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Flávio Bolsonaro pagou R$ 600 mil por manipulação eleitoral

Reportagem do Intercept Brasil revela pagamentos do candidato à Elytron, que comercializa sistemas clandestinos de desinformação nos EUA.

Contratos revelados por ex-consultor mostram tecnologia de perfis falsos e boatos oferecida nos EUA Imagem: Reprodução/Intercept Brasil

Brasília, DF – O candidato da extrema-direita à Presidência da República pelo Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, pagou R$ 600 mil à empresa de cibersegurança Elytron, desenvolvedora de um sistema voltado à manipulação clandestina de pleitos eleitorais. A apuração foi publicada na sexta-feira (16) pelo site Intercept Brasil, em reportagem assinada pelos jornalistas Laís Martins, Leandro Becker e Eduardo Goulart.

O mecanismo comercializado pela companhia norte-americana coleta dados em larga escala para traçar o perfil detalhado dos eleitores. A partir desse mapeamento, a ferramenta viabiliza a difusão de mentiras, cria perfis falsos nas redes sociais e aplica técnicas de guerra psicológica para desestabilizar adversários políticos.

Documentos da investigação sustentam que tais práticas produzem comportamentos inautênticos no debate público. Esse padrão afasta a ferramenta de estratégias regulares de marketing político e a enquadra como operação clandestina de influência sobre o eleitorado.

A documentação financeira foi repassada pelo analista de dados norte-americano Vincent Edward Reed. Consultor da Elytron entre 2024 e 2025, Reed participou de negociações para ofertar a tecnologia à campanha de Donald Trump em 2024, sem confirmação de contratação pelos republicanos.

No caso brasileiro, os comprovantes emitidos pela Elytron registram pagamentos em nome de Flávio Bolsonaro. Antes de recorrer à imprensa, o analista denunciou o caso ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, decidindo procurar os repórteres após a falta de avanço nas investigações oficiais norte-americanas.

Reed ressaltou que possui os registros de pagamento, mas não dispõe de provas de que o sistema de manipulação tenha sido ativado pela campanha do PL nas eleições de 2026. O rompimento com a companhia decorreu de conflitos éticos e legais ao constatar a capacidade de intervenção do software:

“Quando vi a demonstração [do sistema] e o dashboard, pude entender do que era capaz. E isso foi preocupante para mim porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA.”

Segundo o analista, o produto foi vendido inicialmente como solução analítica convencional, até que sua aplicação prática evidenciou o objetivo de desvirtuar a disputa política:

“O termo manipulação foi de fato usado. E cada vez que eu ouço a palavra manipulação humana, especialmente quando envolve IA, me preocupa.”

O caso expõe a articulação de setores da extrema-direita com aparatos internacionais de vigilância e inteligência artificial, acentuando a disputa em torno da legitimidade do voto e os limites da legislação contra fraudes digitais.

Um dos comprovantes de pagamento de Flávio Bolsonaro à Elytron | Reprodução

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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