Por Marco Roberto de Souza Albuquerque
Considerações inspiradas no vídeo “Lula pode vencer as eleições no primeiro turno!”, de Henry Bugalho.
Conquanto Lula tenha uma inegável (e merecida!) presença no cenário político — a ponto de sair como preferido contra a seita fascista de Bolsonaro a despeito de todo o desgaste orquestrado, pelo conciliábulo lava-jatista, contra sua pessoa e seu partido — é preciso considerar que 2023 não será 2003.
Aqueles anos iniciais da primeira década deste século no Brasil, foram promissores para plataformas políticas republicanas (chamemo-las como sói fazer-se hoje em dia: progressistas) por duas razões: ademais do “boom das commodities” — favorecido pelo então vertiginoso crescimento econômico chinês –, a política econômica, herdada dos anos FHC, estava em ordem. Por isso, durante a campanha eleitoral de 2002, um dos compromissos do PT com os consórcios oligárquico-financeiros era justamente dar continuidade ao tripé erguido pela centro-direita nos anos áureos do PSDB: superávit primário, câmbio flutuante e meta da inflação.
Já em 2023, o novo Governo, seja qual for, encontrará uma política econômica caótica: o atual programa federal para a promoção da suposta imunização coletiva por contágio — cujo resultado tem sido a proliferação do vírus, a circulação de novas cepas e o aumento das internações na rede hospitalar do SUS — como se fosse pouco redundar num morticínio, tem exorbitado as despesas do sistema de saúde e dificultado a retomada dos negócios diretamente afetados pelas indispensáveis restrições à circulação de pessoas.
Some-se a isso a condução errática da economia pela equipe de Paulo Guedes: aferrada à fé na precarização da mão de obra e obstinada pelo dogma da retração nos investimentos públicos (religião imposta pela correlação de forças que — com o golpe contra Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018 — tornou possível a vitória de Bolsonaro) — a equipe econômica, que deveria ser o esteio tecnocrático do bolsonarismo, perde-se nas contas, equivoca-se nas previsões.
Até mesmo naqueles cálculos básicos para angariar o reconhecimento do Mercado — projeção de inflação, trajetória de juros — o time da Economia não demostra intimidade com algarismos.
Consulte-se o Relatório de Inflação do Banco Central publicado em dezembro de 2020, página 8. Nele, os economistas capitaneados pelo neto de Roberto Campos (prócer do liberalismo brasileiro) previram que a inflação, até o fim deste ano, não passaria de 3,4%; mas a conta foi refeita (até agora) dez vezes — sempre para mais, nunca para menos –, e agora parece que a coisa vai chegar a 5,8%. Mas, no Mercado, há quem chegue a chutar 6,78%. Vá lá saber.
Na conta dos juros, a rapaziada fez uma cálculo que resultou num daqueles proverbiais números de mentiroso: 3%. Pois bem: ainda estamos na metade do ano, e a trajetória dos juros já chegou aos 4,25%.
Neste enlace, acompanha-se a análise — clara e didática, mas um tanto colérica — que Eduardo Moreira faz do Relatório de Inflação: https://youtu.be/Q-GDkrrFidU
Nestoutro, reportam-se as sucessivas e consecutivas revisões das projeções de inflação pela equipe econômica do Governo: https://bit.ly/3hhus6h
Perdidos até no básico de seu ofício, não se espera que Paulo Guedes e seus assessores consigam equacionar os números que apontam para o decréscimo na produção de riquezas e para o aumento da reprodução das mazelas sociais.
Se a economia intramuros, em 2023, estará muito menos pujante do que vinte anos antes, o mercado global estará ainda mais concentrado e predatório do que no início do século. Prevê-se um novo “boom das commodities” (quiçá a partir do ano que vem); os países industrializados, porém, tenderão a mostrar-se refratários à importação por conta dos giros que o dinheiro deu, de mão em mão, com a compra de insumos hospitalares e imunizantes; preveem-se, portanto, muitas pressões por parte dos produtores internos e muitas exigências — inclusive de cunho ambiental — por parte dos consumidores.
Em um cenário tão dessemelhante daquele em que Lula encampava seu primeiro mandato, não haverá o risco de um terceiro obscurecer o êxito do primeiro e a popularidade do segundo? Os índices alvissareiros das pesquisas de intenção de voto não poderão converter-se em impacientes índices de impopularidade — quando as expectativas de “voltar àqueles tempos” se comprovarem uma quimera?
Julgo que uma aliança entre a popularidade de Lula e as propostas econômicas de Ciro poderiam robustecer a ascensão progressista contra as adversidades externas e as dificuldades internas.
Associando-se ao nacional-desenvolvimentismo histórico, resgatado por Ciro, Lula poderia resgatar sua genealogia trabalhista. Marcos importantes para a soberania do país — como uma Política Energética Nacional — poderiam (enfim!) ser instituídos ou resgatados. Retomar-se-ia, como prioridade, o aumento do poder de compra dos salários, e aos sindicatos propor-se-lhes-iam estruturas que os separassem das repartições e os aproximassem dos movimentos sociais.
Claro que o primeiro mandato terá de concentrar-se no combate à fome e na transferência de renda. Todavia recomendo que se leve em consideração o modelo boliviano.
Ao contrário de outros países que vivem da monoexportação, seja de uma matéria-prima mineral, seja de hidrocarbonetos — a Bolívia vem mantendo (há quinze anos!) o PIB em patamares de crescimento da ordem de 4%. Havendo nacionalizado a economia em torno do petróleo e do gás, o Governo tem implementado um conjunto de programas de transferência de renda e inclusão social graças ao qual os dividendos da exportação dos hidrocarbonetos garantem elogiáveis níveis de desenvolvimento humano.
Sabe-se que economistas de estofo liberal não se cansam de recordar que semelhantes modelos econômicos não seriam sustentáveis: os investimentos sociais oneram o Erário; oscilações nos preços internacionais do produto-chave convidam o Estado a endividar-se para manter os compromissos sociais; e, se a cotação internacional da “commodity salvadora” despenca… Boom!
Frise-se, todavia, que países com as mesmas características socioeconômicas da Bolívia, por haverem optado por um modelo neoliberal de gestão de suas commodities — afundaram num atoleiro social. O Mercado não teve a competência de sequer garantir, com os dividendos auferidos com a exportação, desempenhos descentes na educação básica — esse “ativo social estratégico”, como se diz na tribo da Faria Lima.
Para quem deseje conhecer os alcances e os riscos do “Milagre Boliviano”, eis aqui uma aula — muito clara, muito didática — mas em espanhol: https://youtu.be/Oada4l_TjBM
Se uma aliança Lula-Ciro garantisse o estabelecimento de uma economia política fundamentada no “giro energético”, impulsionado pela descarbonização global das economias — isso sedimentaria as bases científico-tecnológicas para superar a página do “Ciclo da Soja” de nossa história neocolonial.
E, se se estabelecesse uma rede de programas sociais que, a exemplo da Bolívia, integrasse o crescimento econômico às necessidades sociais — haveria recursos para viabilizar, progressivamente, a revalorização dos trabalhadores, a reorganização dos sindicatos — e a erradicação da fome e da miséria.
Sonhos, divagações, devaneios; contudo, se os metódicos e pragmáticos Paulo Guedes e Roberto Campos Neto não conseguem nem mesmo acertar a projeção da inflação (e erram feio, passam longe!) — por que não aventar projetos de Nação economicamente sustentáveis; por que não divagar sobre projetos de Governo socialmente viáveis?
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