Por Marcos Roberto de Souza Albuquerque
Considerações a respeito da superação do fascismo, na atual conjuntura brasileira, como um processo catártico
Regis irmão:
Pax Domini Tecum.
A Volta do Parafuso em nossa amizade e afetuosidade intelectual chega à sazão das precisões categóricas e cuidados conceituais.
Já não basta, entre nós, o arroubo do entusiasmo das noções e a profusão dos insights.
Procedamos, portanto, desde as coisas pequenas até as grandes.
Não confundamos nepotismo com oligarquismo. O nepotismo é uma prática de favorecimento de familiares inserindo-os nos negócios e funções públicos com vistas tão só a estabelecer o dito favorecimento sem nenhuma preocupação com o interesse público (como a eficiência) ou a lisura do processo em si (como a transparência).
Quanto à questão da submissão a um crivo judicial do atual grupo político que se tem apossado do Erário em prejuízo da Nação, é preciso considerar que tal procedimento, dada sua dimensão e complexidade, não pode conformar-se e circunscrever-se ao estritamente jurídico: tal catarse exige um movimento político.
Claro está que não nos referimos, quando mencionamos o âmbito político, a disputas partidárias e interesses fisiológicos voltados sabidamente à locupletação – própria e de familiares ou apaniguados. É algo maior.
Uma das definições aplicáveis ao campo político liga-se ao princípio da violência legítima: no campo político poder-se-iam desenvolver dinâmicas de contestação do vigente, defesa do possível e proposição do provável que, no campo jurídico, se submeteriam a sanções penais.
Um breve exemplo. A greve, no Brasil dos anos de 1930, era um crime, cuja retribuição penal exigia a reclusão. Hoje, até os agentes de segurança pública (contrariando normas específicas que o proíbem) têm feito greve.
Combater a escalada fascista que nos há acometido desde o Golpe de 16, penso eu, é um processo cultural: passa desde o trato acadêmico, que deve (sobrepujando as armadilhas fenomenológicas) categorizar adequadamente a atual aventura política fascista como tal; também envolve a elaboração de projetos de Nação, amadurecidos nas instâncias da comunicação social e em outros foros de formação da opinião pública; e, claro, deve encarnar-se numa práxis capaz de imunizar-nos com a Vacina de Nuremberg (como sabes, tomo essa alegoria ao grande psicanalista Christian Dunker), a qual nos faça superar o arrivismo vulgar que, para encher os bolsos de umas poucas famílias à custa do empobrecimento geral da sociedade e da dilapidação implacável das natureza, se arvora na defesa de valores difusos e de ideais farsescos.
É uma luta árdua, não há duvidar; mas nossa espécie, desde que começou a caminhar (quiçá a esmo) pelas savanas da África oriental – não há feito outra coisa senão lutar.
Um excelente fim de semana para todos nós, Regis irmão: até a próxima segunda, vige, no calendário dos Antigos, a Festa das Cabanas (Sucot). Sintamo-nos espiritualmente abrigados neste Tugúrio, símbolo da Tertúlia que devemos nutrir com HaBoreh (o Criador).
Chag Sameach.
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