Foz do Iguaçu, PR – Em um momento em que o biogás deixa de ser visto apenas como solução ambiental para assumir papel estratégico na transição energética brasileira, o Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás) fortalece uma das áreas mais relevantes para o crescimento do setor: a inteligência técnica aplicada à tomada de decisão.
Em 2026, a instituição completa 15 anos de atuação em projetos de biogás e celebra também um marco importante de seu Laboratório de Biogás (Labiogás): dez anos de acreditação pela Coordenação-Geral de Acreditação do Inmetro (CGCRE) para o ensaio de Potencial Bioquímico de Metano (PBM), conforme a norma ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017.
Mais do que uma certificação, a acreditação representa uma trajetória baseada em confiabilidade, imparcialidade e rigor técnico, fatores cada vez mais relevantes em um mercado que cresce em escala, complexidade e demanda por dados qualificados.
“Quando falamos em biogás e biometano, falamos de decisões que envolvem investimento, engenharia, operação, meio ambiente e estratégia energética. A função do CIBiogás é justamente dar segurança para essas decisões, com conhecimento técnico, independência e capacidade de transformar dados em soluções aplicáveis. O laboratório é uma parte essencial dessa construção, porque ele conecta o potencial de cada resíduo à realidade de cada projeto”, afirma Daiana Gotardo Martinez, diretora técnica do CIBiogás.
Mercado em expansão aumenta demanda por dados confiáveis
O fortalecimento da estrutura laboratorial acompanha a expansão do mercado nacional. De acordo com o Panorama do Biogás no Brasil 2025, o país alcançou 1.803 plantas cadastradas, sendo mais de 1.700 em operação, com produção estimada em 4,96 bilhões de Nm³ por ano.
Além disso, o levantamento aponta crescimento médio anual de 15% no número de plantas e de 13% no volume de produção nos últimos cinco anos. Como resultado, o setor apresenta maior maturidade, expansão de projetos e novas oportunidades de aproveitamento energético.
Nesse contexto, o papel do laboratório vai além da emissão de laudos. Ativo desde 2011, antes mesmo da formalização do CIBiogás, o Labiogás tornou-se referência na caracterização de resíduos orgânicos com potencial energético, apoiando projetos de pesquisa, desenvolvimento e iniciativas de mercado voltadas à implantação, otimização e operação de plantas de biogás.
Ao longo de sua trajetória, o laboratório realizou mais de 50 mil ensaios, analisou mais de 500 tipos de substratos e misturas e alcançou capacidade para processar mais de 60 amostras simultaneamente.
Além da atuação nacional, o Labiogás também já prestou serviços para clientes do Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia e Jordânia, ampliando sua presença internacional e consolidando o posicionamento do CIBiogás como referência técnica para projetos de biogás e biometano.
Ensaios ajudam a reduzir riscos e orientar investimentos
Entre os principais serviços oferecidos está o ensaio de Potencial Bioquímico de Metano (PBM), utilizado para estimar a capacidade de geração de biogás e metano de resíduos específicos.
A informação é considerada estratégica para avaliar a viabilidade energética de projetos, dimensionar sistemas, definir a alimentação de biodigestores e estimar o potencial de retorno econômico.
Embora a acreditação não seja obrigatória para o setor, o CIBiogás optou por submeter seus processos à avaliação externa. Dessa forma, garante padrões internacionais de qualidade, rastreabilidade, confidencialidade e imparcialidade.
Além do PBM, o laboratório realiza análises físico-químicas em substratos e digestatos, incluindo sólidos totais, sólidos fixos e voláteis, alcalinidade, pH, FOS/TAC, demanda química de oxigênio, sulfato, amônio, nitrogênio, fósforo e potássio.
Esses ensaios contribuem para a definição da carga de alimentação dos biodigestores, monitoramento da estabilidade dos processos, identificação de inibidores, avaliação do desempenho operacional e recomendação do uso agrícola dos digestatos.
Reatores de bancada ampliam capacidade de pesquisa e validação
Nos últimos anos, o Labiogás também passou a operar reatores de bancada capazes de reproduzir, em escala laboratorial, condições reais de biodigestão.
Desde 2018, essa estrutura é utilizada para testes personalizados que consideram variáveis como tipo de inóculo, tempo de retenção, carga orgânica, frequência de alimentação e parâmetros de monitoramento.
Atualmente, o laboratório opera modelos de mistura completa (CSTR) e de lagoa coberta (BLC), permitindo a realização simultânea de ensaios comparativos entre controle e tratamento.
Com isso, empresas de biotecnologia e operadores de plantas conseguem validar produtos, aditivos, combinações de resíduos e alterações operacionais antes de aplicá-los em escala real, reduzindo riscos técnicos e econômicos.
Nova estrutura deve impulsionar pesquisas em rota seca
A próxima etapa de expansão envolve a aquisição de um novo reator de bancada em estágio sólido, inspirado em tecnologias de rota seca e projetado para trabalhar com resíduos de maior teor de sólidos.
A iniciativa amplia a capacidade de simulação de tecnologias ainda pouco difundidas no Brasil e abre novas possibilidades para o aproveitamento energético de resíduos que demandam rotas diferentes da biodigestão líquida convencional.
“Cada amostra que chega ao laboratório carrega uma pergunta de projeto. Às vezes, o cliente quer saber se um resíduo pode gerar biogás; em outros casos, precisa entender quanto desse substrato pode entrar na alimentação de uma planta, se há risco de instabilidade ou se um produto biotecnológico realmente melhora a produção. Nosso trabalho é responder essas perguntas com método, rastreabilidade e interpretação técnica”, explica Franciele Natividade, gerente do Labiogás.
Biometano amplia desafios e oportunidades para o setor
A evolução do laboratório acompanha uma transformação mais ampla do mercado. Se anteriormente o biogás estava fortemente associado à geração de energia elétrica e à gestão de resíduos, atualmente o crescimento do biometano e de novas moléculas renováveis exige análises cada vez mais robustas.
Segundo o Panorama do Biogás no Brasil 2025, o biometano já representa 34% do volume de biogás utilizado no país. Apesar de estar presente em um número menor de plantas, essas unidades operam em escalas maiores.
Além disso, o setor observa o avanço de novas rotas tecnológicas voltadas à produção de gás de síntese, metanol renovável, combustíveis sintéticos e combustível sustentável de aviação (SAF).
Diante desse cenário, cresce a importância de estruturas capazes de conectar pesquisa, operação e mercado.
Histórico de projetos pioneiros fortalece atuação nacional
Ao longo de sua trajetória, o CIBiogás participou de projetos que contribuíram para comprovar a viabilidade técnica e econômica do biogás e do biometano no Brasil.
Entre as iniciativas estão o GEF Biogás Brasil, a Unidade de Demonstração de Biocombustíveis da Itaipu, a Central de Bioenergia de Toledo e a Unidade de Hidrocarbonetos, voltada à produção de hidrocarbonetos renováveis a partir de biogás e hidrogênio verde.
Atualmente, a instituição soma mais de 25 projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D+I), atendimento a mais de 50 empresas públicas e privadas, atuação em 22 estados brasileiros e capacitação de mais de 5 mil profissionais, alcançando 27 países.
“O setor amadureceu e hoje exige respostas mais integradas. Não basta dizer que há potencial de geração de biogás. É preciso entender a qualidade do substrato, a estabilidade do processo, a aplicação energética, o modelo de negócio, a regulação, os riscos e as oportunidades. A força do CIBiogás está em olhar para essa cadeia de forma completa, desde a bancada até a planta, desde o dado laboratorial até a estratégia de mercado”, reforça Daiana Gotardo Martinez.
Laboratório acompanha nova fase de crescimento do biogás no Brasil
Com a expansão das plantas, o aumento da produção e o avanço de novas tecnologias, cresce também a necessidade de metodologias confiáveis, análises precisas e capacidade de simulação antes da tomada de decisão.
Nesse cenário, o laboratório torna-se um ambiente estratégico para caracterizar resíduos, testar hipóteses, reduzir riscos e validar oportunidades energéticas.
“Hoje, quando falamos em biometano, bioprodutos, rota seca ou operação de reatores de bancada, estamos falando de um mercado que precisa testar mais, comparar mais e decidir com mais segurança. A nossa missão é oferecer essa base técnica para que projetos de biogás e biometano saiam do campo das possibilidades e avancem com consistência”, conclui Franciele Natividade.
Ao completar 15 anos de atuação, o CIBiogás reforça seu papel no desenvolvimento da cadeia do biogás e do biometano, unindo ciência, inovação e inteligência técnica para transformar resíduos orgânicos em soluções energéticas sustentáveis.


















