Por Marcos Roberto Souza – Opinião
Considerações a propósito da avaliação do jornalista Kennedy Alencar: “Bolsonaro defende desobrigação de uso de máscara”.
Pensemos: por que o presidente se empenha, obcecadamente, por desacreditar, por hostilizar os protocolos de segurança sanitária impostos pelo controle da disseminação do SARS-COV2?
Ocorrem-me duas hipóteses. A primeira é que, comprometido com o devaneio — como tal, cientificamente desacreditado — da imunização coletiva por contágio, ele estaria empenhado em favorecer a disseminação do patógeno. Afinal, para alcançar setenta por cento de infectados na população (índice a partir do qual se alcançaria a quimérica “imunidade de rebanho”), ainda falta muito chão: até o momento se contagiaram pouco mais de dezessete milhões de brasileiros, quando é necessário contaminar cento e quarenta e sete milhões. O infatigável Capitão — malgrado os óbices levantados por cientistas, jornalistas, governadores e prefeitos — esforçar-se-ia por bater essa marca até o fim de seu mandato.
Verdade é que a Imprensa — essa incansável máquina de indiscrições — tem trazido a público que o cálculo da imaginária “imunidade de rebanho” inclui a previsão de um passivo de um milhão, um milhão e meio de mortos.
Parece muito, mas estamos falando de cerca de um por cento da população. Que significa esse morticínio — se é que se pode confiar na precisão de uma cifra tomada a um delírio — se estamos falando de uma imunização natural, barata — o custo restringe-se apenas à perda de vidas, e vidas de gente pobre — e garantidora do pleno funcionamento do mercado: tudo aberto, o povo acotovelando-se nas lojas, as multidões apinhando-se nos shoppings?
Ademais, frise-se que, ao longo de seus muitos pronunciamentos — proferidos Brasil afora, na antecipação de sua campanha à reeleição –, seja inaugurando uma reles ponto de madeira no meio do mato, seja cortando a fita de alguma obra inacabada, esquecida por algum de seus antecessores, o presidente já deixou claro: é preciso desprendimento para com a própria vida — tem falado ele aos pobres –; afinal, um dia, todos vamos morrer.
A segunda hipótese é a de que — malgrado o abnegado empenho de médicos que, abjurando a Hipócrates e renegando a Galeno, diuturnamente procuram incutir no presidente a aversão ao que a Ciência vem constatando acerca da Covid-19 — ele não acreditaria em nada que a seita do Gabinete das Sombras predica em seus conciliábulos e defende em suas camarilhas. Não: ele só persistiria em desacreditar toda e qualquer medida sanitária contra a proliferação do SARS-COV2 para arrancar aplausos, angariar o apoio e garantir os votos das camadas mais obscuras da sociedade — as quais, faça-se justiça, precedem o projeto fascista de poder engendrado e tocado pelo Capitão.
Historicamente, ainda que arregimentem, em suas fileiras, a cientistas e intelectuais — os cabeças do “movimento permanente” não se têm notabilizado por profundas convicções intelectuais ou ideológicas. O nazismo, por exemplo, arrimava-se a uma miscelânea de cristianismo, paganismo, darwinismo social e outras referências. Seu objetivo pragmático era — a exemplo de outros regimes fundados no arbítrio e no culto de uma personalidade — despolitizar a sociedade (daí a ferrenha perseguição à imprensa e a intelectuais politicamente engajados) e favorecer a concentração de renda (eis a razão de se perseguirem sindicatos e de se fortalecerem os monopólios e oligopólios). E, claro, garantir a fanatização e a fidelidade de camadas da sociedade com vistas a inculcar-lhes a lógica do sacrifício.
Não creio que Jair Bolsonaro seja tão tonto, que acredite na hipótese da “imunidade de rebanho”: ele só se vale dessa e de outras obscurantices porque as camadas que estão dispostas a perfilar-se em suas hostes mais fiéis, PRECISAM ouvir esses disparates para significar sua existência. É uma gente sempre sequiosa de extravagâncias (desde acreditar na existência do “chupa-cabra” até crer nas previsões de Nostradamus).
Ao longo de sua carreira pública, a única convicção de Bolsonaro tem sido o uso político da força: não por acaso, as raízes de suas legislaturas sempre se alimentaram da violência das milícias cariocas; não à toa, seu afastamento do Exército deveu-se à suspeita de seu envolvimento no planejamento de um atentado.
Ao Capitão sempre lhe convém, como uma espécie de Ratinho da política, falar aos extratos mais atrasados da sociedade. Quando lhe conveio, opôs-se às privatizações e ao Plano Real; quando lhe pareceu estar na moda, elogiou publicamente a Hugo Chávez; quando se lhe exigiu que adotasse uma postura conservadora e fingisse ser um liberal, ele não se fez de rogado. Agora, deseja-se que ele alimente a desconfiança das parcelas da sociedade que encasquetam com tudo o que se oponha à sua ignorância e ativismo? O presidente está aí para isso.
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