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Operação Ciclone: o papel dos EUA na criação do Talebã

Por Amilton Farias
28/10/2023 - 11:56
em Geral
Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

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Nos Estados Unidos, eles chegaram a ser classificados de “combatentes da liberdade”. Mas chamá-los de guerrilheiros fundamentalistas islâmicos talvez fosse mais apropriado.

Grupos rebeldes afegãos resistiram durante anos à invasão soviética do Afeganistão com o apoio de Washington, que forneceu a eles armas e dinheiro com o objetivo de enfraquecer o poder da União Soviética, sua superpotência rival.

Segundo revelaram documentos de inteligência, investigações jornalísticas e testemunhos dos protagonistas anos depois, a estratégia dos EUA era fazer com que a União Soviética se visse encurralada no Afeganistão, num atoleiro que consumia vidas, dinheiro e recursos.

A finalidade era fazer com que os soviéticos vivessem algo parecido com o que os americanos vivenciaram na Guerra do Vietnã.

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A missão americana foi chamada de Operação Ciclone e a imprensa a descreveu como a “maior operação sigilosa da história da CIA”.

Em 1996, só oito anos depois da retirada das tropas soviéticas, os talebãs conquistaram Cabul e impuseram um regime fundamentalista islâmico condenado a nível mundial por suas violações aos direitos humanos.

Como os EUA contribuíram para a vitória do Talebã?

A origem de tudo

Na primavera de 1979, mais de 30 mil efetivos militares da União Soviética, apoiados por aviões e carros de combate, começaram seu desembarque no Afeganistão com apoio do governo “revolucionário” de Cabul.

Um ano antes, a chamada Revolução de Saur havia instaurado no Afeganistão um estado socialista que enfrentava crescente resistência das milícias islâmicas locais, formadas pelos mujahedins, como se chama, segundo a tradição islâmica, quem combate na “guerra santa”.

Moscou queria apoiar o Estado socialista afegão e o governo pró-soviético do presidente Babrak Karmal, que enfrentava uma resistência armada dos mujahedins cada vez mais virulenta.

Leia mais:
Biografia: Miguel Urbano Tavares Rodrigues

Robert Crews, historiador especializado em Afeganistão na Universidade de Stanford, disse à BBC Mundo que “os Estados Unidos foram pegos de surpresa, apesar do fato de competirem com a União Soviética por projetos de construção e infraestrutura em solo afegão desde a década de 1950”.

Nesse contexto, Zbigniew Brzezinski, conselheiro de Segurança Nacional, e outros assessores persuadiram o então presidente americano Jimmy Carter de que uma operação secreta para equipar e armar a insurgência seria uma boa ideia.

Começou assim um dos conflitos típicos da Guerra Fria, no qual EUA e União Soviética competiam pelo domínio geopolítico, mas sem se enfrentar diretamente no campo de batalha. Cada um apoiava grupos distintos em guerras de outros países, o que em inglês se conhece como “proxy wars”.

Murad Shishani, especialista da BBC em milícias e jihadistas, explica que, no conflito do Afeganistão, os “Estados Unidos apoiaram a jihad (guerra santa) para derrotar o inimigo soviético”.

Como se desenrolou a Operação Ciclone

A princípio, a Operação Ciclone só abasteceu os rebeldes com armamento obsoleto de fabricação soviética, como fuzis AK-47, e se limitou a recrutar combatentes voluntários e financiamento de países árabes.

“Dessa maneira, Washington podia negar sua participação”, destaca Crews. Arábia Saudita foi um dos mais ativos financiadores, mas o Egito de Anwar el-Sadat e outros países também contribuíram para o esforço de apoio aos mujahedins.

O plano exigia a colaboração dos serviços de inteligência do Paquistão, de onde atuavam vários dos grupos jihadistas. Um exemplo de como operavam foi dado pelo parlamentar americano Hub R. Reese, que revelou em 1988 que entregou 700 mulas do Tennessee a uma base militar em Kentucky para serem enviadas ao Paquistão.

O apoio dos EUA aos mujahedins se tornou mais escancarado com Ronald Reagan na Casa Branca. Um lobby cada vez mais poderoso em Washington defendia intensificar a ajuda aos combatentes islâmicos, que se queixavam que as armas fornecidas não eram suficientes para frear os soviéticos.

Em 1984, o Congresso americano aprovou uma resolução sobre Afeganistão que afirmava que “seria indefensável prover aos combatentes da liberdade ajuda suficiente só para que lutassem e morressem, e não para impulsionar a causa da liberdade.”

Reagan chegou a receber uma delegação de líderes jihadistas na Casa Branca e, em seu discurso sobre o Estado da União, no Capitólio, em 1986, deixou uma mensagem aos rebeldes afegãos: “Vocês não estão só, combatentes da liberdade. Os EUA os apoiarão”.

Mas Reagan fez algo muito mais importante. Ele aprovou a entrega aos guerrilheiros de unidades portáteis Stinger de lançamento de mísseis.

Escondidos nas montanhas afegãs, os guerrilheiros passaram a derrubar helicópteros soviéticos e o equilíbrio de forças no terreno mudou rapidamente.

O senador democrata Charles Wilson, um dos que mais ativamente advogaram por uma maior presença de Washington no Afeganistão, declarou que os parlamentares ficaram “assombrados com sucesso do Stinger”.

Em setembro de 1988, depois de nove anos de intervenção, o primeiro-ministro soviético, Mikhail Gorbachev, determinou a retirada das forças soviéticas do Afeganistão, que passou, então, por uma guerra civil entre as diferentes facções existentes no país e um governo que, sem o apoio da União Soviética, não demorou a cair.

Mas os talebãs se beneficiaram do apoio dos EUA?

“Existe uma teoria da conspiração que afirma que os EUA apoiaram o movimento Talebã para se beneficiar do que viria depois”, diz Murad Shishani. “Mas esse não é o caso.”

Na realidade, os talebãs só apareceriam em 1994 na cidade afegã de Kandahar, onde logo ganharam popularidade se apresentando como estudantes-guerreiros. Suas fileiras eram formadas por jovens de etnia pashtun educados em escolas religiosas do Paquistão que pregavam uma interpretação conservadora do Corão.

“Quando surgiu o Talebã, o governo soviético já havia caído, mas é verdade que alguns dos líderes que o fundaram estavam entre os senhores da guerra que receberam ajuda dos EUA na guerra contra a União Soviética”, diz Shishani.

Vencer a União Soviética era o grande objetivo dos Estados Unidos. Como recorda Shishani, o “termo jihadista não tinha as conotações negativas que foram adquiridas depois” pela sangrenta ação de grupos como a al-Qaeda e o Estado Islâmico.

“Estados Unidos abasteciam o Afeganistão com armas, mas na realidade muitos países fizeram isso”, destaca.

Robert Crews, da Universidade de Stanford, se lembra que, quando surgiu em Kandahar, o Talebã se apresentou como “uma força nova e pura que queria combater tudo o que havia antes”. Ele diz que os primeiros líderes do grupo não estiveram entre os principais beneficiários da ajuda norte-americana.

No entanto, o êxito do Talebã veio, em parte, de suas promessas de restabelecer a ordem e instaurar um regime islâmico puro e tradicional. Portanto, o grupo se beneficiou de um clima de insegurança e desordem alimentado pelo apoio americano a insurgentes islamistas. E, nas palavras de Crews, “a ajuda dos EUA e a vitória contra União Soviética haviam contribuído para criar uma espécie de utopia jihadista”.

Qual o balanço da Operação Ciclone?

A retirada das forças soviéticas do Afeganistão foi vista como preâmbulo da queda da União Soviética e o fim da Guerra Fria. E, na década de 1990, os Estados Unidos viveram o apogeu de seu poder como potência, até a ascensão posterior da China.

Robert Gates, ex-secretário de Defesa dos EUA e funcionário da CIA quando foi concebida a Operação Ciclone, escreveu anos depois um livro sobre os presidentes que “ganharam a Guerra Fria”.

Mas, enquanto a Guerra Fria chegava ao fim, a guerra civil afegã seguia deixando milhares de mortos num país que agora não era mais prioridade nos planos geopolíticos dos EUA.

“Na guerra civil afegã, Washington optou pelo silêncio, inclusive no que se referia a violações de direitos humanos por parte de grupos de mujahedins que os EUA haviam apoiado”, destaca Crews.

O especialista compara o apoio à resistência antissoviética no Afeganistão ao suporte dado pelos EUA a outros movimentos armados que lutaram contra governos de esquerda em outros países na mesma época, como o que lutou contra a Frente Sandinista na Nicarágua.

Para Crews, essa política revela que, “para as elites e Washington, as populações de outros países são apenas instrumentos para alcançar seus interesses”.

Os idealizadores da Operação Ciclone nunca deram mostras de arrependimento. O ex-conselheiro Brzezinski deixou isso claro numa entrevista ao jornal francês “Le Nouvel Observateur”.

Quando perguntaram se ele se arrependia do apoio aos jihadistas, respondeu com outra pergunta: “O que é mais importante na história do mundo? O Talebã ou o colapso do império soviético?”.

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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