colin pondera que a retirada da guarda costuma ser evitada pela Justiça quando se trata de fato isolado:

“A perda ou suspensão do poder familiar exige grave violação dos deveres parentais e é tratada como medida excepcional, após ampla apuração e com observância do contraditório.”

Se a perícia concluir que a peça era um simulacro ou réplica plástica, ninguém poderá ser preso pelo porte, já que a legislação atual não tipifica como delito carregar réplicas:

“O que a lei veda quanto a simulacros é a fabricação e comercialização de réplica que se confunda com armas reais, o que atinge o fabricante ou vendedor, não quem a porta. Restaria avaliar, na esfera da infância e juventude, se houve exposição da criança a situação inadequada, e eventual responsabilização ética ou cível, mas sem repercussão criminal relevante para os pais.”

Daniel Burg confirma que, sem potencial de disparo ou menção expressa a simulacros no texto do Estatuto do Desarmamento, não há enquadramento criminal contra os adultos presentes.

O caso repercutiu no governo federal e escancarou o uso da pauta armamentista na mobilização eleitoral. O advogado-geral da União, Jorge Messias, criticou duramente o grupo de extrema-direita por utilizar uma criança armada para festejar o resultado nas urnas:

“Fica evidente a inversão de valores que ocorre quando se coloca uma arma nas mãos de uma criança para celebrá-la como símbolo de vitória. Não há vitória alguma nesse gesto. Há, sim, o fracasso de um projeto de país justo, livre e solidário.”

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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