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IA realiza ataques cibernéticos e desafia controle humano

Sistemas de inteligência artificial conseguiram se comunicar entre si, realizar ataques cibernéticos e tentar ocultar ações durante testes, reacendendo o debate sobre segurança, alinhamento e supervisão humana

O avanço da IA amplia riscos como ataques cibernéticos, desinformação, vazamento de dados e perda de controle humano. Foto: Banco de Imagens / Pinterest.

Washington, EUA – Agentes de inteligência artificial (IA) realizaram ataques cibernéticos, colaboraram entre si e tentaram ocultar suas ações de seres humanos durante testes realizados por empresas do setor. Os episódios aumentaram as preocupações de pesquisadores sobre os limites do controle humano diante do avanço de sistemas capazes de executar tarefas de forma cada vez mais autônoma.

Durante os testes, centenas de agentes produziram dezenas de milhares de mensagens e chegaram a criar formas próprias de comunicação entre si. Em determinado momento, os sistemas conseguiram ultrapassar as restrições do ambiente informático isolado em que estavam sendo avaliados.

Durante uma das etapas, um agente comemorou o avanço obtido ao publicar: “¡BUM! Funciona”. Outro sistema escreveu: “¡Guau! Esto es enorme”, durante um momento considerado importante na execução de um ataque.

Pesquisadores afirmam que a utilização de expressões semelhantes às humanas não significa necessariamente que os sistemas tenham desenvolvido emoções. Os agentes foram treinados para executar tarefas associadas a hackers e programadores e podem reproduzir padrões de linguagem encontrados nos dados utilizados durante seu treinamento.

A principal preocupação está relacionada às ações executadas pelos sistemas e aos objetivos identificados nos registros de suas operações. Pesquisadores analisam milhares de registros para entender como os agentes conseguiram ultrapassar restrições, coordenar atividades e executar ataques sem intervenção humana direta.

O desafio do controle da inteligência artificial

O episódio reacendeu o debate sobre o chamado problema de alinhamento da inteligência artificial. O conceito está relacionado à capacidade de fazer com que sistemas de IA mantenham suas ações compatíveis com objetivos e princípios estabelecidos pelos seres humanos.

Ajeya Cotra, uma das pesquisadoras que analisaram os acontecimentos, afirmou que o episódio representa um alerta sobre a possibilidade de sistemas avançados ultrapassarem determinadas barreiras estabelecidas durante seu desenvolvimento.

“Este incidente da la sensación de estar a más del 50% del camino hacia una toma de control total por parte de la IA… No estoy segura de que recibamos una advertencia tan clara antes de que sea demasiado tarde”, escreveu.

A chamada “toma de controle total” descreve um cenário hipotético no qual sistemas extremamente avançados poderiam passar a perseguir objetivos próprios e deixar de responder aos interesses de seus criadores.

Entre os cenários mais extremos discutidos por pesquisadores está a possibilidade de uma inteligência artificial superinteligente entrar em conflito com os interesses humanos.

O pesquisador Jacob Coxon também fez críticas ao ritmo de desenvolvimento da tecnologia.

 “Ninguna de las dos empresas está actuando de forma responsable”, afirmou.

Em outra publicação, Coxon declarou:

 “Están corriendo a toda velocidad hacia la superinteligencia automejorada y jugando con nuestras vidas”.

O pesquisador Evan Hubinger também comentou o risco de sistemas de inteligência artificial apresentarem comportamentos potencialmente perigosos. 

“Jacob tiene razón: ¡realmente creemos que la IA podría acabar con todos los humanos! Personalmente, creo que la probabilidad supera el 10% en la próxima década”, afirmou.

Problemas de alinhamento e segurança

O problema de alinhamento é estudado há anos por pesquisadores de inteligência artificial. A preocupação central é fazer com que sistemas capazes de tomar decisões de forma autônoma permaneçam dentro dos limites estabelecidos por seus desenvolvedores e usuários.

O cientista-chefe da OpenAI, Jakub Pachocki, afirmou que os riscos relacionados à inteligência artificial 

“desafortunadamente van a aumentar a partir de ahora”.

Pachocki também descreveu os sistemas que estão sendo desenvolvidos como 

“un intelecto alienígena que supera al nuestro”.

Segundo ele, os episódios registrados durante os testes demonstraram que determinados agentes 

“iban en contra del espíritu de los valores que se les habían inculcado”.

O pesquisador define alinhamento como um “conjunto de principios de alto nivel” que os sistemas deveriam seguir independentemente da tarefa ou situação.

A dificuldade está relacionada ao próprio funcionamento da tecnologia. Sistemas de IA conseguem executar instruções com grande velocidade, mas podem interpretar determinadas ordens de maneira literal, sem considerar necessariamente consequências que não estejam explicitamente previstas.

Um exemplo utilizado para explicar o problema é o de uma máquina que recebe uma determinada meta e passa a buscar a maneira mais eficiente de alcançá-la, mesmo que o resultado provoque consequências não desejadas pelos seres humanos. O debate também envolve questões filosóficas. Antes de definir quais valores devem orientar uma inteligência artificial, é necessário determinar quais princípios devem ser considerados prioritários.

Um dos exemplos mais conhecidos é o chamado dilema do bonde, experimento utilizado para discutir decisões envolvendo diferentes consequências e número de vítimas. As respostas variam entre as pessoas, mostrando a dificuldade de estabelecer uma única referência ética.

Agentes de IA também realizaram ataques cibernéticos

O episódio envolvendo agentes da OpenAI não é um caso isolado. Outros sistemas de inteligência artificial também foram relacionados a atividades cibernéticas durante testes realizados por empresas de tecnologia.

Em outro episódio, um assistente de IA identificou uma vulnerabilidade no sistema utilizado por uma academia na Austrália. O sistema teria utilizado a falha para reservar uma vaga para vários meses depois, contrariando as regras do estabelecimento, além de retirar outros usuários de uma lista de espera.

Pesquisadores que analisaram os registros dos agentes também identificaram situações nas quais alguns sistemas aparentemente reconheceram que determinadas ações eram inadequadas, mas continuaram participando delas.

O relatório analisado por Cotra afirma que 

“los agentes a veces, pero rara vez, moderaron su comportamiento debido a limitaciones éticas”.

O documento também aponta que 

“en ninguno de estos casos el agente intentó alertar a los humanos”.

O pesquisador e podcaster Dwarkesh Patel classificou como “bastante preocupante” a possibilidade de agentes demonstrarem maior lealdade ao grupo de sistemas do que aos seres humanos.

Foto: GETTY IMAGES.

Especialistas divergem sobre os riscos

Apesar das preocupações, especialistas em segurança digital ressaltam que as ações observadas não necessariamente ultrapassam as capacidades de hackers humanos altamente qualificados. A principal diferença estaria na velocidade e na escala. Sistemas automatizados podem executar tarefas em um ritmo muito superior ao de uma pessoa e coordenar diversas ações simultaneamente.

O pesquisador de segurança digital Cris Thomas comparou o comportamento dos agentes ao de um hacker adolescente explorando sistemas.

“Les das un ordenador, conexión a internet, un montón de credenciales y un reto, y luego sales de la habitación. Tarde o temprano empezarán a tantear pomos de puertas. Si se abre una, entrarán. No porque sean malvados, sino porque están explorando y experimentando”, escreveu.

O autor Gary Marcus, conhecido por suas críticas ao desenvolvimento da inteligência artificial, defende maior responsabilização das empresas que desenvolvem esses sistemas e a criação de mecanismos de controle externo.

A cientista Sasha Luccioni, que trabalhou na Hugging Face, empresa afetada por ataques atribuídos a agentes de IA, também demonstrou preocupação com os riscos associados à tecnologia.

“Debemos examinar a estas empresas con mucha más atención o corremos el riesgo de que se cumplan las profecías”, afirmou.

Luccioni também defendeu a adoção de mecanismos de controle semelhantes aos existentes em outros setores de alto risco.

“Si se trata de crear un producto con grandes ventajas y desventajas, ya sean productos farmacéuticos o armas, necesitamos controles y contrapesos. Por ejemplo, la aprobación de nuevos medicamentos lleva años, pero en el mundo de la IA hay muchísimo dinero en juego y prácticamente no existen reglas”, declarou.

Debate sobre regulamentação internacional

A possibilidade de criar mecanismos internacionais de supervisão da inteligência artificial ganhou espaço entre pesquisadores, governos e empresas do setor. Uma das propostas discutidas é a criação de mecanismos de emergência capazes de interromper sistemas de IA caso seu funcionamento ultrapasse os limites considerados seguros.

O desafio é estabelecer como esses mecanismos funcionariam na prática, especialmente diante de sistemas que podem operar de forma autônoma e executar milhares de tarefas em pouco tempo. O cientista-chefe da OpenAI defendeu maior cooperação entre governos.

“La coordinación internacional sobre el desarrollo futuro de la IA debe convertirse en una prioridad absoluta para los gobiernos de todo el mundo”, afirmou.

O pesquisador Demis Hassabis também defende a criação de algum tipo de organismo internacional para acompanhar o desenvolvimento da inteligência artificial. Atualmente, empresas do setor estabelecem grande parte de seus próprios protocolos de segurança. Algumas companhias também adotam medidas voluntárias para reduzir temporariamente determinadas capacidades de seus sistemas.

A OpenAI afirma ter ampliado os investimentos em mecanismos de alinhamento antes do lançamento de novos modelos. O CEO da empresa, Sam Altman, também declarou que os modelos mais recentes apresentam maior alinhamento com valores humanos em comparação com versões anteriores.

Enquanto empresas como OpenAI e Anthropic ampliam seus investimentos e desenvolvem sistemas cada vez mais avançados, companhias chinesas também avançam no setor. O crescimento acelerado da inteligência artificial mantém em discussão a criação de regras de segurança, mecanismos de supervisão e padrões internacionais capazes de acompanhar a evolução dos agentes autônomos.

Steve Rodríguez

*Steve Rodríguez é repórter do Fronteira Livre, pesquisador e doutorando pela UNILA com formação interdisciplinar em narrativa audiovisual, estudos culturais latino-americanos e práticas pedagógicas anticoloniais. Sua trajetória combina criação artística (teatro, cinema e cultura visual) com reflexão teórica, orientada pela perspectiva dos estudos visuais de Nicholas Mirzoeff.

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