Rubinéia, SP – Promessas de salários em torno de R$ 25 mil por mês, estabilidade financeira e atuação longe da linha de frente têm alimentado uma engrenagem contínua de aliciamento que atrai jovens brasileiros sem experiência militar para a guerra entre Ucrânia e Rússia. O avanço dessas convocações pela internet coincide com a disparada no número de mortos e desaparecidos no Leste Europeu: entre 2024 e agosto de 2026, o Ministério das Relações Exteriores registrou 38 brasileiros mortos e 102 desaparecidos em combate.
A dimensão humana desse fluxo atinge diretamente pequenos municípios brasileiros. Em Rubinéia, cidade de quase 4 mil habitantes no interior paulista, a cabeleireira Clarice de Almeida, de 55 anos, viu a rotina desmoronar após a morte do filho Felipe, de 26 anos. Ele trabalhava em uma usina de cana-de-açúcar local, ganhava R$ 2,5 mil e disse à mãe que viajaria para passar uma semana de férias em Madri, na Espanha. Tempos depois, alegou ter gastado além da conta e conseguido serviço em uma fazenda de grãos.
O destino real, no entanto, era a Ucrânia. Sem qualquer formação nas Forças Armadas, Felipe foi recrutado por uma estrutura financiada pelo Exército ucraniano. Desembarcou no país em 22 de novembro do ano passado sob a ilusão de receber R$ 25 mil mensais, passar por treinamento especializado e atuar apenas na retaguarda. Antes do fim de 2025, foi morto em combate nas trincheiras e teve o corpo abandonado no local do confronto.
“Meu filho era um inocente, um menino do interior, e o convenceram a ir para lá”, conta Clarice, que só soube do envolvimento de Felipe ao perder contato com ele e receber imagens do jovem fardado. Menos de duas semanas separaram a descoberta da confirmação do óbito, comprovado por fotos dele já sem vida em um bunker. “Eu sei que já não há mais o corpo dele, me disseram que os bichos comeram, mas eu quero ele aqui, nem que sejam só os ossos. Quero trazer meu filho para casa.”
A dor de Clarice une um contingente crescente de famílias que investigam as causas que transformaram o Brasil em um dos principais pontos de fornecimento de combatentes voluntários para o conflito. O levantamento feito pelos próprios parentes aponta a existência de redes organizadas e coordenadas, mantidas pelos governos da Ucrânia e, em fatia menor, da Rússia, com ramificações espalhadas pela América Latina.
Embora o fluxo de voluntários exista desde o início dos combates, há quase cinco anos, a dimensão atingiu marcas inéditas em 2026. A gravidade da situação levou o governo brasileiro a emitir comunicados diplomáticos oficiais a Kiev e a Moscou para tentar desestimular o aliciamento de civis para atuar como mercenários.
As estimativas indicam que mais de 1 mil brasileiros estejam integrados às Forças Armadas ucranianas, enquanto algumas dezenas lutam do lado russo. Os registros consulares evidenciam a escalada da letalidade: em 2024, o Itamaraty contabilizou cinco mortos e cinco desaparecidos. Em 2025, os números saltaram para 13 mortes e 30 desaparecimentos — incluindo dois mortos e seis desaparecidos nas fileiras russas. Até agosto deste ano, foram confirmadas mais 14 mortes de brasileiros, todas no lado ucraniano, além de 67 novos desaparecimentos (63 na Ucrânia e quatro na Rússia). Para os parentes, os desaparecidos na prática já estão mortos, dado o envio de relatos e imagens de colegas de pelotão atestando que os corpos ficaram para trás em terrenos conflagrados.
O esquema funciona por meio de abordagem direta e distribuição de benefícios logísticos. Investigados por parentes e ex-combatentes, os intermediadores bancam passagens aéreas, fornecem documentação para entrada na Europa pelo Espaço Schengen, custeiam hospedagem nas cidades de fronteira e coordenam o transporte rodoviário a partir da Polônia ou da Hungria.
A atração ocorre abertamente no Instagram, no TikTok e no Facebook, onde perfis de combatentes exibem rotinas de ação militar, divulgam instruções de alistamento e indicam rotas com passagens gratuitas para jovens de baixa renda. Combatentes que estão no front afirmam que os responsáveis pelas convocações ganham gratificações financeiras e garantem permanência fora da linha de fogo. Sergey, nome de guerra de um combatente brasileiro que aparece em vídeos do serviço oficial ucraniano dando orientações a candidatos, negou atuar no esquema: “Fiz esse vídeo em uma base de recrutamento enquanto estava esperando para assinar um contrato, me pediram e eu fiz, mas nunca operei como recrutador”.



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