Español Português
AGORA

Argentina perde 31 mil empresas e 245 mil empregos formais

Queda atinge 14 dos 18 setores analisados, reduz empregos com carteira assinada e amplia a migração de trabalhadores para a informalidade, sem proteção social.

Linhas de produção industriais enfrentam retração de 2,6% no acumulado de 12 meses na Argentina. Foto: Allison Sales/Folhapress

Buenos Aires, Argentina – Sob a presidência de Javier Milei, a Argentina registrou o fechamento de 31,3 mil empresas, o equivalente a 6,1% do total de companhias em atividade no país. O impacto no mercado de trabalho resultou no encerramento de 245 mil postos formais ao longo de 31 meses.

“Se observarmos os dados do governo Milei, vemos que, durante essa gestão, o número de empresas caiu tanto quanto na pandemia”, avalia o último informe Monitor Mensal de Empresas, elaborado pelo centro de pesquisas argentino Fundar.

O levantamento da entidade compreende o intervalo entre novembro de 2023, quando Milei assumiu a chefia de Estado, e junho de 2026. A retração produtiva atingiu 14 dos 18 setores avaliados e castigou 23 das 24 províncias argentinas. A única exceção no mapa nacional foi a província de Neuquén, onde a extração de gás natural na bacia de Vaca Muerta sustenta a alta nas exportações.

O setor industrial segue em declínio, acumulando retração de 2,6% nos últimos 12 meses encerrados em julho de 2026. O pior índice coube à fabricação de equipamentos eletrônicos e médicos, que despencou 19,1% no mesmo período, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

Apenas no último mês analisado, 709 estabelecimentos encerraram operações. A lista inclui negócios tradicionais com mais de meio século de atividade, a exemplo da metalúrgica Din S.A. (do Grupo Govan) e da fábrica têxtil Clan Issime. O relatório da Fundar lembra que a Clan Issime “chegou a ter 129 funcionários, 14 lojas próprias e mais de cem pontos de venda terceirizados; no momento do fechamento, restavam 9 trabalhadores na fábrica”.

Desemprego e informalidade

O desmonte produtivo reflete diretamente na precarização da renda. Entre novembro de 2023 e junho de 2024, o mercado formal privado cortou 245,6 mil vagas, uma queda de 3,9%, de acordo com o Centro de Economia Política Argentina (Cepa).

A ocupação só não desabou por completo porque houve uma migração forçada de 169 mil pessoas para o trabalho autônomo, contingente que cresceu 8,3%. “Os empregos perdidos são parcialmente substituídos por atividades desprotegidas”, detalha o Cepa.

Diante desse quadro, a taxa de desemprego avançou 0,3 ponto percentual no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, atingindo 7,9% da população economicamente ativa, conforme as medições do Indec.

Inflação em queda e freio industrial

A perda de postos formais e a asfixia das indústrias contrastam com a desaceleração da inflação, bandeira central da gestão da Casa Rosada. A taxa acumulada em 12 meses caiu de 289% em abril de 2024 para 33,5% em agosto deste ano.

Em entrevista à Agência Brasil, o professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Paulo Gala explicou que essa estabilidade de preços é frágil. De acordo com o economista, o indicador decorre de cortes no orçamento público, de empréstimos bilionários contratados junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e de uma moeda artificialmente valorizada.

“A moeda sobrevalorizada ajuda a controlar a inflação, só que ela detona o setor industrial. Estamos vendo agora é a contração industrial, perda de empregos industriais, desemprego com quase 8% e o crescimento perdendo muito fôlego”, disse Gala. O professor apontou ainda a dívida externa de US$ 350 bilhões como sinal de alerta para a economia argentina, principal parceira comercial do Brasil na região.

Críticas da imprensa internacional

A política econômica de Milei, pautada em desregulamentação trabalhista, cortes orçamentários e abertura comercial irrestrita, começou a receber advertências até mesmo de veículos alinhados ao ideário de livre mercado.

Em editorial recente, a revista britânica The Economist cobrou mais crescimento econômico e menos “gritaria” da Casa Rosada, em referência ao comportamento beligerante do mandatário. “Os salários reais ainda são menores do que quando ele assumiu o cargo; empregos formais estão desaparecendo”, publicou a revista, observando que “Milei se mostrou relutante em aceitar que seus esforços para conter a inflação tenham prejudicado o crescimento”.

A resposta de Javier Milei

Em discurso no final de agosto, durante evento com economistas, Javier Milei contestou os diagnósticos sobre a crise. Ele defendeu que o país tem números favoráveis em exportações, consumo privado e inflação, além de citar o Produto Interno Bruto (PIB), que cresceu 4,4% em 2025 após ter encolhido 1,3% em 2024.

“Se fosse realmente o caso de todas as empresas estarem fechando e nenhuma abrindo, o desemprego teria que estar disparando, e o desemprego não está disparando”, declarou.

Milei também atacou os setores empresariais que reivindicam proteção do poder público: “Queremos ser grandes? Precisamos amadurecer, e esses capitalistas de compadrio precisam falir”, afirmou.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

Receba notícias no WhatsApp do Fronteira LivreReceba notícias no WhatsApp do Fronteira Livre

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *