Foz do Iguaçu (PR) — As declarações do italiano Paolo Zampolli, enviado especial do governo dos Estados Unidos e aliado direto de Donald Trump, ultrapassam o campo da controvérsia e entram no terreno da violência política e simbólica. Em entrevista à emissora italiana RAI, o conselheiro classificou mulheres brasileiras como “prostitutas” e “raça maldita”, além de afirmar que seriam “programadas” para provocar conflitos.
A fala não apenas agride — ela reforça um padrão histórico de misoginia e xenofobia direcionado a mulheres brasileiras, frequentemente sexualizadas e inferiorizadas no cenário internacional. Ao transformar um relato pessoal em ataque coletivo, Zampolli expõe uma lógica que naturaliza o preconceito como discurso aceitável em espaços de poder.
Misoginia e xenofobia como discurso político
Durante a entrevista, Zampolli utiliza sua relação com a ex-mulher, a modelo brasileira Amanda Ungaro, para justificar generalizações ofensivas. Segundo ele, “as mulheres brasileiras causam confusão com todo mundo”, ampliando a afirmação para uma suposta característica coletiva.
Questionado pelo jornalista sobre a natureza dessas declarações — inclusive se teriam origem genética —, o conselheiro não recua. Ao contrário, reafirma que brasileiras seriam “programadas” para desestabilizar ambientes, insistindo em um discurso que mistura preconceito cultural, misoginia e desinformação.
Em outro momento, ele intensifica os ataques ao utilizar termos de baixo calão para se referir a brasileiras de forma generalizada, reafirmando que “todas são iguais”. O conteúdo da entrevista revela não apenas uma opinião pessoal, mas um padrão de desumanização.
Zampolli foi casado por cerca de 20 anos com Amanda Ungaro, com quem teve um filho, hoje com 15 anos. A brasileira foi deportada dos Estados Unidos em outubro de 2025, após viver mais de duas décadas no país.
Segundo o The New York Times, o conselheiro admitiu ter acionado autoridades migratórias à época, embora negue participação direta na deportação. Amanda afirma que o ex-marido influenciou o processo em meio a uma disputa judicial pela guarda do filho.
A modelo também apresentou denúncias graves contra Zampolli, incluindo acusações de abuso sexual e violência doméstica — elementos que ampliam o contexto de violência envolvendo a relação e colocam as declarações sob uma perspectiva ainda mais crítica.
Até o fechamento desta reportagem, nem o governo dos Estados Unidos nem o próprio Zampolli haviam se manifestado oficialmente sobre o teor das falas. O silêncio institucional diante de declarações dessa gravidade levanta questionamentos sobre responsabilidade pública e limites do discurso de representantes ligados ao poder.
Especialistas em direitos humanos apontam que esse tipo de fala não é isolado, mas parte de uma engrenagem maior que legitima práticas discriminatórias e reforça desigualdades estruturais, especialmente contra mulheres e populações latino-americanas.
Figura conhecida nos círculos empresariais e políticos de Nova York desde os anos 1990, Zampolli também aparece em registros relacionados ao caso Jeffrey Epstein, envolvendo eventos sociais e tentativas de negócios no setor de agenciamento de modelos.
A relação com Epstein, somada às declarações recentes, amplia o debate sobre o perfil de figuras que orbitam espaços de poder e influência internacional.
O episódio reforça um alerta recorrente: quando agentes com influência política utilizam espaços públicos para disseminar preconceito, não se trata de liberdade de expressão — trata-se de discurso de ódio.
Ao atacar mulheres brasileiras como um todo, Zampolli não apenas expõe uma visão discriminatória, mas contribui para a manutenção de estigmas que impactam diretamente a forma como mulheres são tratadas dentro e fora do país.
















