Eldorado dos Carajás (PA) — Três décadas após o massacre de Eldorado dos Carajás, um dos episódios mais brutais da violência no campo no Brasil, o país ainda convive com perguntas sem resposta, responsabilizações incompletas e a permanência de um modelo agrário que segue produzindo morte, conflito e desigualdade. No dia 17 de abril de 1996, 21 trabalhadoras e trabalhadores rurais foram assassinados pela Polícia Militar do Pará, durante a repressão a uma marcha organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na Curva do S, em Eldorado dos Carajás.
Naquele dia, cerca de 1.500 pessoas caminhavam pela rodovia PA-150 (hoje BR-155) em direção a Belém, reivindicando a desapropriação da Fazenda Macaxeira, ocupada por aproximadamente 3.500 famílias, além de denunciar a lentidão da Reforma Agrária no país. A resposta do Estado foi a violência: mais de 150 policiais participaram da operação, resultando na execução de 19 pessoas no local e na morte de outras duas posteriormente, além de deixar dezenas de feridos e mutilados.
A operação foi autorizada pelo então governador do Pará, Almir Gabriel, com ordem explícita para desobstruir a estrada “usando a força necessária, inclusive atirar”. Apesar da gravidade, apenas dois comandantes da ação — o coronel Mário Pantoja e o major José Maria Oliveira — foram condenados anos depois. Ambos cumpriram prisão domiciliar até morrer. Nenhuma responsabilização ampla alcançou a cadeia de comando, os mandantes ou os interesses por trás da operação.
Trinta anos depois, o massacre permanece como símbolo de uma estrutura fundiária profundamente desigual e de um padrão de impunidade que atravessa o sistema de Justiça brasileiro. O caso revela não apenas uma ação policial violenta, mas um episódio marcado por indícios de execução, falhas na investigação, desaparecimento de provas e apagamentos que dificultaram a reconstrução dos fatos.

Relatórios e análises posteriores desmontam a versão inicial de confronto. Testemunhos, perícias e evidências apontam para o uso desproporcional da força e para a existência de execuções. A retirada de corpos antes da perícia, a ausência de preservação da cena do crime e a desconsideração de depoimentos relevantes comprometeram a apuração desde o início.
Ao longo das investigações, surgiram suspeitas que nunca foram devidamente esclarecidas. Entre elas, o possível financiamento da operação por interesses econômicos locais, incluindo o uso de ônibus de empresas privadas para deslocamento da tropa e relatos sobre apoio logístico de grandes grupos empresariais. Também não avançaram apurações sobre o envolvimento de fazendeiros da região, comerciantes locais e a existência de articulações prévias para repressão ao movimento.
A leitura de organizações e pesquisadores aponta para uma relação direta entre o massacre e os interesses estruturais da região, marcada pela expansão do latifúndio, pela exploração mineral e por grandes projetos de infraestrutura. Nesse contexto, a violência no campo não aparece como exceção, mas como instrumento de controle territorial e político.
Os dados reforçam essa realidade. Levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) aponta mais de 1.149 assassinatos em conflitos agrários no Brasil entre 1996 e 2025 — uma média de uma morte a cada dez dias. Apenas no Pará, mais de 300 pessoas ligadas à luta pela terra foram assassinadas no mesmo período. A violência não cessou com Eldorado dos Carajás; ela se reorganizou e, em muitos casos, passou a contar com participação direta de agentes públicos.
A estrutura fundiária segue concentrada. Dados do Censo Agropecuário do IBGE indicam que os 10% maiores imóveis rurais concentram cerca de 73% das terras agricultáveis do país. Ao mesmo tempo, a Reforma Agrária perdeu centralidade como política estruturante, avançando de forma limitada e insuficiente diante da demanda social.
A permanência dessa desigualdade ajuda a explicar a continuidade dos conflitos. Sem redistribuição efetiva da terra e sem ação consistente do Estado, a disputa por território segue marcada por violência, expulsões e assassinatos. A ausência de responsabilização ampla no caso de Eldorado reforça um padrão de impunidade que atravessa décadas.
No campo da reparação, as lacunas também persistem. Parte dos sobreviventes mutilados ainda enfrenta dificuldades para acessar tratamento médico adequado. Indenizações seguem incompletas, pensões desatualizadas e acordos considerados insuficientes pelas famílias. Para os atingidos, a violência não terminou em 1996 — ela se prolonga na negligência do poder público.
A disputa em torno do massacre permanece viva não apenas na Justiça, mas na memória política do país. Para movimentos sociais e pesquisadores, preservar essa memória é fundamental para enfrentar a repetição da violência. O 17 de abril, instituído como Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, carrega esse significado: lembrar não apenas o que aconteceu, mas por que aconteceu — e por que ainda se repete.
Trinta anos depois, Eldorado dos Carajás não é apenas um episódio do passado. É um retrato persistente de um Brasil onde a terra continua concentrada, a violência segue ativa e a justiça, muitas vezes, não alcança os responsáveis.
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