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 Pesquisa detalha ação antioxidante de 19 frutos nativos do Brasil 

Pesquisadores analisam propriedades funcionais de espécies como jabuticaba, cambuci e grumixama em combate ao estresse oxidativo.

Sementes e cascas de espécies como o açaí e o marolo concentram substâncias benéficas à saúde humana. Foto: Divulgação/Internet.

São Paulo, SP – Uma revisão científica realizada por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Autônoma do Chile revelou o elevado potencial antioxidante e anti-inflamatório de 19 frutos nativos do Brasil. O trabalho, publicado no periódico científico Antioxidants, detalha como substâncias presentes nestas espécies atuam na proteção do sistema cardiovascular, na preservação de funções neurológicas e no reequilíbrio da microbiota intestinal.

Apesar de o país abrigar uma das maiores biodiversidades do planeta, grande parte das espécies locais com alto valor nutricional permanece pouco conhecida do público. A pesquisa focou em selecionar alimentos com evidências acumuladas em ensaios experimentais sobre mecanismos biológicos de combate ao estresse oxidativo e processos inflamatórios.

A cientista de alimentos Elizabeth Torres, professora da USP e orientadora do estudo, explicou a escolha das espécies. “Escolhemos frutas com evidências vindas de pesquisas experimentais, que avaliam mecanismos biológicos, entre outros aspectos, relacionados ao estresse oxidativo e à inflamação”, contou Torres.

Frutas tradicionais como açaí, guaraná, jabuticaba e cambuci ganharam destaque no levantamento pela concentração de estudos que comprovam efeitos neuroprotetores e de combate à síndrome metabólica — condição clínica em expansão marcada por quadros de hipertensão arterial, taxas elevadas de glicose, alterações no colesterol e triglicérides, além do acúmulo de gordura abdominal.

O estudo também lançou luz sobre espécies do gênero Eugenia, ainda pouco consumidas no dia a dia da população, como a pitanga, a grumixama, a cereja-do-rio-grande e o goiabão. De acordo com Elizabeth Torres, essas variedades “apresentam perfis fenólicos bastante promissores”.

A ação desses compostos no organismo atinge diretamente a saúde digestiva. Os compostos fenólicos — grupo que abrange cerca de 8 mil integrantes catalogados, como flavonoides, taninos e ácidos fenólicos — favorecem o crescimento de bactérias benéficas no intestino, a exemplo de organismos dos gêneros Bifidobacterium, Lactobacillus, Faecalibacterium e Akkermansia.

A nutricionista Priscila Santana Amad, do Hospital Israelita Albert Einstein, analisou o impacto dessa interação na barreira epitelial do intestino. Segundo a especialista, o reequilíbrio microbiano estimula a produção de ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato e o acetato. Esse mecanismo fortalece a parede intestinal e evita que agentes nocivos caiam na circulação sanguínea, contendo respostas inflamatórias sistêmicas.

Além da proteção intestinal, os polifenóis exercem papel determinante na preservação dos vasos sanguíneos. As pesquisas compiladas indicam que essas moléculas protegem o endotélio — a camada celular interna dos vasos —, auxiliando diretamente na regulação da pressão arterial e reduzindo os riscos de doenças cardiovasculares.

Para a nutricionista Priscila Amad, o levantamento traz um contraponto necessário ao viés da literatura internacional. “A revisão da USP valoriza os nossos frutos, em um cenário científico que ainda foca muito em espécies de clima temperado, como mirtilo, morango e demais frutas vermelhas”, avaliou Amad.

As 19 espécies analisadas no artigo científico e suas propriedades específicas incluem:

  1. Açaí: O artigo destaca o aproveitamento das sementes do fruto amazônico, que são ricas em procianidinas e apresentam ampla modulação de respostas oxidativas e inflamatórias. Tradicionalmente na Região Norte, a polpa roxa de sabor terroso é consumida junto a pratos salgados com peixe e farinha.
  2. Cambuci: Espécie nativa da Mata Atlântica de casca fina e polpa ácida, usada em receitas de geleias, sorvetes e molhos. Concentra ácidos fenólicos que auxiliam na prevenção da síndrome metabólica.
  3. Cereja-do-rio-grande: Típica do Sul e Sudeste, pertence ao mesmo grupo da pitanga e da jabuticaba. Suas folhas, sementes e polpa contêm alto teor de epicatequina e ácido gálico, substâncias com ação anti-inflamatória.
  4. Cupuaçu: Parente do cacau conhecido na Amazônia como cupu e no Nordeste como cacau-cupuaçu. Seus polifenóis apresentam impacto positivo na imunidade, e das amêndoas produz-se o cupulate, doce similar ao chocolate.
  5. Cutia: Nativa da Mata Atlântica com fruto de sabor próximo ao do mamão e da laranja, também chamada de fruta-de-babado. De suas sementes não comestíveis extrai-se um óleo rico em ácidos graxos ciclopentenílicos com potencial anti-inflamatório.
  6. Fruta-geleia-de-amora: Possui casca amarela, polpa escurecida e sabor similar ao da amora. Concentra rutina e kaempferol, substâncias associadas à proteção do sistema nervoso central.
  7. Goiabão: Pertencente à família Myrtaceae e também conhecido como araçá-piranga, possui polpa doce alaranjada com alta carga de compostos fenólicos que combatem radicais livres e protegem as células.
  8. Grumixama: Fruta de tom arroxeado da Mata Atlântica rica em antocianinas, pigmentos com forte ação anti-inflamatória. Os nutrientes são melhor aproveitados quando consumida in natura, embora também seja empregada em sucos e geleias.
  9. Guaraná: Além do efeito estimulante vindo das metilxantinas (como a cafeína), combina compostos que atuam na saúde cognitiva. O pó de suas sementes é utilizado em bebidas, frequentemente combinado com mel ou frutas doces para amenizar o amargor.
  10. Jabuticaba: Uma das espécies nativas mais investigadas pela ciência. Apresenta comprovada redução de marcadores inflamatórios e proteção cardiovascular. A maior parte dos compostos fenólicos está concentrada na casca, sendo recomendado seu consumo integral.
  11. Jenipapo: Consumido no Nordeste em doces e bebidas, o fruto contém genipina, pigmento do grupo dos iridoides com reconhecida atividade neuroprotetora.
  12. Jucá: Também conhecido como pau-ferro (Libidibia ferrea), tem suas frações proteicas e sementes pesquisadas por propriedades anti-inflamatórias, sendo utilizado em infusões.
  13. Juçara: Palmeira da Mata Atlântica que produz frutos semelhantes ao açaí, repletos de antioxidantes que fortalecem o sistema imunológico. O caule da planta também fornece o palmito juçara.
  14. Macaúba: Fonte de gorduras monoinsaturadas (semelhantes às do azeite de oliva) e carotenoides. A associação de seus compostos atua na atenuação de inflamações de baixo grau associadas à síndrome metabólica.
  15. Marolo: Fruta da família da graviola e da fruta-do-conde, conhecida também como araticum. A polpa fornece fibras, potássio e vitaminas do complexo B, enquanto a casca concentra flavonoides e ácidos fenólicos.
  16. Pêssego-do-mato: Ocorre na Região Sul e assemelha-se a um pêssego em miniatura. Contém betacaroteno (convertido em vitamina A pelo organismo), além de ácido gálico e epicatequina.
  17. Pinhão-manso: Sem relação botânica com o pinhão das araucárias, tem estudos focados nas folhas, que possuem compostos fenólicos com ação anti-inflamatória e neuroprotetora para uso farmacológico.
  18. Pitanga: Do tupi-guarani “vermelha”, deve sua cor aos carotenoides de ação antioxidante. O estudo menciona seus benefícios para a saúde bucal, além da presenças de flavonoides. É consumida in natura, em sucos e sobremesas.
  19. Tomatinho-do-mato: Fruto amarelado da Mata Atlântica com formato idêntico ao do tomate. Possui sabor adocicado e reúne uma combinação de vitamina C, carotenoides e fenólicos.

Apesar das evidências promissoras obtidas até o momento, a equipe de pesquisadores ressalta a necessidade de avançar para testes clínicos controlados em seres humanos para compreender a fundo a biodisponibilidade e os mecanismos de absorção dessas substâncias. “Sabemos que muitas dessas frutas são ricas em compostos bioativos, mas ainda conhecemos pouco sobre quanto é efetivamente absorvido pelo organismo”, explicou a professora Elizabeth Torres.

Melody Piñon

Jornalista formada pela Universidade de Holguín (Cuba), atualmente cursando Filosofia na UNILA. Experiência em redação, edição e produção de conteúdo para imprensa escrita, rádio e televisão. Apaixonada pelo jornalismo investigativo, com interesse nas áreas social e econômica.

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