Tirana, Albânia – Milhares de jovens tomaram as ruas da capital nesta sexta-feira (16) para exigir a renúncia imediata do primeiro-ministro Edi Rama. O protesto marca o quarto dia seguido de mobilizações lideradas por estudantes, que agora se espalham por várias cidades do país.
A tensão aumentou após meses de marchas pacíficas ignoradas pelo governo. Na quinta-feira (15), o centro de Tirana registrou vidraças quebradas, semáforos destruídos, a invasão de uma agência bancária e choques diretos com a tropa de choque.
Com receio de prisão, um jovem de 19 anos, identificado apenas como Enea, resumiu o esgotamento dos estudantes:
“Estão nos levando ao limite. Renuncie o mais rápido possível, antes que tudo pegue fogo.”
A pauta dos estudantes reúne denúncias de corrupção estatal, sucateamento do ensino público e a cessão de áreas preservadas na costa para a construção de um resort de luxo. O projeto imobiliário tem como investidor Jared Kushner, genro do ex-presidente americano Donald Trump.
Em frente ao Ministério da Educação, manifestantes mascarados ficaram frente a frente com o cerco policial. Comerciantes fecharam as portas e colaram cartazes nas vitrines pedindo respeito aos pontos comerciais: “Estamos com vocês. Não destruam nossos negócios”.
A revolta também avançou pelo interior. Na cidade costeira de Lezha, grupos entraram em confronto com a polícia, atirando pedras. Em Elbasan, Shkodra e Korça, manifestantes quebraram fachadas e atearam fogo em contêineres de lixo.
Klea, de 19 anos, justificou o endurecimento dos atos diante da recusa de diálogo por parte das autoridades:
“Protestamos pacificamente por 140 dias, e ninguém nos ouviu. Esta é nossa única chance de sermos ouvidos e conquistarmos os direitos que merecemos.”
A cessão de terras para o empreendimento imobiliário gerou disputas com famílias locais. Em julho, moradores relataram que suas propriedades foram tomadas de maneira irregular para abrir espaço às obras. Posteriormente, promotores revelaram que o responsável pela negociação das áreas é foragido da Justiça sob acusação de tráfico de drogas, o que sua defesa nega.
Documentos e investigações de imprensa não apontam crimes cometidos por Kushner nem ligação direta dele com os despejos na região. Mesmo assim, o repasse de terras públicas e áreas de preservação a grupos econômicos estrangeiros alimenta a revolta popular.
O cientista político Afrim Krasniqi explicou a falta de perspectivas materiais e sociais que atinge os jovens no país:
“Elas veem que todos os recursos do país — políticos, econômicos, tudo — estão nas mãos dos oligarcas.”
Edi Rama obteve o quarto mandato no ano passado com o compromisso de concluir a entrada da Albânia na União Europeia até 2028. Em mensagem publicada no Facebook, o premiê sinalizou que não pretende recuar:
“Não nos curvaremos à violência.”
Embora o país balcânico figure entre os mais avançados nas negociações de adesão ao bloco europeu, o processo segue travado pela influência do crime organizado, pela lavagem de capitais do tráfico e pela impunidade de redes criminosas.
O levante juvenil na Albânia reflete tensões estudantis vistas em outros pontos da Europa. Na França, estudantes de ensino médio realizam bloqueios há semanas contra o déficit de professores, a superlotação das salas e o abandono estrutural dos colégios.



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