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Biografia – Lima Barreto

Por Amilton Farias
12/11/2021 - 15:16
em Geral
Foto: Reprodução

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Escritor brasileiro pré-modernista nascido em 13 de maio de 1881 e falecido em 01 de novembro de 1922. Descendente de escravos, sentiu na pele a exclusão social devido à sua origem, inclusive nos meios acadêmicos. Além do alcoolismo, enfrentou diversos problemas de saúde em sua vida e foi internado em hospício por mais de uma vez.

Recordações do escrivão Isaías Caminha foi seu primeiro livro publicado, em 1909. Entretanto, Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) é o preferido pela crítica literária. Suas obras são realistas e trazem uma visão crítica da sociedade brasileira. O escritor trabalha, com ironia, não só a temática nacionalista, como também discute as diferenças sociais e a questão do preconceito racial. Como ele escreveu em seu Diário íntimo (1953): “A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos, a posteriori”.

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Biografia de Lima Barreto

O escritor Lima Barreto (Afonso Henriques de Lima Barreto) nasceu em 13 de maio de 1881, na cidade do Rio de Janeiro. Era negro e de família pobre. Sua avó materna, Geraldina Leocádia da Conceição, foi uma escrava alforriada. Sua mãe era professora primária e morreu de tuberculose quando Lima Barreto tinha 6 anos. Seu pai era tipógrafo, porém sofria de doença mental.

O autor, no entanto, tinha um padrinho com posses – o Visconde de Ouro Preto (1836-1912) –, o que permitiu que o escritor estudasse no Colégio Pedro II. Depois, ingressou na Escola Politécnica, mas não concluiu o curso de Engenharia, pois precisava trabalhar. Em 1903, fez concurso e foi aprovado para atuar junto à Diretoria do Expediente da Secretaria da Guerra. Assim, concomitantemente ao trabalho como funcionário público, escrevia os seus textos literários.

Em 1905, trabalhou como jornalista no Correio da Manhã. Lançou, em 1907, a revista Floreal. Em 1909, o seu primeiro romance foi editado em Portugal: Recordações do escrivão Isaías Caminha. Já o romance Triste fim de Policarpo Quaresma foi publicado, pela primeira vez, em 1911, no Jornal do Comércio, em forma de folhetim. Em 1914, Lima Barreto foi internado em um hospital psiquiátrico pela primeira vez.

Segundo Shyrley Pimenta, mestre em Psicologia Aplicada:

“A saúde do escritor não andava bem. Nesse aspecto, desde os vinte e cinco anos, teve início o calvário particular do escritor: adquiriu uma fraqueza geral e sua saúde debilitou-se. Aos vinte e nove anos sofre de impaludismo e reumatismo poliarticular. Sofrera de maleita na infância, e a doença se repetira aos trinta anos. Aos trinta e um, já com alguns sintomas da dependência alcoólica, manifesta-se nele uma hipercinese cardíaca, também decorrente do abuso de álcool, e aos trinta e três anos, a depressão e a neurastenia. Aos trinta e cinco, apresenta uma anemia pronunciada, e aos trinta e sete, quebra a clavícula e é acometido pelos primeiros ataques da epilepsia tóxica, também comum aos dependentes do álcool, ocasião em que é considerado “inválido” para o serviço público e aposentado, em dezembro de 1918.”

Lima Barreto, que se candidatou três vezes a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, recebeu dela, segundo Francisco de Assis Barbosa (1914-1991), apenas uma menção honrosa em 1921. Morreu em 01 de novembro de 1922.

Características literárias de Lima Barreto

O escritor Lima Barreto está inserido no Pré-modernismo. Fazem parte desse período as obras de autores brasileiros publicadas entre 1902 e 1922. É uma fase de transição entre o Simbolismo e o Modernismo. Portanto, durante esse período, é possível perceber influências de estilos de época anteriores, tais como o Parnasianismo e o Simbolismo (na poesia) e o Naturalismo (na prosa).

Além dessa característica, são perceptíveis elementos de cunho nacionalista, que já preanunciam a estética modernista brasileira. Assim, não há mais a idealização romântica e nota-se um nacionalismo crítico, em que os problemas sociais do Brasil são expostos, em que a crítica política é escancarada. O realismo, nessas obras, é predominante.

As obras de Lima Barreto, portanto, apresentam tais características. Contudo, estão também impressos, em seus textos, elementos que remetem à experiência de vida do autor, marcada pela exclusão e pelo preconceito, devido à sua origem pobre, à sua negritude e aos problemas de saúde que enfrentava.

Assim, seus romances, memórias, crônicas e contos trazem a imagem de um Brasil de início do século XX, a partir da visão bastante crítica de um homem e artista excluído da sociedade e do meio acadêmico. Em romances como Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909) e Clara dos Anjos (1948), a temática do preconceito racial é focalizada, a visão de um país justo e tolerante não se sustenta.

Esses dois romances também fazem crítica à política brasileira, quando, no primeiro, é evidenciado o poder político da imprensa e, no segundo, os poderes estatais são criticados por não se preocuparem em solucionar os problemas do subúrbio. Sua obra, portanto, caracteriza-se pela denúncia das desigualdades sociais, que se mantinham devido aos interesses políticos individuais em prejuízo da coletividade. Assim, o escritor, com ironia, apontava a hipocrisia da sociedade brasileira de sua época.

E, por fim, segundo o Portal Literafro:

“Outra marca indelével de sua obra reside no ponto de vista afro-identificado, que constitui um lugar de fala solidário ao subalterno e sensível aos dramas dos desvalidos, sejam eles homens ou mulheres. Estas últimas, em especial, recebem um tratamento distinto dos estereótipos dominantes à época, sobretudo no que tange à sexualidade da mulher negra, reduzida em muitos escritos do século XIX a mero objeto do desejo e das fantasias brancas e masculinas — animal erótico desprovido de razão e sentimentos.”

Principais obras de Lima Barreto

Os principais livros de Lima Barreto são:

  • Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909): romance.
  • As aventuras do Dr. Bogoloff (1912): romance.
  • Triste fim de Policarpo Quaresma (1915): romance.
  • Numa e a ninfa (1915): romance.
  • Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919): romance.
  • Histórias e sonhos (1920): contos.
  • Os bruzundangas (1922): crônicas.
  • Bagatelas (1923): crônicas.
  • Clara dos Anjos (1948): romance.
  • Feiras e mafuás (1953): artigos e crônicas.
  • Marginália (1953): crônicas.
  • Coisas do reino do Jambon (1956): sátira e folclore.
  • Vida urbana (1956): artigos e crônicas.
  • O subterrâneo do Morro do Castelo (1997): novela.
  • Diário íntimo (1953): memórias.
  • O cemitério dos vivos (1956): memórias.

Veja também: Angústia: romance escrito por Graciliano Ramos

Triste fim de Policarpo Quaresma

A sua obra mais conhecida e apreciada pela crítica é Triste fim de Policarpo Quaresma. Nesse livro, de cunho nacionalista e crítico, o narrador mostra vários elementos da cultura nacional, positivos e negativos. Começa por apresentar o violão como integrante da cultura brasileira – instrumento que, no final do século XIX e início do XX, era malvisto e marginalizado:

“Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido, com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?”

O nacionalista Policarpo Quaresma estuda o tupi-guarani, pois, para ele, essa seria a língua original dos brasileiros. Por isso, é apelidado de Ubirajara:

“Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manhãs, antes que a “Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo”, ele se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua guaraní o más bien tupí, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. Na repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo notícia desse seu estudo do idioma tupiniquim, deram não se sabe por que em chamá-lo — Ubirajara.”

Mais tarde, inclusive, Policarpo vai enviar um requerimento ao Congresso Nacional para que este decrete o tupi-guarani como “língua oficial e nacional do povo brasileiro”. E, por isso, será alvo de zombaria. Além disso, entre as inúmeras defesas do nacionalismo, feitas pelo protagonista, está também a crítica à supervalorização dos brasileiros em relação ao que é estrangeiro:

“E desse modo ele ia levando a vida, metade na repartição, sem ser compreendido, e a outra metade em casa, também sem ser compreendido. No dia em que o chamaram de Ubirajara, Quaresma ficou reservado, taciturno, mudo, e só veio a falar porque, quando lavavam as mãos num aposento próximo à secretaria e se preparavam para sair, alguém, suspirando, disse: “Ah! Meu Deus! Quando poderei ir à Europa!” O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou fraternal e persuasivo: “Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer a minha de princípio ao fim!””

Como característica das obras de Lima Barreto está o subúrbio como espaço da ação e da crítica social. No livro, tal escolha política do autor mantém-se:

“Os cuidados municipais também são variáveis e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios, em certas partes e outras não; algumas vias de comunicação são calçadas e outras da mesma importância estão ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão bem cuidado sobre o rio seco e passos além temos que atravessar um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos.

[…]

Além disto, os subúrbios têm mais aspectos interessantes, sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico; as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem um deles bem inédito. Casas que mal dariam para uma pequena família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos aposentos assim obtidos, alugados à população miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos, é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino.”

Está também presente nessa obra, e em outras do autor, a valorização da linguagem coloquial, característica que o movimento modernista vai abraçar em sua defesa de uma identidade brasileira:

“— Ioiô sabe! Não sabe? Quá, sabe!

— Não sei, cante. Se eu soubesse não vinha aqui. Pergunte aqui ao meu amigo, o Major Policarpo, se sei.

Quaresma fez com a cabeça sinal afirmativo e a preta velha, talvez com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa, farta e rica, ergueu a cabeça, como para melhor recordar-se, e entoou:

É vem Tutu

Por detrás do murundu

Pra cumê sinhozinho

Com bucado de angu.”

Desse modo, o narrador apresenta uma cantiga popular como parte de uma tradição brasileira, que deve ser preservada. Quanto a isso, Quaresma considera um sinal de fraqueza não guardar as tradições, pois, segundo ele, os países poderosos valorizam a própria cultura:

“Quaresma vinha desanimado. Como é que o povo não guardava as tradições de trinta anos passados? Com que rapidez morriam assim na sua lembrança os seus folgares e as suas canções? Era bem um sinal de fraqueza, uma demonstração de inferioridade diante daqueles povos tenazes que os guardam durante séculos! Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradições, mantê-las sempre vivazes nas memórias e nos costumes…”

Ademais, o romance é marcado pela ironia e por passagens em que predomina o senso de humor, como esta:

“[…] lhe bateram à porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas não apertou a mão. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos, como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irmã correu lá de dentro, o Anastácio também, e o compadre e a filha, pois eram eles, ficaram, estupefatos no limiar da porta.

— Mas que é isso, compadre?

— Que é isso, Policarpo?

— Mas, meu padrinho…

Ele ainda chorou um pouco. Enxugou as lágrimas e, depois, explicou com a maior naturalidade:

— Eis aí! Vocês não têm a mínima noção das coisas da nossa terra. Queriam que eu apertasse a mão… Isto não é nosso! Nosso cumprimento é chorar quando encontramos os amigos, era assim que faziam os tupinambás.”

Ou quando Quaresma é considerado louco por escrever um documento oficial em tupi; uma atitude, para ele, nacionalista:

“— O que é?

— O Quaresma está doido.

— Mas… o quê? Quem foi que te disse?

— Aquele homem do violão. Já está na casa de saúde…

— Eu logo vi, disse Albernaz, aquele requerimento era de doido.

— Mas não é só, general, acrescentou Genelício. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro.

— É o que eu dizia, fez Albernaz.— Quem é? perguntou Florêncio.

— Aquele vizinho, empregado do arsenal; não conhece?

— Um baixo, de pince-nez?

— Este mesmo, confirmou Caldas.

— Nem se podia esperar outra coisa, disse o doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura…”

Essa associação da loucura com o desenvolvimento da intelectualidade parece, portanto, ser típica da cultura brasileira, que vê no conhecimento um risco para a sanidade mental, o que, de certa forma, parece enaltecer a ignorância, da qual, aliás, Policarpo Quaresma se torna uma vítima, como se pode ver no decorrer da obra. Nessa perspectiva, temos também:

“Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera, fora a do doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que Quaresma tivesse livros: “Se não era formado, para quê? Pedantismo!””

O preconceito racial também é mostrado, como parte negativa da cultura brasileira, quando o personagem Ricardo Coração dos Outros se incomoda com o fato de que “aparecera um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era citado ao lado do seu”:

“Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão, era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento. Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse célebre, não havia mal algum; ao contrário: o talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermédio do instrumento considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe cercava a pessoa, desmoralizava o misterioso violão que ele tanto estimava.”

No mais, essa obra de Lima Barreto traça um perfil diversificado e complexo do povo brasileiro, de forma a mostrar sua identidade cultural e seus problemas sociais. Assim, Policarpo Quaresma defende a modinha (cantiga popular urbana e sentimental) como poesia nacional. E o narrador mostra uma cultura formada pela influência indígena e africana, além da portuguesa e de outras nações que começavam a influenciar a cultura brasileira, representadas pelo italiano Coleoni.

A obra também desconstrói a visão romântica que se tinha do interior do Brasil:

“O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros ideia de que eram felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro, tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro e aquele “sopapo” que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto de um doente. Por que, ao redor dessas casas, não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo nas fazendas, o espetáculo não era mais animador. […]. Não podia ser preguiça só ou indolência. Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia para trabalhar. […]. Seria a terra? Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!…”

Problemas sociais que os pré-modernistas decidiram debater e combater, em franca oposição à idealização romântica, e, alguns deles, de forma contrária às ideias naturalistas, que defendiam que a pobreza era uma espécie de “fenômeno natural”. Na descrição do interior, além do mais, está a questão das terras improdutivas, que contribuíam para a pobreza nacional. Assim, Policarpo Quaresma, um romântico em sua essência, pois alimentava um nacionalismo ufanista, começa a questionar essa realidade:

“Demais, a sua educação militar [do Floriano Peixoto|2|] e a sua fraca cultura deram mais realce a essa concepção infantil, raiando-a de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas.

Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos e sinceros do tempo, foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava àquela figura plácida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao organismo aniquilado da pátria, que o major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de uns tempos para cá, já tivesse dúvidas a certos respeitos.”

Dessa maneira, a desilusão do romântico Policarpo Quaresma finalmente traz o protagonista para a realidade, quando ele escreve uma carta ao ditador, em que diz o que pensa, e por isso é preso:

“Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo umidade, misturado com os seus detritos, quase sem comer… Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava pensar. Não havia base para qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquela.”

No final do romance, fica claro que Policarpo é um herói imperfeito, sujeito às tristezas e à frustração. Seu espírito nacionalista e seu desejo de ver o país crescer são aniquilados. Nesse ponto, a obra de Lima Barreto em nada é otimista, pois demonstra uma realidade brasileira em que a conjuntura política e social contribui não para o crescimento, mas para o aniquilamento de uma nação:

“Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem… Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada… O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folk-lore, das suas tentativas agrícolas… Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!

O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escárnio; e levou-o à loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras não eram ferazes e ela não era fácil como diziam os livros. Outra decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois ele não a viu combater como feras? Pois não a via matar prisioneiros, inúmeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma série, melhor, um encadeamento de decepções.”

Frases de Lima Barreto

Vamos ler, a seguir, algumas frases do escritor Lima Barreto; umas, retiradas do seu livro Diário íntimo (1953); outras, de algumas de suas crônicas:

“É triste não ser branco.”

“O que é verdade na raça branca, não é extensivo ao resto.”

“Eu, mulato ou negro, como queiram, estou condenado a ser sempre tomado por contínuo.”

“A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos, a posteriori.”

“No futuro, escreverei a História da Escravidão Negra no Brasil e sua influência na nossa nacionalidade.”

“Os protetores são os piores tiranos.”

“Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas.”

“Deixem as mulheres amar à vontade.”

“Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação.”

“Pior do que o adultério é o assassinato.”

“Há sempre no Estado curiosas contradições.”

“Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós.”

“Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.”

“Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretárias chics que fizeram as grandes reformas no mundo.”

“A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência.”

“Quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte.”

“Dante foi um pouco vagabundo; Camões, idem; Bocage também; e muitos outros que figuram nos dicionários biográficos e têm estátua na praça pública.”

“Quando me julgo — nada valho; quando me comparo, sou grande.”

Tags: Geral
Amilton Farias

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre

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