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Brasileiros de extrema direita migram para o Paraguai

País vizinho concedeu 9,2 mil permissões de residência a brasileiros nos três primeiros meses de 2026

Fronteira entre Brasil e Paraguai é uma das principais rotas de circulação entre os dois países. Foto: Banco de Imagens/Pinterest.

Assunção, PY – O número de brasileiros que solicitam residência no Paraguai mais que dobrou nos últimos cinco anos, em um movimento que reúne diferentes motivações econômicas e políticas. Entre os que se mudam para o país vizinho estão simpatizantes do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seu filho Flávio Bolsonaro, candidato presidencial da extrema direita, que consideram deixar o Brasil diante da possibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva conquistar um novo mandato nas eleições de 2026.

Para parte desse grupo, a mudança representa uma alternativa a um governo que responsabilizam pela deterioração da economia e pelo aumento da carga tributária. O descontentamento com a gestão de Lula e a perspectiva de uma nova derrota eleitoral do campo bolsonarista aparecem entre os motivos que levam esses brasileiros a considerar a vida do outro lado da fronteira.

O movimento ocorre em meio à disputa presidencial brasileira, cuja votação está prevista para ter segundo turno em 25 de outubro. Enquanto a eleição mobiliza eleitores em todo o país, alguns apoiadores do bolsonarismo já decidiram buscar residência no Paraguai, convencidos de que a situação econômica poderá piorar caso Lula permaneça no poder.

Jair Bolsonaro, ex-presidente condenado a 27 anos de prisão por sua participação em uma tentativa de golpe de Estado, continua sendo uma referência para esse grupo político. Seu filho Flávio busca representar eleitoralmente os seguidores do bolsonarismo como candidato da extrema direita.

Paraguai concede milhares de residências a brasileiros

Os números das autoridades migratórias paraguaias ajudam a dimensionar o movimento. Em 2025, o país concedeu um recorde de 40.600 permissões de residência a cidadãos estrangeiros. Desse total, 23.500 foram destinadas a brasileiros, que constituíram a maior parcela dos beneficiários.

A tendência continuou no início de 2026. Somente nos três primeiros meses do ano, as autoridades paraguaias emitiram 9.200 permissões de residência para cidadãos brasileiros. Os dados indicam que a procura permanece elevada, mas não identificam as razões individuais que levaram cada pessoa a solicitar o documento.

Localizado entre o Brasil e a Argentina, o Paraguai é visto por alguns brasileiros como um refúgio fiscal. Essa percepção está relacionada às diferenças entre os sistemas tributários dos dois países e à insatisfação de determinados contribuintes com a política econômica do governo Lula.

A mudança, porém, não se explica apenas pela tributação. Para brasileiros alinhados ao bolsonarismo que rejeitam a continuidade do atual governo, viver no Paraguai também representa uma forma de se afastar de um ambiente político que consideram desfavorável.

Ponte da Amizade mantém fluxo entre os dois países

A proximidade entre os territórios facilita a mudança. Na fronteira entre Brasil e Paraguai, centenas de carros e caminhões atravessam diariamente a Ponte da Amizade, que liga os dois países. Entre as pessoas que circulam pela região estão brasileiros que pretendem permanecer no país vizinho.

A ligação terrestre permite que os migrantes mantenham vínculos com o Brasil enquanto organizam uma nova vida no Paraguai. A concessão de milhares de permissões de residência também evidencia a presença expressiva da população brasileira em território paraguaio.

Apesar do crescimento dos pedidos, os números disponíveis não permitem atribuir o aumento da imigração exclusivamente à polarização política ou à busca por vantagens tributárias. As estatísticas não detalham as motivações de todos os novos residentes nem informam quantos apoiam Jair Bolsonaro ou sua família.

A presença de simpatizantes da extrema direita entre os brasileiros que se mudam para o Paraguai, no entanto, mostra como a disputa política brasileira também repercute além das fronteiras nacionais. Para esse grupo, a possibilidade de uma nova vitória de Lula é um dos fatores considerados na decisão de viver em outro país.

O movimento combina, assim, razões econômicas e políticas, embora a dimensão de cada uma delas ainda não possa ser determinada com os dados apresentados. O aumento das permissões de residência confirma a expansão da presença migratória brasileira no Paraguai, mas não permite concluir que todos os que cruzam a fronteira compartilhem as mesmas posições políticas ou os mesmos objetivos.

Steve Rodríguez

*Steve Rodríguez é repórter do Fronteira Livre, pesquisador e doutorando pela UNILA com formação interdisciplinar em narrativa audiovisual, estudos culturais latino-americanos e práticas pedagógicas anticoloniais. Sua trajetória combina criação artística (teatro, cinema e cultura visual) com reflexão teórica, orientada pela perspectiva dos estudos visuais de Nicholas Mirzoeff.

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