Assunção, Paraguai – Cerca de 300 médicos especialistas e subespecialistas formalizaram pedidos de demissão em massa junto ao Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social do Paraguai nesta segunda-feira. A decisão em bloco foi tomada após o fracasso definitivo das negociações salariais com a equipe do presidente Santiago Peña e põe fim a uma semana de greve sanitária que paralisou atendimentos hospitalares e procedimentos cirúrgicos em todo o país.
A debandada atinge diretamente hospitais de alta complexidade na Grande Assunção e no interior, com impacto crítico no Hospital Geral Pediátrico Niños de Acosta Ñu, localizado em San Lorenzo, e no Hospital de Trauma. Com a saída conjunta dos profissionais, todo o departamento de cirurgia pediátrica dessas unidades corre o risco imediato de ficar sem cobertura médica operacional.
O protesto culmina após cinco dias consecutivos de paralisações que mobilizaram 11 mil médicos da rede pública e levaram mais de 5 mil trabalhadores às ruas da capital. O movimento reivindica a regularização de 9 mil funcionários contratados sob regime temporário sem estabilidade, o abastecimento regular de medicamentos básicos e insumos hospitalares, além do pagamento adicional por trabalho em feriados. No centro do impasse econômico está o piso salarial: os médicos propõem reajuste da faixa básica de 5 milhões para 8 milhões de guaranis mensais (de aproximadamente R$ 3,6 mil para R$ 5,8 mil).
A secretária-geral do Sindicato Nacional dos Médicos (Sinamed), Rossana González, liderou a entrega dos documentos e rejeitou qualquer acusação de boicote aos usuários do sistema público:
“Isto não é extorsão, é uma manifestação de insatisfação da categoria médica. O que nós queremos é que reajam e deem uma resposta, pela população e também por nós. Não é algo contra os pacientes, mas o governo precisa entender que chegamos a um ponto insustentável. O salário pago hoje não cobre nem o transporte para ir trabalhar”, declarou González.
O cirurgião pediátrico Ernesto Waldemar Argüello Duarte, que atua nas duas unidades afetadas, confirmou sua saída da rede pública. “Tenho meu consultório, vou ser médico de bairro e vou ganhar mais do que essa gente paga. Dinheiro existe onde não se rouba”, afirmou o médico.
Em resposta, a ministra da Saúde Pública, María Teresa Barán, afirmou que a proposta financeira da categoria é “pouco aplicável” dentro das restrições orçamentárias do governo Peña. O diretor de Gabinete da pasta, Juan Marcelo Estigarribia, comunicou que as demissões serão analisadas caso a caso, já que o país não possui regulamentação para rescisões coletivas. Estigarribia também criticou a Sociedade Paraguaia de Anestesiologia por ameaçar expulsar os membros que aceitarem assumir as vagas deixadas pelos profissionais demissionários.



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