Ela se torna a primeira defensora pública abertamente não-binária do país, identificando-se publicamente fora do espectro estritamente feminino ou masculino. Cavallo iniciará suas atividades em junho, juntamente com outros 16 defensores e defensoras que ingressaram na DPE-PR em abril, através do IV concurso. Originária de Bocaina, interior de São Paulo, Cavallo residia em Ribeirão Preto antes de se estabelecer em Curitiba.
“A jornada como pessoa não-binária está apenas começando para mim, e sinto-me honrada por poder fazer parte da Defensoria Pública do Paraná. Acredito que não há instituição mais adequada do que a Defensoria para me permitir explorar isso, tanto em meu âmbito pessoal quanto profissional, especialmente em relação à população que atendemos. Considero importante discutir o acesso à justiça para pessoas não-binárias e trans, conscientizando sobre seus direitos e compartilhando informações com a sociedade em geral. Devemos defender que a identidade de gênero não é um problema, mas sim uma solução para que as pessoas vivam mais confortavelmente”, relata a defensora pública.
O processo de inscrição de Cavallo no concurso da DPE-PR foi o primeiro documento a registrar sua não-binariedade. Ela relata que sua compreensão sobre o conceito aumentou entre 2021 e 2022, enquanto se preparava para as provas da Defensoria Pública. Cavallo é casada com uma mulher desde o ano passado. Antes de adotar a identidade não-binária, ela seguia um padrão comportamental considerado “muito feminino”.
“Apesar de estar confortável com minha sexualidade, sentia a necessidade de compensar minha bissexualidade. Sentia que precisava ser mais vaidosa, mais parecida com outras mulheres, como um mecanismo de compensação. Recorri a trejeitos, roupas e maquiagens tipicamente associados ao comportamento feminino em nossa sociedade. Acreditava estar feliz dessa forma”, relembra.
A trajetória de Cavallo mudou após assistir à série de televisão norte-americana Grey’s Anatomy, que apresentou sua primeira personagem não-binária em 2021, interpretada também por uma pessoa não-binária. “Nunca tinha ouvido alguém falar sobre esse tema daquela forma. Durante a pandemia, enquanto passava muito tempo em casa, comecei a questionar alguns padrões de conforto relacionados ao meu corpo. O primeiro passo foi cortar meu cabelo bem curto, e chorei diante do espelho ao fazê-lo. Chorei novamente ao usar roupas masculinas e ser confundida com um garoto na rua. Percebi que gostava da sensação de causar estranheza, mas só entendi realmente o que isso significava através da série, com uma personagem descrevendo sentimentos que nem sabia que tinha”, explica Cavallo.
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Sua experiência pessoal está alinhada com seu engajamento em prol dos direitos da comunidade LGBTQIA+ e, agora, com seu trabalho na DPE-PR. Para ela, a vivência reforça a importância do entretenimento e da representatividade como ferramentas de conscientização.
“Foi através da arte que tive acesso a esse sentimento, pude materializar essa ideia em mim. Portanto, devemos garantir cada vez mais informações de qualidade sobre identidade de gênero, permitindo que mais pessoas estejam em paz com sua própria sexualidade”, destaca.
Quanto à atuação na Defensoria, Cavallo enfatiza a importância do direito à informação de qualidade, intrínseco aos direitos de liberdade de expressão e autonomia. Antes de integrar a instituição paranaense, Cavallo teve experiências na Defensoria Pública do Estado de São Paulo, primeiro como estagiária durante a graduação e, posteriormente, após concluir o curso de Direito, como estagiária de pós-graduação.
“Foi ao trabalhar na proteção dos direitos de crianças e adolescentes que encontrei meu propósito. Acredito no poder da educação, e a Defensoria Pública pode contribuir para esse processo. Estou ansiosa para colocar em prática todos esses anos de estudo e minhas experiências de vida. Quero aprender com meus colegas e os usuários da Defensoria, proporcionando acesso a todos os direitos relacionados à felicidade. Sinto-me muito mais realizada desde que entendi minha identidade de gênero, e desejo isso para todos”, conclui a defensora.
















