Curitiba (PR) – Uma queda de menos de um metro de altura foi suficiente para transformar completamente a vida do caminhoneiro Divonzir Senca Cardozo, de 64 anos. O acidente provocou uma grave lesão na medula cervical e o diagnóstico inicial de tetraplegia. Desde então, a rotina passou a ser marcada por cirurgias, fisioterapia diária e um tratamento que reúne pesquisa científica e assistência especializada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Divonzir faz parte do grupo de pacientes que recebeu a aplicação da polilaminina, proteína experimental desenvolvida por pesquisadores brasileiros para investigar novas possibilidades de tratamento de lesões medulares agudas. Após o procedimento, ele iniciou um acompanhamento intensivo no Centro Hospitalar de Reabilitação Ana Carolina Moura Xavier, unidade integrada ao Complexo Hospitalar do Trabalhador (CHT), em Curitiba.
A proteína ainda está em fase de pesquisa clínica e não possui aprovação definitiva da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso amplo. Por isso, sua utilização ocorre dentro de protocolos científicos rigorosos, acompanhados por equipes médicas especializadas. No Paraná, 17 pessoas já participaram desse tratamento experimental.
Tão importante quanto a aplicação da proteína é o trabalho realizado nas semanas seguintes. Durante o período de internação, cada paciente passa por um programa intensivo de recuperação que inclui sessões de fisioterapia três vezes ao dia, além do acompanhamento permanente de médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos e outros profissionais responsáveis por estimular funções motoras, neurológicas e ampliar a autonomia nas atividades cotidianas.
“Quando recebi a notícia de que faria a aplicação, fiquei muito feliz. Agora é seguir fazendo fisioterapia e continuar lutando. Se Deus quiser, quero voltar a andar”, afirma Divonzir.
Para a filha, Vanderleia Cardozo, o tratamento representou uma mudança de perspectiva após o impacto provocado pelo acidente.
“Foi desesperador. Meu pai sempre foi um homem muito ativo. Hoje temos esperança porque ele está sendo acompanhado por uma equipe preparada, que cuida dele todos os dias.”
Outro paciente acompanhado pelo mesmo protocolo é o aposentado João Luiz Micheline, de 71 anos. Após sofrer uma lesão medular em consequência de uma queda, ele foi o primeiro a receber a polilaminina em Curitiba. Desde então, recuperou parte da sensibilidade, voltou a controlar funções urinárias e intestinais e passou a apresentar contrações musculares em membros inferiores, avanços comemorados pela equipe que acompanha sua evolução.
Apesar desses resultados, os especialistas reforçam que ainda não é possível afirmar qual é a participação direta da polilaminina na recuperação clínica dos pacientes. O ortopedista Bruno Bodanese, gerente técnico do Centro Hospitalar de Reabilitação, explica que fatores como o tipo de lesão, o tempo de atendimento, as condições clínicas individuais e a intensidade do acompanhamento realizado pela equipe multiprofissional também influenciam o processo.
“Ainda é cedo para determinar qual é o efeito específico da polilaminina. A evolução observada também está relacionada ao trabalho multidisciplinar realizado diariamente com cada paciente.”
Além dos exercícios motores e do fortalecimento muscular, o tratamento inclui terapias voltadas ao equilíbrio, ao controle do tronco, à recuperação da função pélvica e, conforme a evolução clínica, atividades em piscina terapêutica. Cada etapa é planejada individualmente, respeitando os limites e as necessidades de cada pessoa.
Entre os casos mais recentes está o da jovem Ana Beatriz Cruz, de 22 anos, que sofreu uma grave lesão medular após ser atingida por um galho de árvore em Curitiba. Depois de passar por cirurgia e receber a aplicação da proteína experimental, ela teve alta hospitalar e iniciou a fase de recuperação acompanhada pela equipe especializada.
Embora a polilaminina represente uma das pesquisas brasileiras mais promissoras voltadas às lesões da medula espinhal, os próprios pesquisadores destacam que os estudos ainda precisam avançar para comprovar sua eficácia e segurança em larga escala. Até que esse processo seja concluído, o cuidado diário oferecido por equipes multiprofissionais permanece como uma das principais ferramentas para ampliar a qualidade de vida e favorecer a recuperação funcional de pessoas que convivem com lesões medulares.
Ao reunir pesquisa científica desenvolvida no país, atendimento público especializado e acompanhamento intensivo pelo SUS, o protocolo implantado no Paraná demonstra que inovação e assistência caminham lado a lado. Mais do que acompanhar uma terapia experimental, o trabalho das equipes busca devolver autonomia, preservar a dignidade e oferecer novas perspectivas a pessoas que tiveram suas vidas transformadas por um trauma súbito.


















