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Uso de IA em apps de paquera cresce 333% e altera relações

Terceirização do primeiro contato amoroso por ferramentas digitais compromete a espontaneidade e acende debate sobre isolamento social.

Dependência de assistentes virtuais na paquera pode enfraquecer habilidades de comunicação e comprometer vínculos reais. Foto: Pavel Danilyuk/Pexels

São Paulo, SP – O uso de ferramentas de inteligência artificial na paquera virtual teve um salto recente e começa a alterar a dinâmica de convivência e aproximação entre os usuários de plataformas digitais. Dados do levantamento anual Singles in America, conduzido pelo Instituto Kinsey, apontam que a proporção de solteiros que admitem recorrer à IA para interagir em aplicativos de namoro subiu 333% no intervalo de um ano. A presença desses sistemas já é sentida diretamente por quem busca relacionamentos: 60% dos entrevistados em pesquisa da empresa de cibersegurança Norton relatam já ter recebido mensagens redigidas por robôs nesses ambientes.

A disseminação dessa prática coincide com o desenvolvimento de tecnologias voltadas a assumir tarefas humanas cotidianas. O tema ganhou projeção pública depois que o Google apresentou um recurso experimental do modelo Gemini projetado para realizar ligações telefônicas no lugar dos donos dos aparelhos. Testada em primeiro momento nos Estados Unidos, a ferramenta executa demandas práticas como reclamações de serviços e agendamentos em restaurantes ou clínicas médicas.

A transição desse modelo utilitário para a esfera afetiva, no entanto, coloca em questão os limites do contato interpessoal e a perda de espontaneidade nas relações sociais. Para o neurocientista, especialista em IA e colunista da CNN Brasil Álvaro Machado Dias, o avanço tecnológico empurra os relacionamentos para um estágio no qual o primeiro contato é inteiramente administrado por algoritmos, postergando o encontro real e desarmado entre duas pessoas.

“A coisa começa no transacional, no telefone para resolver um problema, mas ela termina onde as emoções são incômodas”, explicou Machado Dias ao avaliar a tendência de terceirização do diálogo.

O especialista alertou para os efeitos de longo prazo dessa dependência tecnológica na capacidade humana de convivência e expressão. Segundo Machado Dias, a utilização contínua de plataformas automatizadas para formular conversas, organizar ideias e até simular a voz pode atrofiar competências básicas de socialização.

“É muito provável que haja uma contribuição para que as pessoas também desaprendam a falar, a se comunicar de maneira relevante do ponto de vista da conexão humana”, afirmou.

Embora recursos automatizados possam quebrar o gelo inicial e poupar tempo, o recurso sistemático a mensagens prontas mina a autenticidade e transfere a gestão de sentimentos para ferramentas comerciais. Com a expansão da inteligência artificial sobre dimensões antes exclusivas da convivência direta, o fenômeno reforça o isolamento social, altera os padrões de sociabilidade contemporânea e transforma a vulnerabilidade emocional — etapa central de qualquer vínculo afetivo genuíno — em um processo filtrado por telas e algoritmos.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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