93% dos brasileiros acreditam que jovens estão viciados em redes sociais. 72% das crianças avaliadas pela UFMG tiveram aumento da depressão ligado ao celular. O Brasil é o país onde as pessoas ficam mais tempo nas redes no mundo — e os adolescentes estão no centro dessa crise
Por Dr. João Paulo Mendes

Às 23h, enquanto o pai acha que o filho está dormindo, o celular ainda está ligado. A tela ilumina o rosto no escuro, o feed não para, e o cérebro — que deveria estar em repouso — processa notificação atrás de notificação. Isso não é cena rara. É a rotina de milhões de adolescentes brasileiros. E a ciência já sabe, com clareza crescente, o que essa rotina está fazendo com a saúde mental deles.
O Brasil é o país onde as pessoas passam mais tempo em redes sociais no mundo inteiro: 3 horas e 32 minutos por dia, segundo o Relatório Digital 2025 da We Are Social e Meltwater. Entre adolescentes, o cenário é ainda mais intenso. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, realizada pelo Cetic.br com mais de dois mil jovens de 9 a 17 anos, mostrou que 93% estão online — e que a maioria acessa as redes várias vezes ao dia, pelo próprio celular, dentro de casa.
O que os dados revelam

Os números são difíceis de ignorar. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, 99% possuem perfil ativo em pelo menos uma rede social. O Instagram é a plataforma preferida de quem tem entre 13 e 14 anos — faixa em que o cérebro ainda está em pleno desenvolvimento e é mais vulnerável à comparação social. O TikTok alcança 50% dos usuários de 9 a 17 anos com acesso diário frequente.
Pesquisa do Instituto Alana com o Datafolha, de setembro de 2024, mostrou que 93% dos brasileiros concordam que os jovens estão se tornando viciados em redes sociais e que 75% acreditam que eles passam tempo demais conectados. Estudo da Faculdade de Medicina da UFMG encontrou que 72% das crianças avaliadas apresentaram aumento de sintomas depressivos associados ao uso do celular.
Outro dado alarmante vem do PISA: oito em cada dez estudantes brasileiros de 15 anos relataram se distrair com o celular durante as aulas de matemática — bem acima da média de países como Japão (18%) e Coreia do Sul (32%).
“Adolescentes que passam mais de três horas por dia nas redes apresentam maiores níveis de ansiedade, depressão e baixa autoestima.”
Revisão de literatura — Sociedade Paulista de Dor em Medicina, 2024
O que acontece no cérebro adolescente
Para entender por que os adolescentes são mais vulneráveis do que os adultos, é preciso entender um detalhe fundamental de neurociência: o córtex pré-frontal — responsável por tomada de decisão, controle de impulsos e avaliação de consequências — só termina de se desenvolver por volta dos 25 anos. Enquanto isso, o sistema límbico, que processa emoções e recompensas, já opera em plena potência.
Resultado: o adolescente sente o prazer do like, da curtida e da notificação de forma mais intensa do que qualquer adulto. E sente a ausência disso — o silêncio digital, o post que não foi curtido, a mensagem sem resposta — com uma dor igualmente amplificada. Os algoritmos das plataformas foram projetados exatamente para explorar esse mecanismo. Não é acidente. É design.
Dopamina, comparação e o ciclo sem fim
Cada notificação ativa o sistema de recompensa do cérebro, liberando dopamina — o mesmo neurotransmissor envolvido nas dependências químicas. O ciclo se instala rapidamente: o jovem posta, aguarda curtidas, sente ansiedade na espera, recebe a validação, sente alívio momentâneo e posta de novo.
Revisão de 26 estudos (2020-2025) identificou associação consistente entre uso passivo das redes e diminuição da autoestima em adolescentes. O uso passivo — só rolar o feed — mostrou-se mais danoso do que o uso ativo, com criação de conteúdo e troca genuína.
O que a pesquisa mostra
Um estudo com 513 estudantes identificou que 35,9% usavam redes sociais cinco horas ou mais por dia. Dentro desse grupo, os índices de ansiedade, depressão, estresse e comportamento suicida foram significativamente maiores do que nos demais. A relação não é coincidência: quanto mais tempo passivo no feed, maior o risco.
O sono é outra vítima direta. Pesquisa de 2024 revelou que 65% dos jovens relatam problemas de sono ligados ao uso das redes até tarde. Dado ainda mais preocupante: 59% dos adolescentes monitorados usavam o celular entre meia-noite e cinco da manhã — horário em que o cérebro em desenvolvimento deveria estar em recuperação profunda.
A comparação constante com imagens editadas corrói a autoestima de forma lenta e acumulativa. O jovem não percebe o processo — ele só sente o resultado: a sensação crescente de que não é suficiente, não é bonito o bastante, não vive uma vida interessante o suficiente.
O isolamento vem depois, quando as relações presenciais começam a parecer menos estimulantes do que a tela. E o cyberbullying fecha o ciclo: a violência digital deixa rastros permanentes que palavras ditas ao vivo nunca deixariam.
O sono que vai embora
Dos muitos danos documentados, a destruição do sono talvez seja o mais subestimado. A luz azul emitida pelas telas suprime a produção de melatonina — o hormônio que regula o ciclo de sono. Quando o adolescente usa o celular na cama, está basicamente enganando o cérebro, dizendo a ele que ainda é dia.
Pesquisa publicada na revista PLOS Mental Health concluiu que a dependência digital causa alterações cerebrais mensuráveis em adolescentes, afetando comportamento, atenção e regulação emocional.
A OMS reconhece a dependência de dispositivos digitais como transtorno desde 2018. E um adolescente que não dorme bem é um adolescente com humor instável, baixa concentração e reatividade emocional aumentada — tudo isso alimentando ainda mais o sofrimento psíquico.
Meninas sofrem mais — e a ciência já sabe por quê
Os dados mostram uma disparidade de gênero clara: as meninas são afetadas de forma mais intensa. As plataformas que dominam o tempo delas — Instagram e TikTok — são construídas em torno da imagem corporal, aparência e comparação estética.
O feed é uma vitrine constante de corpos editados, rostos com filtro e vidas curadas para parecerem perfeitas.
A pesquisa TIC Kids Online 2024 mostrou que 46% das meninas de 9 a 17 anos contam aos pais sobre coisas que as incomodam na internet — contra 28% dos meninos. As meninas sofrem mais e ainda assim verbalizam mais o desconforto. Um sinal de saúde — mas também a evidência de que o ambiente digital está causando angústia real e cotidiana nelas.
A resposta do Estado — e o que ela revela
Em 13 de janeiro de 2025, o presidente Lula sancionou a Lei nº 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares por estudantes em escolas públicas e privadas de todo o país — incluindo recreio e intervalos. A lei vale para educação infantil, ensino fundamental e ensino médio.
A medida não veio do nada. Uma pesquisa Datafolha de outubro de 2024 mostrou que 62% da população é a favor da proibição. O levantamento da Nexus apontou 86% favoráveis à restrição, sendo que 54% apoiam a proibição total.
A lei acompanha um movimento global: França, Itália, Holanda, Espanha, Dinamarca, Canadá e México já têm legislações semelhantes.
Mas a escola é só parte da equação. O adolescente passa, em média, apenas seis horas por dia lá. As outras dezoito — incluindo as da madrugada — são responsabilidade da família, dos serviços de saúde e, em última instância, das próprias plataformas, que continuam operando sem regulação efetiva sobre o impacto que causam.
“70% dos participantes relataram sentir angústia emocional após o uso prolongado de redes — principalmente por comparação e medo de exclusão social.”
Matos e Godinho, 2024 — Revista Foco
O que fazer na prática
A OMS e a Academia Americana de Pediatria recomendam no máximo duas horas de tela por lazer ao dia para adolescentes, sem uso de dispositivos na hora de dormir.
O ponto de partida mais simples — e mais eficaz — é tirar o carregador do quarto. Parece pouco. Funciona muito.
Proibir de forma rígida costuma gerar o efeito contrário: uso escondido, sem supervisão e sem conversa. O que pesquisas apontam como mais efetivo é o acordo combinado — horários definidos juntos, períodos offline durante as refeições, e adultos que também largam o próprio celular na mesa. O exemplo pesa mais do que qualquer regra.
A conversa sobre o que o jovem vê nas redes importa. Não o interrogatório, mas o interesse genuíno: quem ele segue, o que acha desses conteúdos, como se sente após usar. Esse diálogo constrói o que nenhum aplicativo de controle parental consegue: confiança suficiente para o adolescente pedir ajuda quando precisar.
Se o comportamento mudar de forma persistente — sono comprometido, irritabilidade fora do comum, queda no rendimento escolar, afastamento dos amigos de verdade — é hora de buscar avaliação com médico de família, pediatra ou psiquiatra infantojuvenil.
Duas semanas de sintomas é o prazo que a clínica usa como referência para diferenciar uma fase difícil de algo que precisa de cuidado.
Quando buscar ajuda profissional
Nem todo adolescente que usa muito o celular vai desenvolver um transtorno mental. O que a ciência mostra é que existe uma dose-resposta: quanto maior o tempo de uso passivo, quanto mais tarde vão dormir e quanto mais substituem relações presenciais por digitais, maior o risco.
Os sinais de alerta que merecem atenção clínica incluem humor persistentemente deprimido, choro frequente, perda de interesse em atividades antes prazerosas, isolamento social, queda no rendimento escolar e, nos casos mais graves, falas ou pensamentos sobre morte.
O celular não vai desaparecer. As redes sociais também não. A pergunta não é se os adolescentes vão usar — é como, quanto e com que suporte vão navegar por um ambiente projetado por adultos, financiado por anunciantes, e que nunca foi pensado para proteger a saúde mental de quem ainda está crescendo.
Nota médica
Esta coluna tem caráter informativo e educativo. Não substitui consulta com profissional de saúde. Se o adolescente apresenta sinais de sofrimento psíquico persistente, procure o médico de família, o pediatra ou uma UBS. Em casos de crise, o CVV atende pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Fontes e referências
- Cetic.br / NIC.br — TIC Kids Online Brasil 2024. Publicado em outubro de 2024.
- We Are Social / Meltwater — Relatório Digital 2025: Global Overview Report.
- Instituto Alana / Datafolha — Pesquisa sobre uso de redes sociais por jovens brasileiros, setembro de 2024.
- UFMG, Faculdade de Medicina — Estudo sobre uso de celular e depressão em crianças e adolescentes.
- Matos, K.A.; Godinho, M.O.D. — A influência do uso excessivo das redes sociais na saúde mental de adolescentes. Revista Foco, 2024.
- Gil, L.D.; Domingues, A.R. — Os impactos à saúde mental causados pelo uso de redes sociais digitais em adolescentes. UNIFESP, 2024.
- PLOS Mental Health — Estudo sobre dependência digital e alterações cerebrais em adolescentes, 2024.
- OCDE / PISA — Dados sobre distração com celular em sala de aula, 2023.
- Presidência da República — Lei nº 15.100/2025. Sancionada em 13 de janeiro de 2025.
- OMS — Reconhecimento da dependência digital como transtorno, CID-11, 2018.
- Common Sense Media / Universidade de Michigan — Estudo sobre uso de celular por adolescentes de 11 a 17 anos, 2024.
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*Dr. João Paulo Mendes é pós-graduando em Psiquiatria, mestrando em Saúde Pública e médico com foco em saúde mental e medicina do trabalho. Escreve sobre políticas públicas de bem-estar e os impactos do esgotamento ocupacional.
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