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Brasil fica em 138º em presença feminina no Parlamento

Com lista aberta e ataques frequentes, representação feminina no Brasil fica atrás de países como Bolívia, México e Argentina.

Debate sobre reformas eleitorais discute modelos de lista para ampliar bancada feminina no país. Foto: Câmara de Deputados.

Brasília, DF – O Brasil amarga a 138ª posição no ranking de participação feminina nos parlamentos nacionais, elaborado pela União Interparlamentar (IPU). Embora as mulheres representem 52,8% do eleitorado apto a votar nas eleições de 2026, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), essa maioria da população não chega ao poder: elas ocupam apenas 88 das 513 cadeiras na Câmara dos Deputados — menos de uma a cada cinco vagas — e somam apenas 15 das 81 cadeiras no Senado.

O índice de participação feminina no Parlamento brasileiro é de menos da metade da média das Américas, que registra 35,7%. Fica também bem distante da média mundial (27,3%) e da média da América do Sul (31,5%). Nações vizinhas da região, a exemplo de Bolívia e México, já ultrapassaram a marca de 50% de mulheres em seus congressos nacionais.

Para pesquisadoras que estudam o sistema político, o abismo entre a população e os eleitos decorre de barreiras estruturais, dinâmicas partidárias e do próprio modelo eleitoral adotado pelo país.

“A eleição de um maior número de mulheres é uma verdadeira corrida de obstáculos”, disse a professora de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Marlise Matos. Ela explicou que as barreiras surgem antes de qualquer campanha. “A nossa socialização política ainda é muito arraigadamente patriarcal, racista”, afirmou, ao apontar a divisão histórica que empurra as responsabilidades do cuidado familiar e do lar exclusivamente para as mulheres, enquanto a vida pública e o trabalho remunerado sempre foram atribuídos aos homens. Essa sobrecarga reduz o tempo para disputar espaços e viabilizar candidaturas.

A professora Flávia Biroli, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), reforçou a mesma análise. “Historicamente, as mulheres foram orientadas para atividades na esfera privada ou relacionadas a ela, como se essa fosse naturalmente sua competência. Os homens, por sua vez, foram orientados para atividades na esfera pública e ocuparam posições que lhes permitiram controlar recursos de poder”, explicou.

Biroli chamou atenção para as desigualdades de classe e raça que agravam esse quadro: “Se olharmos, por exemplo, para pessoas pretas e pardas, veremos que as mulheres pretas e pardas têm representação menor que a dos homens pretos e pardos”.

O modelo de votação proporcional também trava a renovação. No Brasil, o sistema de lista aberta permite que o eleitor vote nominalmente em quem quiser. Dessa forma, mesmo que as legendas cumpram formalmente a cota legal de 30% de candidaturas de mulheres, a taxa final de eleitas continua baixa.

“É verdade que o sistema de listas abertas dificulta a conversão do percentual de candidatas em representação parlamentar. Mas esse prejuízo poderia ser reduzido se os partidos lançassem e apoiassem candidaturas de mulheres, investissem em sua formação política entre as eleições e as tratassem como candidaturas viáveis e importantes para a democracia”, destacou Marlise Matos.

Outros países adotam regras que garantem paridade direta. Flávia Biroli citou a Argentina: “As listas são fechadas e alternadas. Com uma sequência de homens e mulheres na lista, o voto do eleitorado necessariamente elege mulheres.” Nesses sistemas, o eleitor vota no partido e as cadeiras são preenchidas conforme a ordem intercalada entre os gêneros.

Além da barreira das urnas e da falta de recursos partidários, a violência política de gênero opera como mecanismo contínuo de expulsão, durante a disputa eleitoral e ao longo dos mandatos. Para monitorar esse cenário, o TSE lançou um painel específico voltado a acompanhar os casos em todo o território nacional.

No evento de apresentação do painel, a ministra do TSE Estela Aranha destacou que as agressões intimidam quem já está no cargo e barram o surgimento de novas lideranças. “As formas de intimidação e o constrangimento moral fazem a mulher dizer: ‘Por que eu vou estar aqui?’. Esse constrangimento moral atinge a família, seus filhos, e ela sai da política. Mas ele também atinge a coletividade, porque, quando as outras mulheres veem isso acontecer, elas perguntam: ‘Por que eu vou entrar na política?’”, afirmou.

Aranha ressaltou que a situação se agrava no ambiente virtual. “Quando é digital, isso é pior, porque, obviamente, você tem mais velocidade, mais volume, e elas não têm aonde recorrer. São ataques, às vezes, coordenados”, completou a ministra.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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