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Home Geral

Quem morre, quem mata e quem sofre no genocídio nas periferias de SP

Por Amilton Farias
30/06/2018 - 22:08
em Geral
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

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Depois de 10 anos dos crimes de maio de 2006, os jovens seguem morrendo na periferia de São Paulo. A Vaidapé preparou uma reportagem especial sobre quem morre, quem mata e quem sofre nas quebradas

O mês de maio de 2006 ficou profundamente marcado na memória dos parentes das vítimas de uma série de mais de 500 assassinatos de civis na região metropolitana de São Paulo, promovida por grupos paramilitares como resposta aos ataques do Primeiro Comando da Capital, o PCC.

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Após a ação do  PCC, que vitimaram 43 agentes públicos, a Polícia Militar passou a executar jovens aleatoriamente em periferias da cidade, como tentativa de vingança aos policiais mortos pela facção. A morte de diversos inocentes pautou a operação.

No último dia 12, os Crimes de Maio completaram 10 anos. A notícia, no entanto, ficou ofuscada pelas manchetes da queda de Dilma Rousseff (PT) para entrada do presidente interino Michel Temer (PMDB). A voz daqueles que sofrem segue silenciada pelo teatro político, jurídico e midiático, mas a marcha fúnebre continua sua caminhada mórbida nas quebradas do país.

Os Filhos


Grajaú, extremo sul de São Paulo. 22h30. Sexta feira, 16 de outubro de 2015. No ponto de ônibus, a espera pelo coletivo entediava as cerca de 20 pessoas. A 50 metros, uns oito ou nove disparos anunciavam mais uma noite de morte no distrito da zona sul. A vítima segue a regra: preto, pobre, jovem. O autor da tragédia também, exceto pelo figurino diferenciado, algo mais casual para o momento. O cabo da PM, Evandro Gonçalves Xavier, matou, fora de serviço, o estudante Yago Ikeda Barreto Pedrosa Araujo, de apenas 16 anos.

Diante do desespero, e até mesmo da inconsequência, alguns dos passageiros que aguardavam o busão sobem até o corpo de Yago para socorrê-lo. Entre eles, nossa testemunha, cujo relato baseia a reconstituição do caso nesta reportagem, e que terá sua identidade preservada.

Ela foi uma das primeiras pessoas a chegar, um minuto após os tiros. A primeira impressão foi que os barulhos eram de fogos de artifício. O jovem já não respondia. Havia sido alvejado pelas costas. O policial “à paisana” só apareceu depois dos transeuntes. Ele se identificou, contou que havia sofrido uma tentativa de roubo por parte de Yago, e que já estaria acionando a corporação. Transparecendo calma e naturalidade, Evandro não aparentava estar abalado, e passava “a sensação de dever cumprido”.

DE CADA 5 PESSOAS MORTAS NO ESTADO DE SÃO PAULO 2 SÃO MORTAS PELA POLÍCIA

A chance de defesa de Yago: “Nenhuma. Do jeito que ele correu, ele caiu no chão”. Segundo o relato, o jovem não estava armado quando caiu morto, contrariando a versão apresentada pela polícia.

A história oficial, registrada em B.O, relata que o cabo Evandro Xavier comprou um aparelho celular em um site na internet, e marcou o encontro para buscar a compra em uma viela, entre as ruas Domênico Cimarosa e a Avenida Grande São Paulo. Ao chegar, se identificou para um jovem como comprador. O jovem teria anunciado um assalto e mandou o PM lhe entregar o dinheiro, afirmando que seu comparsa estava armado no fim da rua. Evandro disse que sacou sua arma e identificou-se como policial.

O relato dá conta de que, neste momento, Yago, então no fim da rua, atirou contra Evandro, que disparou de volta e o atingiu. Ele começou a correr, mas logo caiu morto. Ainda segundo o B.O, dois jovens se aproximaram do corpo de Yago, pegaram sua arma e fugiram de carro. Yago ficou desaparecido por quatro dias após a ação do policial. Seu corpo só foi identificado no dia 20 de outubro.

“Do jeito que ele correu, ele caiu no chão”: a viela em que Yago foi assassinado

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública se manifestou apenas por meio de nota oficial, informando que “o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) investiga o caso. Agentes do departamento buscam outras testemunhas e imagens de câmeras de monitoramento no bairro do Grajaú”.

A tia da vítima, Rosângela Gonçalves de Araújo, falou em entrevista à Ponte Jornalismo: “Como sobrinho, como ser humano, o Yago foi uma criança maravilhosa. Era respeitador, amoroso, nunca tive nenhuma discussão. Só paz e amor. A mãe dele é muito trabalhadora. Por isso, ele vivia muito com a avó. O que mais dói, como tia, é que não pude aproveitar o tempo com ele. Não foi suficiente o tempo de vida dele. Já dá saudade”.

Os assassinos


“Um policial que eu entrevistei, me falou que começou com idealismo, ou seja, a qualquer custo fazer ‘justiça’ com as próprias mãos, que ele não acreditava no sistema. Mas depois virou um transtorno de comportamento, a ponto dele dizer que precisava matar alguém toda semana, se tornou um vício. Então é um transtorno de comportamento grave.”

A afirmação é do tenente-coronel aposentado da Polícia Militar, Adilson Paes, que entrevistou diversos policiais envolvidos em crimes para a realização de sua tese de mestrado na USP. A dissertação se transformou no livro “O Guardião da Cidade”, que investiga as razões estruturais que envolvem a violência policial.

“Eles chegaram a declarar pra mim que o exercício da autoridade permitia que eles fizessem de tudo em nome da segurança, e o atributo do poder de polícia significava ter super poderes, justamente para poder fazer de tudo em nome da segurança”, conta Paes, baseado nas entrevistas que realizou. “Tanto é que, quando eles são presos, eles se sentem injustiçados. Qual que é a palavra deles: ‘Eu faço de tudo, arrisquei minha vida, a vida da minha família, minha liberdade, em nome da sociedade. E agora a sociedade me critica quando eu sou preso’”, completa.

Através da pesquisa, Adilson constatou traços marcantes no comportamento destes policiais que praticam execuções: “Os policiais ligados com execuções sumárias falavam: ‘não tinha como não perceber que a gente estava agindo num caminho diferente, e não tinha como não saber que a gente estava fazendo a coisa errada. E, apesar disso tudo, ninguém nunca tomou alguma medida para a gente parar. Nós paramos quando nós fomos presos’”. Sobre isto, Adilson analisa a responsabilidade da corporação: “ Acho que nessa omissão, nessa insensibilidade, acabaram estimulando essas práticas.”

O tenente-coronel constata ainda uma motivação financeira para a atuação de grupos de extermínio: “Comerciantes ou pessoas da periferia que não confiam no sistema contratam policiais militares para matar pessoas que estão praticando delitos no seu estabelecimento comercial, ou praticando crimes em determinada região”, relata Adilson. Quando perguntado se eles agiam, portanto, como matadores de aluguel, afirma: “Sim”.

As mães


Os olhos de guerreira da mãe Débora Silva Maria alcançam uma luta intensa e que não pretende se esgotar. Ela perdeu seu filho nos Crimes de Maio de 2006, em que 564 pessoas foram mortas durante uma represália da Polícia Militar, após ataques organizados pelo PCC (Primeiro Comando da Capital). A maior parte das vítimas foram jovens negros da periferia, executados entre os dias 14 e 17 de maio, por grupos de extermínio ligados a policiais militares.


Entre os jovens assassinados estava Edson Rogério Silva dos Santos, filho de Débora, morto no dia 15 de maio, um dia após o Dia das Mães.

“Meu filho trabalhou e, depois de uma jornada de oito horas, a polícia dele [governador Geraldo Alckmin, do PSDB] matou meu filho. Ele era um gari, varrendo o lixo da nossa sociedade, mas não conseguiu varrer o lixo do poder. A gente não quer os policiais que apertaram o dedo, quem tem que mostrar pra nóis é o governador”, conta a mãe, que desde a morte do filho, compõe junto com outras mães a luta contra “uma cultura de higienização da pobreza, [que] tá na ponta da metralhadora da polícia, do Estado”

Desde 2006, Débora é uma das fundadoras e coordenadora do Movimento Mães de Maio. O grupo luta para que a justiça seja cumprida para os assassinos de seus filhos, e dos “filhos” não-sanguíneos, toda a juventude da periferia, que sofre com as ações policiais que escorrem “sangue nosso!”, como afirma Débora.

A luta é sofrida. Débora conta que, prestes a completar dez anos de movimento, “nós perdemos já três mães de maio, nós perdemos mães do maio continuado. Essas mulheres estão morrendo de câncer. O câncer é uma mágoa. É a mágoa que a gente têm da invisibilidade que o Estado faz perante essas mulheres. Nós não temos acompanhamento médico. É um grito, é um direito”.

Depois de uma década dos crimes, o movimento Mães de Maio organizou uma série de atividades como forma de relembrar o massacre e seguir a vigília. Clique aqui para acompanhar a programação na página das mães

Assim como o suporte médico e psicológico às vítimas da violência estatal, as reivindicações das mães também são negligenciadas. “A gente não tem como combater os grupos de extermínio, porque os poderosos que dizem que são dos direitos humanos, de humano não têm nada. Eles não têm coragem de dar as mãos pras mães e dizer: ‘Vamos derrubar esse sistema’. Direitos humanos somos nós, nóis por nóis, que sofre no gueto. As mães são as verdadeiras donas dos direitos humanos.”

As dificuldades enfrentadas pelo movimento passam por ameaças, intimidação, invisibilidade e, principalmente, a angústia de assistir a perpetuação de um extermínio da juventude negra, tão combatido pelas mães. Policiais militares do estado de São Paulo mataram 11.358 pessoas, nos últimos 20 anos. Débora analisa: “Há 20 anos, só retrocessos. Só que a periferia ainda não acordou. O dia que acordar, todos eles correm. Meu sonho era de ver a favela tomar o seu espaço, que é a rua. Ocupar a rua por direito, e isso ela ainda não faz. Todos engessados na cultura do medo. Então é onde o sistema ganha poder, porque a cultura do medo está em primeiro lugar.”

O ANO DE 2015 TEVE UMA MÉDIA DE 2 MORTES POR DIA CAUSADAS PELA POlÍCIA DE SP

Segundo dados da própria Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, 750 mortes foram causadas por policias militares e outras 48 por policiais civis

NO TOTAL FORAM 780 MORTES

No mesmo período 16 policiais foram mortos em serviço, 13 militares e três civis

O gatilho da arma policial, o martelo do juiz, a criminalização por parte da mídia e a “caneta assassina” – termo que Débora utiliza para se referir à falta de fiscalização por parte do Ministério Público – aceleram “o processo da marcha fúnebre dentro das nossas periferias do nosso país”. Mesmo diante desse cenário, seguem, mães e filhos, na busca por justiça e igualdade.

Débora demonstra um pouco do sentimento dessas mães quando enfrentam o julgamento dos responsáveis pela morte de seus filhos: “É triste você se deparar com quem matou teu filho. Eu não quero ter esse ódio dentro do meu coração, porque eu não quero essa dor para mãe do assassino do meu filho, e eu não quero o mesmo mal pro assassino do meu filho. Eu quero que eles estejam de pé. Tanto ele, como a mãe dele, para assistir a nossa revolução, que é desmilitarizar a polícia e tirar a farda podre que está em cima do filho dela”

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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