Você sabia que, na Argentina, há uma lei presidencial para evitar que jovens se tornem lobisomens?”

Você sabia que, na Argentina, há uma lei presidencial para evitar que jovens se tornem lobisomens?”

Em 2014, Yair Tawil tornou-se o primeiro jovem não católico apadrinhado pela Presidência. Foto: Reprodução/Internt
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BUENOS AIRES | ARGENTINA – O folclore e a política se cruzam na Argentina por meio da Lei nº 20.843, de 1974, que estabelece o “Padrinazgo” (apadrinhamento) presidencial. A legislação determina que o chefe de Estado em exercício torne-se padrinho ou madrinha oficial de cada sétimo filho homem ou sétima filha mulher de uma mesma família. A medida, que remonta a 1907, visava conter tragédias reais motivadas por mitos: no século 19, o medo de que o sétimo filho se transformasse em lobisomem (ou a sétima filha em bruxa) levava famílias ao abandono e ao infanticídio.

A superstição, trazida ao Rio da Prata por imigrantes da Europa Oriental no século 19, sugeria que o sétimo filho homem estaria condenado a se transformar em uma criatura demoníaca nas noites de lua cheia após completar 13 anos. Para evitar o estigma social, o abandono e até o infanticídio motivados pelo medo da “maldição”, o governo argentino interveio em 1907 com um gesto simbólico de proteção estatal, transformando o presidente em tutor dessas crianças.

O afilhado recebe uma medalha de ouro e bolsa de estudos integral. O costume, oficializado por Juan Domingo Perón e consolidado por María Estela Martínez de Perón, atravessou regimes e ideologias, permanecendo como um direito civil inusitado no país vizinho.

Inclusão e quebra de dogmas

Um dos momentos mais significativos dessa história ocorreu em 2014, sob a gestão de Cristina Kirchner. Até 2009, o apadrinhamento era restrito a famílias católicas, herança do “patrocínio imperial” da Rússia czarista de Catarina, a Grande. Kirchner alterou o decreto permitindo que crianças de qualquer confissão religiosa fossem aceitas. Foi assim que Yair Tawil, de família judia, se tornou o primeiro afilhado presidencial não católico. A cerimônia na Casa Rosada ocorreu 21 anos após os pais de Yair, Shlomo e Nehama Tawil, terem enviado a primeira carta solicitando o direito — um marco de diversidade religiosa na aplicação da lei.

Apesar da longevidade da norma, o futuro do Padrinazgo é incerto sob a administração de Javier Milei. O atual presidente, conhecido por suas críticas severas à construção da história oficial e por uma postura frequentemente classificada como de “antihistória” e “antimemória”, ainda não se manifestou sobre a manutenção da Lei 20.843.

Para um governo que busca desmantelar estruturas tradicionais do Estado e revisitar consensos históricos, uma lei que obriga o presidente a assumir um papel de tutor social baseado em folclore e assistência educacional integral representa um ponto de atrito ideológico. Até que haja uma mudança formal, o direito permanece vigente, mas sob a sombra de um governo que questiona o papel do Estado na preservação de memórias e tradições sociais.

A série Você sabia?, do Fronteira Livre, traz semanalmente os fatos mais intrigantes da política, da ciência e da história para expandir seus horizontes. Fique ligado na nossa próxima edição e descubra as engrenagens ocultas do mundo ao nosso redor.

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