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Morre Tina Turner, considerada a mais vibrante cantora da história da música

Por Amilton Farias
24/05/2023 - 19:31
em Geral
Tina Turner; Imagem/Reprodução

Tina Turner; Imagem/Reprodução

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Quem a viu subir ao palco, afirma que o calor e a energia transmitidos por ela não se compara a nenhuma outra sensação já vivida.

Tina exalava sensualidade de cada poro desde o inà­cio de sua carreira, quando era vocalista do grupo The Ike & Tina Turner Revue, no final dos anos 50. Nessa fase, ela já era Tina Turner, mas nem sempre foi assim.

Tina nasceu Anna Mae Bullock, em Brownsville, Tenessee, no dia 26 de novembro de 1939. Abandonada pelo pai, junto com a irmã Alline, foi morar com a avó em Nutbush, para em seguida mudar-se para a casa de sua mãe em St. Louis, em 1956.

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Foi lá que Anna Bullock conheceu Ike Turner, um roqueiro promissor que logo ficou impressionado com sua estrondosa voz e a convidou para cantar em sua banda. Inicialmente Anna não quis por não acreditar muito na história. Mas, diante da insistência de Turner rendeu-se o convite. Foi então que aos 18 anos, Anna Bullock se transformou em Tina Turner.

Primeiramente Tina juntou-se a Ike Turner para fazer uma turnê, como parte do backing vocal. Só dois anos mais tarde, Tina seria a estrela do show. E foi là­ que o conjunto passou a chamar Ike Turner & The Kings of Rhythm. Tempos depois teria definitivamente o nome de Ike & Tina Turner.

Em 1960, a dupla começou a bater as listas de vendas com a música ‘A Fool in Love’. No decorrer da década, com ajuda do produtor Phil Spector, a banda explodiu com ‘River Deep Mountain High’ e, em 1971, consagraram o tema ‘Proud Mary’, uma versão da banda Creedence Clearwater Revival.

Mas, como na maioria das histórias, as fases boas não duram para sempre, com Tina não seria diferente. Anos depois ela abandonou Ike Turner devido a seu comportamento agressivo e consumo excessivo de drogas, além das diferenças pessoais. Do relacionamento, restou o nome consagrado de Tina e um filho.

Nos anos 70, o número de turnês e a venda de discos caà­ram, apesar do sucesso de Tina Turner durante sua atuação em “The Who’s Rock Opera”, onde ela cantou sozinha ‘Acid Queen’, apelido que foi lhe concedido pela mà­dia. Tina se viu livre e independente e acabou se separando legalmente de Ike exigindo na justiça apenas seu nome artà­stico. Para voltar a ser o que era, Tina decidiu partir para carreira solo, com apresentações em alguns programas e quadros de TV, como The Hollywood Squares, Donny and Marie, The Sonny & Cher Comedy Hour.

Tina ainda gravou alguns álbuns para a United Artists no final da década de 70, que não renderam muita repercussão. Em 1983 voltou com o projeto dos integrantes de Heaven 17, Ian Craig Marsh e Martin Ware, denominado B.E.F., onde fazia uma versão do tema de The Temptations ‘Ball of Confussion’. Surgiu então um contrato com a gravadora Capitol. Era a chance de retomar o caminho do sucesso.

Seu primeiro single foi uma versão do clássico de Al Green ‘Let’s Stay Together’, que entrou com força nas listas em 1984. Foi seguido pelo sucesso de ‘What’s Love Got to Do With It’, que se manteve três semanas em primeiro lugar, convertendo-se em um dos hits da época. No mesmo ano lançou Private Dancer, com o qual conseguiu os sucessos ‘Better Be Good to Me’ e ‘Private Dancer’.

Tina ficou em evidência no mundo todo. Voltou a se apresentar nos palcos dos quatro cantos da Terra, cada vez mais brilhante. Esta talvez tenha sido a época da melhor fase musical de Tina. Sua música passava pelo rock, pelo R&B e pelo romantismo, tudo levado pela voz rosnante e sua sensacional presença de palco.

‘We Don’t Need Another Hero’ em 1985 foi mais um estouro e ‘Typical Male”, do ano seguinte, seu último grande sucesso da década. Os anos 90 serviram para Tina se dedicar mais à s turnês pelo mundo e editar discretos álbuns, que acrescentaram seu nome como artista consagrada.

Autobiografia de Tina Turner conta inferno vivido pela cantora

No livro Tina Turner: Minha história de amor, a artista fala sobre detalhes do casamento e da carreira

Apesar do enorme sucesso que conquistou, a vida nunca deu muita trégua para Tina Turner. Ela teve momentos gloriosos como grande estrela do rock n; roll. Acumulou prêmios e vendeu discos aos milhões. Mas também passou por uma infância nada fácil, dificultada pela dislexia então não diagnosticada e pela relação impassível com a mãe. Ainda jovem, atravessou o ;inferno dantesco; ; como ela descreve o próprio casamento ; ao lado do ex-marido e guitarrista Ike Turner, de quem sofria todo tipo de violência. Há mais de uma década longe dos palcos, com a saúde debilitada e uma história de extremos nas costas, a voz de Proud Mary e The best narra bastidores de sua trajetória no livro Tina Turner: Minha história de amor.

A autobiografia chega às prateleiras do Brasil no ano em que a cantora completa 80 anos. É a segunda que ela escreve. Em I, Tina, lançado em 1986, ela revelou os abusos que sofria de Ike Turner, de quem foi parceira na dupla Ike & Tina Turner por 16 anos. O livro inspirou o drama biográfico Tina ; A verdadeira história de Tina Turner, de 1993, ao qual ela nunca assistiu para evitar lembranças ruins. ;Meus sentimentos por Ike eram dolorosos e não resolvidos quando o filme foi lançado;, explica.

Em tom de conversa, ela fala sobre o romance ao lado do atual marido, Erwin Bach, a vida de aposentada, relembra fatos marcantes da trajetória e episódios até então desconhecidos pelo público. Apesar de sempre ter sido aberta sobre o período traumático com Ike, ela omitiu alguns eventos por vergonha. Como a noite no bordel horas após se casarem: ;As pessoas nem imaginam o tipo de homem que Ike era ; um homem que leva sua nova esposa para assistir a um show de sexo pornográfico logo depois da sua cerimônia de casamento.

Vida difícil

Tina Turner nasceu Ana Mae, em Nutbush, no estado americano de Tennessee, em 1939. Avisos espalhados pela região informam que ali nasceu uma grande estrela. Um dos exemplos é a estrada que atravessa a cidade, que desde 2001 é conhecida como Tina Turner Highway. Em outra homenagem, a antiga escola onde ela estudou atualmente se chama Museu Tina Turner. Lá foi ;palco de humilhações diante do quadro-negro; quando Tina era criança. Sofria pela suposta ;falta de inteligência;, que foi esclarecida apenas em 2004. ;Finalmente superei esse senso de inferioridade quando a princesa Beatrice, neta da rainha Elizabeth, deu várias entrevistas sobre sua dislexia;, recorda-se.

Ela cresceu vendo a mãe, Zelma Bullock, ser agredida pelo pai. Filha indesejada, Tina conviveu com o desprezo da mãe por toda a vida. Chegou a ser abandonada por ela quando tinha 13 anos. Apesar dos problemas em casa e na escola, Tina tinha um grande talento guardado. Com 4 anos, foi colocada para cantar em frente a uma loja, num banquinho. Sempre teve facilidade em subir nos palcos e decorar músicas inteiras. Não tardou a entrar no coral da igreja e a cantar junto a um músico local em piqueniques da cidade.

Passou a cantar profissionalmente com 17 anos, dividindo a atividade com a de empregada doméstica. Ela se apresentava com os King of Rhythm, antiga banda de Ike Turner, que conheceu por intermédio da irmã. Ela teve Raymond Craig, primeiro dos quatro filhos, com o saxofonista do grupo Raymond Hill. O namoro com Ike começou em 1958. ;Agora, vejo que meu relacionamento com Ike foi fadado ao fracasso no dia em que ele percebeu que eu seria a galinha dos ovos de ouro;, escreveu.

A banda foi rebatizada como Ike & Tina Turner. Foi a forma que Ike encontrou de prendê-la, pois, como supôs, seria sempre associada a ele. A princípio, Tina não gostou do nome artístico e foi questioná-lo. Ele respondeu com o que seria a primeira das inúmeras agressões físicas que ela sofreria ao seu lado. ;Ike pegou um alargador de sapato de madeira e veio para cima de mim, pronto para me dar uma lição que eu não esqueceria tão cedo;, conta, lembrando de que ele evitava usar os próprios punhos para não estragar as mãos com que tocava guitarra.

Ike controlava tudo. Os shows, o dinheiro e a forma como Tina cantava, que nunca a agradou. Mesmo submetida ao marido, se envolveu em projetos de que se orgulha ainda hoje. Como a música River deep ; mountain high, que gravou com o produtor Phil Spector; o filme Tommy (1975), baseado na ópera rock homônima do The Who, no qual interpretou The acid queen; e o show que abriram para os Rolling Stones em Londres, onde ensinou passos de dança para Mick Jagger. ;Até hoje, Mick gosta de dizer que foi sua mãe quem lhe ensinou a dançar. Não me incomodo com isso. Mas eu sei a verdade;, revela.

Mas a vida sempre a lembrava dos pesadelos: ;Houve uma parte do mundo que eu preferia ter pulado. Durante a década de 1960, foi muito difícil para nós (Ike e Tina) ter viajado pelo Sudoeste americano, porque com frequência nos deparamos com situações perigosas de racismo;, contextualiza.

Em cima do palco, ela sorria e cantava, apesar das marcas de agressão. Ike era viciado em cocaína e mantinha diversos namoros paralelos. A vida infeliz que levava fez Tina tentar suicídio em 1968. ;Saí da escuridão acreditando que eu precisava sobreviver;, diz. Após várias tentativas fracassadas, Tina conseguiu fugir de casa e se viu livre de Ike em 1976.

Altos e baixos

A volta para o show business não foi fácil. Depois de um período fazendo show em clubes pequenos, Tina voltou a chamar a atenção. Deslanchou depois de ser elogiada publicamente por David Bowie. ;Sua cantora favorita era eu!”, destaca. Com mais de 40 anos, a mulher saída da vida humilde no Tennessee se tornou um dos maiores nomes da indústria fonográfica. Vendeu 200 milhões de discos, recebeu 12 prêmios Grammy e voltou às grandes telas em 1991 para interpretar Tia Entity em Mad Max ; Além da cúpula do trovão. Em 1991, ingressou no Rock and Roll Hall of Fame.

O contato com a música a aproximou do atual marido, o executivo da gravadora EMI, Erwin Bach, com quem está há 33 anos. Eles se casaram em 2013, no castelo onde vivem, na Suíça. A felicidade durou pouco. Três meses depois, ela recebeu ;um lembrete devastador da minha própria mortalidade.

Tina Turner sofreu um derrame. Com o lado direito do corpo paralisado, teve de fazer fisioterapia para reaprender a andar. Depois, teve uma crise de labirintite. Em 2016, foi diagnosticada com câncer no intestino. Além disso, um problema de pressão alta identificado nos anos 1970 começava a afetar os rins.

Estou sentada em uma poltrona para hemodiálise, em um hospital a 10 minutos da minha casa, tentando ignorar a morte, que não para de cutucar meu ombro;, relata. No fim de 2018, ela recebeu um rim transplantado do marido, 17 anos mais jovem. No ano passado, ela recebeu a notícia de que o primogênito, Craig, se matou aos 59 anos. ;Uma dor aguda em meu coração. Uma noite sofrida;, narra.

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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