Luziânia, GO – Pesquisadores de três universidades públicas e comunitárias identificaram uma nova espécie de rã-de-vidro vivendo nas matas ciliares do Cerrado goiano. Batizado de Vitreorana micaelae, o anfíbio tem corpo esverdeado, aspecto quase transparente e pouco mais de 2 centímetros de comprimento. O animal foi localizado ao longo de riachos que deságuam no Rio Corumbá, no município de Luziânia, no entorno do Distrito Federal.
O trabalho de campo e laboratório reuniu especialistas da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade de Brasília (UnB), sob a coordenação do biólogo Wilian Vaz-Silva. A identificação formal da nova espécie de rã-de-vidro foi publicada na edição de setembro do periódico científico internacional ZooKeys.
A descoberta amplia a presença desse grupo no Cerrado. As rãs-de-vidro costumam habitar trechos úmidos da Mata Atlântica e da Amazônia. Com a confirmação da Vitreorana micaelae, o gênero passa a somar 11 espécies reconhecidas no planeta, sendo quatro encontradas em território brasileiro e apenas duas com ocorrência exclusiva no Cerrado.
Para comprovar que se tratava de um animal inédito para a ciência, a equipe combinou exames genéticos, análises de anatomia externa e gravações sonoras. Um registro feito na mesma região em 2013 havia catalogado o anfíbio de forma equivocada como Vitreorana eurygnatha, uma espécie já conhecida.
Biólogo integrante da equipe e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário, Reuber Brandão explicou os passos da investigação: “Depois que esses animais foram encontrados e o canto gravado, a gente partiu para avaliação, a comparação com outros grupos das rãs-de-vidro, porque essas rãs de vidro são, de modo geral, mais restritas à Mata Atlântica e Amazônia”.
As diferenças surgiram nos detalhes físicos e no som emitido pelo animal. “Do ponto de vista bioacústico, é um bicho com muito menos notas de canto. Tem diferenças sutis, mas consistentes, na forma da íris, na pigmentação dorsal e na morfologia, especialmente da região próxima à cloaca”, disse Brandão.
O comportamento do pequeno anfíbio também explica por que ele passou tanto tempo sem identificação, inclusive entre ribeirinhos e moradores do campo. A espécie não tem nome popular na região porque raramente é vista ou ouvida.
“Esse bicho canta no alto de árvores em barrancos inclinados na beira do rio, e só quando está chovendo intensamente. Então, mesmo para a gente que está em campo procurando esses animais ativamente, leva tempo até encontrar populações na região”, afirmou o biólogo. Ele completou: “As pessoas têm mais nomes populares para anfíbios que cantam de forma mais evidente, como sapo-martelo, sapo-cachorro. Então, são espécies que, quando você vai ver, nem sapo é, é perereca ou é uma rãzinha”.
O ciclo reprodutivo do animal é diretamente dependente da preservação da vegetação ripária e dos cursos d’água limpos. O casal deposita os ovos colados em folhas de copas altas. O macho cuida da desova até o nascimento. Ao eclodirem, os girinos despencam das folhas direto nas águas correntes do riacho e se enterram nos sedimentos do fundo para completar o desenvolvimento.
O nome de batismo da espécie homenageia a bióloga Micaela de Jolepian L. Vaz, mulher de Wilian Vaz-Silva, em reconhecimento à cooperação nas etapas de pesquisa.
O artigo científico recomenda que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifique a espécie sob a categoria Dados Insuficientes (DD). Essa definição técnica indica a necessidade de novos levantamentos sobre o tamanho real da população e as pressões diretas sobre as áreas onde ela vive. Brandão adiantou que o grupo localizou recentemente outro ponto de ocorrência no Cerrado, totalizando três áreas conhecidas, em dados ainda não publicados.
A sobrevivência da Vitreorana micaelae e de outros anfíbios do bioma corre risco direto diante do desmatamento acelerado das matas de galeria, da construção de represas para pequenas centrais hidrelétricas e das mudanças climáticas, que desregulam o regime de chuvas. Sem água limpa e sem vegetação nativa contínua nas margens, as populações desaparecem antes mesmo de serem catalogadas. Como alertou Reuber Brandão: “Menos chuva, menos riachos, menos sapos e rãs e menos descobertas”.



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