Por Marco Roberto de Souza Albuquerque
Comentário sobre o vídeo: Covid-19 do Jornal da Cultura
Segundo um entendimento em História, partilhado, no Brasil por Lilia Schwarcz — a cronologia do século passado inicia-se quando estala a Guerra dos Trinta Anos do século XX (1914-1945) e encerra-se quando se reconhece o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus.
Portanto vivemos, conforme essa perspectiva cronológica — um novo tempo: a pandemia do SARS-COV2 é o marco inicial do século XXI.
É natural, destarte, tomando-se em conta que, não faz muito, entramos no segundo ano desta nova era — haver, entre nós, ainda um significativo apego ao século que se foi: os totens, os tabus — tudo aquilo que compunha nossas convicções sobre o Mundo (o “lá fora”) e o Eu (o “aqui dentro”).
E é claro que traremos esse século sempre conosco: como a todos os outros. Ele já não constitui mais nosso presente, porém sempre integrará nosso futuro.
Contudo é forçoso reconhecer: não importa quantos braços sejam vacinados (ainda que todos!); jamais voltaremos para o mundo daquele 16 de novembro de 2019, um sábado: no seguinte seguinte, em Wuhan, começou o século XXI.
Nossas formas de partilhar espaços e veículos, de circular nas ruas e aconchegar-se em casa — nunca mais serão como as de antes daquele 17 de novembro, um domingo.
O verbo “aglomerar” e suas formas derivadas (“aglomeração” e “aglomerado”) não mais deixarão de soar como algo da ordem do evitável; empregá-los significará, de ora avante, referir-se à inadvertência de uns, à escrotidão de outros; ouvi-los com frequência será sinal de que lockdowns não tardarão.
Uso de máscara, cuidado com a higiene das mãos, incorporação do álcool em gel aos itens da cesta básica — tudo isso já integra os usos e costumes da civilidade, como escovar os dentes ou usar preservativo com parceiros eventuais.
Autoridades sanitárias no Reino Unido afirmam: ao que tudo indica, o uso de máscara tenderá a ser uma prática permanente; estima-se que, por pelo menos dez anos, não se poderá prescindir desse cuidado.
Eis o enlace para quem deseje inteirar-se melhor a respeito do que estimam os especialistas britânicos quanto à longevidade do uso de máscara: https://youtu.be/2fklIeH2iKM
Tome-se a Israel como exemplo: por conta de seu sucesso na imunização de seus habitantes, o Estado não tardou em revogar a obrigatoriedade do uso de máscaras — mesmo em lugares fechados; todavia, dada a ameaça de proliferação da variante indiana — as autoridades apressaram-se a voltar atrás.
Se se deseja saber mais acerca dessa reviravolta, eis o enlace: https://youtu.be/v3wp6UTRLiA
É vão, por conseguinte, que Bolsonaro se afadigue em insuflar, entre seus apoiadores, prevenções e reservas ao uso de máscara. O coronavírus não irá embora — como todos os outros, à exceção do responsável pela varíola –, e tardaremos a ter medicamentos e imunizantes que nos desobriguem de cuidados individuais e restrições coletivas.
No entanto, como o presidente aferra-se a um projeto de poder “tão primeira metade do século XX” — quem tem ouvidos, para ouvir, ouça — não deve surpreender que ele resista às etiquetas de respeito e de solidariedade deste admirável — mas perigoso — século novo.
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