Foz do Iguaçu, PR – A passagem dos 34 anos do massacre do Carandiru coincide com a corrida em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenta disputar a Presidência da República. Em biografia de quase 200 páginas lançada em 2017 sobre a trajetória do pai, o parlamentar chancelou a violência de Estado ao defender a ação da Polícia Militar que resultou na morte de 111 pessoas na Casa de Detenção de São Paulo. A obra reúne apologia ao regime militar, elogios a torturadores confessos e ataques diretos a garantias fundamentais.
No livro, Flávio descarta a função legal de ressocialização das cadeias e adota a retórica punitivista para respaldar a conduta dos policiais no presídio paulista. O senador sustenta que a tropa agiu em legítima defesa e evoca o histórico penal dos presos assassinados para justificar as mortes: “Quantos milhares de novas vítimas esses marginais poderiam ter feito quando voltassem ao convívio em sociedade?” A defesa da ação violenta no Carandiru se articula a outras pautas da família, como a redução da maioridade penal e a castração química de condenados por estupro.
A revisão ideológica da história brasileira ocupa capítulo central da publicação. Flávio nega o golpe de 1964 e contesta que o país tenha vivido sob uma ditadura militar, sob o argumento de que João Goulart foi afastado pelo Congresso e de que havia disputas eleitorais. Para o autor, os militares que comandaram o país “deveriam ser tratados como heróis nacionais por evitarem que o Brasil se tornasse uma ditadura socialista”. A Comissão Nacional da Verdade é chamada de “revanchista”, enquanto a Lei da Anistia teria servido apenas aos “terroristas”. O parlamentar ainda questiona o assassinato do ex-deputado Rubens Paiva, cuja autoria por agentes da repressão foi atestada oficialmente pelo Estado brasileiro, e defende a memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, primeiro militar declarado torturador pela Justiça civil, a quem chamou de “um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria”.
A ofensiva contra as instituições atinge ainda o sistema eleitoral. Desde 2017, Flávio espalha desconfiança sobre as urnas eletrônicas e exige a volta da cédula impressa, sob o pretexto de falta de auditoria, discurso que repetiu a diplomatas em 2026. Ao blindar episódios polêmicos do pai, como a defesa aberta do fechamento do Congresso feita em 1993, o parlamentar classifica o ato antidemocrático como mera “força de expressão” e acusa a imprensa de agir com partidarismo. Ao atacar os direitos humanos, sob a justificativa de que a política do setor serve somente para “proteger bandidos”, o livro expõe as bases autoritárias que permanecem no centro de seu plano político.



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