Por Marcos Roberto Souza – Opinião
Considerações inspiradas no vídeo “CPI encontra indícios de corrupção, e Planalto se prepara para o choque”, do Meteoro Brasil.
Se o presidente da República, durante a atual crise sanitária, fosse um representante das velhas oligarquias (como um Sarney), preocupado com a sucessão familiar de privilégios e com a garantia da fidelidade de aliados e da subserviência de apaniguados por meio de favores políticos; se fosse uma figura impopular, como FHC, em seu segundo mandato — comprometido com a meta de inflação, o superávit primário e a flutuação do câmbio — e impedido, por isso, de aprofundar políticas públicas de inclusão social e de distribuição de renda; ou se fosse um governo pura e simplesmente corrupto (como o de Collor), desde a campanha eleitoral envolvido em grossos esquemas de caixa dois e lavagem de dinheiro — que é o que se esperaria de sua postura diante das medidas exigidas pela pandemia?
No mínimo, esse presidente daria toda a autonomia para o responsável pela pasta da Saúde. Desde o início, veicular-se-iam campanhas a respeito dos cuidados pessoais necessários para a não proliferação do vírus. E, tão logo surgisse um imunizante disponível, não pouparia esforços para adquiri-lo.
É provável que, diante de medidas muito impopulares, como adotar um lockdown nacional, esse mandatário hipotético titubeasse; porém, rateando o desgaste eleitoral com governadores e prefeitos, por que não?
Nossa lástima é que Bolsonaro não representa um governo, mesmo quanto ao que se poderia esperar de pior no espectro político brasileiro: oligarca, impopular ou corrupto.
Bolsonaro, inclusive, chega a ser até, digamos, anti-intuitivo: algumas de suas iniciativas pessoais, como a de se indispor com o uso de máscara, chega a desconcertar até seus seguidores.
Mas Bolsonaro não é um tonto, um excêntrico, um “tiozão do Zap”: suas extravagâncias, suas insistências em contrariar certos protocolos, não só do governo, senão da própria vida social — atendem a um plano.
À frente de um projeto fascista de poder, Bolsonaro não ganhou as eleições para governar o Brasil: à semelhança de seus antecessores históricos, como Hitler, a ascensão democrática ao governo é apenas a primeira etapa de um plano maior.
A fim de instituir um movimento permanente contra o Estado democrático de direito, é preciso inculcar em seus apoiadores mais crédulos toda sorte de opinião “antissistema”: até recentemente, mesmo o terraplanismo fazia parte desse ideário — abandonado pelo Mito apenas depois do escolacho que recebeu de Lula, a esse respeito, durante aquele célebre discurso do ex-presidente em março passado.
E, ambicionado angariar a adesão das camadas sociais menos abonadas — que não costumam receber do Estado senão vigilância e violência — as palavras e ações do Capitão insubordinam-se a tudo o que cheire à autoridade: ciência, técnica, protocolo. Até as Forças Armadas, no discurso do Mito, perdem sua rigorosa hierarquia: passam a ser uma milícia do presidente, todos irmanados no serviço a Bolsonaro, sua família e seus apaniguados.
Por isso a pandemia, para nós, é tão trágica: coincidiu com a ascensão ao poder de um presidente cujo objetivo é fazer combalir as instituições da República para enriquecer-se e aos seus vertiginosamente: dilapidar os ativos da União, depredar os recursos naturais do país, precarizar a mão de obra.
Semelhante projeto, tocado a “passar a boiada”, a “dar de baciada” — não se sustenta por muito tempo: seus predecessores cronológicos mais virulentos, na Itália e na Alemanha da primeira metade do século passado, não completaram duas décadas.
O problema é que os extratos sociais que realmente sofrem as consequências sociais mais amargas da índole política “suicidária” do fascismo são os mais pobres.
Passada a vertigem, e tão espoliados quanto sempre foram, é provável ainda que os menos favorecidos creiam que o Mito terá desmoronado por culpa do Sistema, da China comunista ou do que quer que a propaganda tenha inculcado em suas convicções.
Ouso dizer que o projeto fascista de poder encabeçado por Bolsonaro supera, em tirania, os Anos de Chumbo. Ao contrário da Ditadura, o fascismo bolsonarista não tem nenhum compromisso com a governabilidade. Se chega a dar um autogolpe, sua violência tenderá a ser descentralizada, a cargo de milícias formadas por policiais e apoiadores.
É um vírus novo para a República: a concretização dos obscuros sonhos da Ação Integralista, mas tocada por uma gente menos programática e mais cretina.
As forças republicanas (chamemo-las, aqui, progressistas, como sói fazer-se hoje em dia) já tiveram de arrostar-se a diferentes projetos de consolidação política do arbítrio: golpes, ditaduras, consórcios políticos oligárquicos, planos econômicos impopulares — e até uma forma branda de fascismo (por haver incorporado pautas nacional-desevolvimentistas e reivindicações sindicais).
O fascismo predatório de Jair Bolsonaro, contudo, à semelhança do novo coronavírus no que toca à epidemiologia — é uma nova modalidade de escrotidão no que se refere à política.
Por isso não se deve estranhar que, de início, as orientações partidárias constitucionais e as lideranças dos movimentos sociais tenham patinhado diante do total descompromisso de Bolsonaro com a governabilidade da República ou com os ritos institucionais.
Entretanto, havendo-se inteirado — espera-se! — das idiossincrasias dessa nova praga que assola a política brasileira, possam as orientações progressistas desenvolver (por assim dizê-lo) os anticorpos sócio-históricos necessários ao enfrentamento, não só de um velho grupo oligárquico ou de uma tecnocracia alinhada por algum “pacote econômico” — não se trata nem mesmo apenas de uma quadrilha movida pura e simplesmente pela corrupção –, porém sim de uma aventura partidária tocada à base da fanatização dos manipuláveis e do amotinamento dos cooptáveis.
É uma luta dura, como renhida tem sido a resistência ao novo coronavírus; no entanto, assim como não é a primeira vez que a medicina enfrenta um patógeno que ameaça a saúde e o bem-estar de nossa espécie — não será a última que o progressismo terá de enfrentar um projeto de poder que ameaça a representatividade democrática e o empenho político pela inclusão social.
____________________________________________
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor (a) e não refletem necessariamente a política editorial do Fronteira Livre
















