Rio de Janeiro (RJ) – Quase meio século após a morte do embaixador José Jobim, uma nova denúncia apresentada ao Ministério Público Federal busca aprofundar a investigação sobre um dos episódios mais controversos do período da ditadura militar brasileira. O documento, encaminhado pelo Instituto João Goulart, sustenta que o diplomata pode ter sido assassinado por causa de informações que reunia sobre supostas irregularidades envolvendo a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, empreendimento que transformou a fronteira entre Brasil e Paraguai e se tornou uma das maiores obras de infraestrutura da América do Sul.
José Jobim desapareceu em 22 de março de 1979. Dois dias depois, seu corpo foi encontrado no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Na época, a investigação oficial concluiu que a morte havia ocorrido por suicídio por enforcamento. A versão, entretanto, foi contestada pela família desde o início e voltou a ser questionada ao longo das décadas por pesquisadores, entidades de direitos humanos e estudiosos do período militar.
Segundo a denúncia encaminhada ao MPF, o diplomata trabalhava na redação de memórias nas quais pretendia relatar bastidores da construção de Itaipu e informações sobre supostos esquemas de corrupção relacionados à obra. Pouco antes de desaparecer, Jobim teria afirmado a pessoas próximas que possuía dados sensíveis sobre o empreendimento, cuja execução mobilizou bilhões de dólares e envolveu interesses políticos e econômicos de grande escala.
Para os autores da representação, a coincidência entre as declarações do embaixador e sua morte reforça a necessidade de reexaminar o caso à luz de documentos históricos, depoimentos e investigações posteriores que colocaram em dúvida a versão oficial apresentada em 1979.
Itaipu, ditadura e as suspeitas que cercam o caso
A trajetória de José Jobim se cruzou com as discussões sobre o aproveitamento energético da região da fronteira ainda nos anos 1960. Durante o governo de João Goulart, ele participou de negociações relacionadas aos projetos hidrelétricos que envolviam a área de Sete Quedas, então considerada estratégica para Brasil e Paraguai.
Com o golpe civil-militar de 1964, os rumos dessas negociações foram alterados. Anos depois, a construção de Itaipu transformaria a região em um dos maiores polos de geração de energia do mundo. Ao mesmo tempo, o empreendimento passou a ser alvo de questionamentos sobre seus custos, contratos e decisões tomadas durante o regime militar.
O projeto, inicialmente estimado em cerca de US$ 1,3 bilhão, acabou alcançando valores próximos de US$ 13 bilhões, tornando-se uma das obras mais caras do período. Entre os principais dirigentes da usina estava o general Costa Cavalcanti, integrante da linha-dura do regime e um dos nomes mais influentes da estrutura militar da época.
Para a família do diplomata, as informações reunidas por José Jobim sobre esse contexto podem ajudar a explicar as circunstâncias de sua morte.
“Foi interrogado sob tortura para dizer quem lhe passava as informações sobre a corrupção em Itaipu. Devem ter achado que sua morte o tornava um vencido”, afirmou Lygia Jobim, filha do embaixador, em depoimento posteriormente reunido por pesquisadores do período.
As suspeitas ganharam novo fôlego em 1983, quando o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, determinou a reabertura das investigações. Na ocasião, a promotora Telma Musse Diuana apontou inconsistências no inquérito original e questionou a conclusão que sustentava a hipótese de suicídio.
Uma nova apuração concluiu que as circunstâncias observadas eram incompatíveis com a versão oficial e registrou o caso como homicídio praticado por autor desconhecido. Apesar disso, ninguém foi responsabilizado e o processo acabou arquivado em 1985.
Memória, fronteira e direito à verdade
Mais de quatro décadas depois, o caso José Jobim continua sendo citado por pesquisadores da ditadura, familiares de vítimas da repressão e entidades de direitos humanos como um dos episódios ainda cercados por dúvidas. A denúncia apresentada ao Ministério Público Federal busca ampliar o acesso a documentos históricos e incentivar novas apurações sobre as circunstâncias que cercaram a morte do diplomata.
Para além da trajetória individual de José Jobim, o caso também lança luz sobre um período em que grandes obras públicas, estruturas de poder e órgãos de segurança operavam sob forte sigilo institucional. No centro dessa discussão está Itaipu, empreendimento que redefiniu a geopolítica da fronteira entre Brasil e Paraguai e permanece como uma das obras mais emblemáticas da história recente do continente.
Quarenta e seis anos depois, perguntas levantadas à época seguem sem resposta definitiva. O que José Jobim sabia sobre Itaipu? Quem teve acesso às informações reunidas por ele? E qual é a relação entre essas denúncias e sua morte? A busca por essas respostas continua fazendo parte da disputa por memória, transparência e direito à verdade sobre os anos da ditadura militar.




















