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Foto sobre massacre policial no Rio vence Prêmio Vladimir Herzog

Registro de viúva abraçada ao corpo do companheiro no Complexo da Penha foi premiado por expor a dimensão humana da tragédia no Rio.

Fernanda da Silva Martins abraça o corpo do marido no asfalto do Complexo da Penha após incursão com 122 mortos. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Rio de Janeiro, RJ – O registro da dor de Fernanda da Silva Martins ao abraçar o corpo do companheiro no asfalto, após a ação mais letal da história da polícia fluminense, venceu o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos deste ano. O anúncio da premiação foi feito nesta quarta-feira (30). A imagem, com o título “Viúva se despede do marido morto na operação policial mais letal do Rio de Janeiro”, foi feita pelo repórter fotográfico Tomaz Silva, da Agência Brasil, e circulou em jornais e sites do país e do exterior.

A fotografia foi feita no Complexo da Penha, na zona norte carioca, em outubro de 2025, logo após a Operação Contenção. Segundo o balanço oficial, a ação policial deixou 122 mortos, incluindo três policiais civis e dois militares. A incursão deixou mais de 150 mil moradores dos complexos da Penha e do Alemão sob horas seguidas de tiros e explosões, bloqueou as principais vias da cidade e atingiu diferentes bairros da capital fluminense.

Segundo a comissão julgadora, o trabalho do fotojornalista expõe como nenhum outro o sofrimento provocado pelas mortes na comunidade. “É na imagem de Tomaz Silva, da EBC, que essa tragédia mostra sua dimensão mais dolorosa, revelando a dor de quem perdeu os seus”, declarou a comissão em nota.

Tomaz Silva contou que chegou ao local por volta das 7h e encontrou corpos espalhados pelo chão e o cheiro forte da chacina. Ao longo daquele dia, os próprios moradores transportaram dezenas de mortos na caçamba de caminhonetes para tirá-los das vielas e estendê-los no asfalto.

“Quando eu fiz a foto, decidi me abaixar por entender que seria mais importante dar visibilidade às pessoas que estavam sofrendo, e não à massa de corpos. E quando eu me abaixei, eu acabei encostando em um dos corpos das vítimas. Nesse momento, eu também chorei, vendo tudo aquilo”, disse Tomaz.

O repórter explicou que o prêmio ajuda a valorizar e fortalecer a comunicação pública no país. “Fico muito emocionado pela escolha, por ser um trabalho feito por uma mídia pública e ter sido amplamente divulgado. A foto foi capa de muitos jornais. Isso me dá ânimo e esperança de conseguir fazer um trabalho cada vez melhor para a comunicação pública e para o país”, afirmou.

Em janeiro de 2026, a reportagem da Agência Brasil reencontrou Fernanda da Silva Martins, que voltou a ser fotografada por Tomaz. Ela falou sobre a repercussão da foto do seu luto: “Ali, sentiram a minha dor. Muita gente [me] crucificou, mas outras me ligaram, se comoveram. A foto foi de um sentimento muito real”.

Criado em 1979, o Prêmio Vladimir Herzog homenageia a memória do jornalista torturado e assassinado pela ditadura civil-militar em 25 de outubro de 1975, no prédio do DOI-CODI, em São Paulo. Em sua 48ª edição, realizada em 2026, o prêmio reconhece jornalistas, repórteres fotográficos e ilustradores que, no trabalho diário, defendem a democracia, a justiça e os direitos humanos.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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