Cambé, PR – Estudantes, mães e pais fecharam a entrada do Colégio Cívico-Militar Erico Veríssimo na manhã desta quarta-feira (20). O protesto no município do Norte paranaense cobra respostas após alunas flagrarem uma lente de gravação instalada dentro do sanitário feminino da escola.
O aparelho funcionava escondido atrás de uma estrutura afixada na alvenaria. Alunas já haviam questionado servidores sobre uma luz intermitente no local, mas a equipe gestora respondeu que o objeto era apenas um sensor contra incêndios.
Diante do flagrante, as estudantes acionaram a Polícia Civil. No boletim de ocorrência, formalizado junto à delegacia e divulgado pela RPC TV e pelo portal G1 Paraná, as jovens relatam o desrespeito à intimidade e a ausência de autorização familiar para qualquer filmagem daquele espaço:
“o que significa que seus corpos e sua nudez foram indevidamente expostos e registrados sem qualquer consentimento”
O caso não se limita a Cambé. Situação semelhante ocorreu no Colégio Cívico-Militar Etelvina Cordeiro Ribas, no bairro Pinheirinho, em Curitiba. A gravação em banheiros na capital levou o Ministério Público do Paraná (MPPR) a abrir inquérito civil para apurar a conduta do diretor e descobrir o destino e a custódia das imagens.
A vigilância ilegal em áreas íntimas intensifica as contestações ao modelo cívico-militar, projeto central da gestão do governador Ratinho Junior (PSD) e respaldado pela base de Sergio Moro (PL). Sob essa estrutura administrativa, a rede estadual acumula representações formais por violência física, assédio moral, assédio sexual e apologia à violência dentro das salas de aula.
Procurada sobre o episódio em Cambé, a Secretaria de Estado da Educação (Seed) informou que o Núcleo Regional de Educação (NRE) de Londrina acompanha a situação. Em resposta oficial, o órgão estadual reproduziu a posição enviada pela direção da escola:
“A escola informou que os equipamentos já foram retirados e que não há imagens armazenadas relacionadas a eles. Uma equipe do NRE realizará visita in loco para verificar a situação e orientar os próximos encaminhamentos”.
A pasta também alegou que atua para coibir abusos nas dependências escolares:
“o monitoramento nas unidades escolares deve respeitar integralmente a privacidade, a dignidade e a segurança dos estudantes e de toda a comunidade escolar, assegurando a adoção das medidas cabíveis após a apuração dos fatos”.
A pressão sobre a rotina dos colégios contrasta com o discurso oficial de eficiência pedagógica. Dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) apontam que as unidades cívico-militares avançaram de 3,7 para 4,8 no Ensino Médio e de 4,8 para 5,4 no Fundamental entre 2017 e 2023.
A subida das notas, entretanto, apoia-se em um filtro de exclusão social. Investigação do jornal Plural, cruzando microdados do Inep e da própria Seed-PR, revelou que cerca de 12,4 mil estudantes com distorção idade-série — jovens com histórico de repetência e vulnerabilidade — foram transferidos ou deixaram essas unidades no mesmo período.
Ao afastar os alunos que enfrentavam maiores dificuldades de aprendizagem, o programa cívico-militar produziu um indicador artificial de excelência, enquanto impôs um ambiente marcado por vigilância invasiva e controle sobre a comunidade escolar.



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