Foz do Iguaçu (PR) — A Prefeitura de Foz do Iguaçu apresentou, nesta quarta-feira (20), os dados finais do I Censo da População em Situação de Rua, levantamento inédito que identificou ao menos 601 pessoas vivendo nas ruas do município. O estudo traça um perfil social, econômico e territorial dessa população e deve servir de base para a formulação de políticas públicas voltadas ao atendimento, acolhimento e redução da vulnerabilidade social na cidade.
A apresentação ocorreu no auditório da Estação Cultural Haroldo Alvarenga e reuniu representantes do poder público, pesquisadores, movimentos sociais e instituições parceiras envolvidas na construção do levantamento.
Os números revelam uma realidade marcada pela exclusão social, pelo deslocamento migratório e pela fragilidade das políticas públicas voltadas à população em situação de rua na fronteira. Segundo os dados, 83,12% das pessoas identificadas são homens, enquanto 67,66% se autodeclaram pretos ou pardos. A média de idade é de 40 anos e 89,27% declararam ser heterossexuais.
Outro dado que chama atenção é o perfil migratório dessa população. Apenas 16,7% nasceram em Foz do Iguaçu. Os demais vieram de outras cidades, estados ou países. Do total identificado, 17,2% são estrangeiros, principalmente argentinos e venezuelanos.
O levantamento também aponta que os principais fatores relacionados à ida para as ruas são conflitos familiares (30,93%), uso abusivo de álcool e outras drogas (23,19%) e desemprego ou perda de renda (8,96%). Além disso, quase 20% dos entrevistados afirmaram ter passado a viver nas ruas após a pandemia da Covid-19, evidenciando o agravamento das desigualdades sociais nos últimos anos.
Cidade expõe desafio social crescente
Os dados apresentados revelam que a situação de rua em Foz do Iguaçu vai além de uma questão pontual de assistência social e se conecta diretamente às crises econômicas, migratórias, habitacionais e de saúde pública que atravessam a região de fronteira.
O secretário municipal de Assistência Social, Alex Thomazi, afirmou que o censo busca dar visibilidade a uma população historicamente invisibilizada.
“A gestão municipal trouxe essa necessidade de realizar o primeiro censo da população em situação de rua para gerar visibilidade, transparência e pensarmos em políticas públicas para Foz do Iguaçu. No nosso município tínhamos 1.004 registros apontados pelo Cadastro Único, mas o número identificado é cerca de 40% menor”, afirmou.
Apesar da redução em relação aos registros do CadÚnico, o estudo confirma a existência de centenas de pessoas vivendo em situação extrema de vulnerabilidade social na cidade.
Outro dado considerado central pelos pesquisadores é que 76,63% dos entrevistados afirmaram desejar sair da situação de rua, o que reforça a necessidade de políticas permanentes de moradia, trabalho, saúde mental e reinserção social.
Saúde mental e dependência química entram no centro do debate
A pesquisa também revelou a forte presença de questões relacionadas à saúde mental e ao uso problemático de álcool e outras drogas entre a população entrevistada. Segundo o diretor da Divisão de Vigilância Socioassistencial (DIVS), André dos Santos, o levantamento evidenciou a necessidade urgente de ampliar serviços especializados para atendimento desse público.
“Atualmente não existe um serviço específico voltado às pessoas em situação de rua com agravamento em saúde mental e uso de drogas. Precisamos oferecer atendimento adequado para minimizar o sofrimento e garantir dignidade a essa população”, destacou.
Como uma das primeiras medidas decorrentes do levantamento, a Secretaria Municipal de Saúde anunciou a abertura de edital para contratação de serviços de residência terapêutica destinados a pessoas em situação de rua com transtornos mentais e dependência química. O censo foi realizado entre os dias 19 e 31 de agosto de 2025 e envolveu uma ampla articulação entre poder público, pesquisadores, universidades e organizações sociais.
O levantamento foi coordenado pelo Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Municipal para a População em Situação de Rua (CIAMP Rua), com participação das secretarias municipais de Assistência Social, Saúde, Segurança Pública, Educação e Tecnologia, além da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), Ministério Público, entidades da sociedade civil e voluntários.
Os pesquisadores responsáveis pelo estudo foram Samuel Cabanha, Marcelino Teixeira Lisboa, Irving Elias de Vellasco Vieira, Francielle Toscan, André dos Santos, Jesus Jaime Rodriguez Catacora e Nikolas Henderson Vidal Miranda.
















