No grupo de desempregados, 38% declararam não ter alimentação suficiente.
Entre os autônomos, foi de 26%, assim como para 20% dos assalariados sem carteira assinada e 28% dos desempregados que não procuram trabalho.
Em março, a cenoura ganhou o status de símbolo nacional da fome, lugar que já foi o chuchu, o tomate, o arroz, que chegou a ser comparado a pérolas, carne e alface, entre outros. Virou meme, tema de conversa e teve seus minutos de fama quando apareceu em forma de colar no pescoço de Ana Maria Braga, que abriu uma edição do programa “Mais Você” apresentando o “acessório caro”. O quilo do alimento — que sofreu com o excesso de chuvas e pragas — chegou a R$ 20 em alguns mercados, feiras e quitandas.
Sintetizada em vegetal, a inflação que voltou a níveis preocupantes no Brasil no ano passado, agora impulsionada pela guerra na Ucrânia, acentua um problema estrutural, agravado por questões conjunturais e pela falta de vontade política: a fome que alimentou bem o Brasil insiste em não ver e encarar.
As cenouras são apenas uma das muitas baixas recentes no cardápio nacional. A coxa de frango foi trocada pela carcaça. A sopa passou a ser feita com ossos, antes cedidos e agora vendidos por frigoríficos. E os pratos estão cada vez mais vazios: 24% dos entrevistados em pesquisa do Datafolha, divulgada na quarta semana de março, consideram que nos últimos meses a quantidade de comida disponível em suas mesas tem sido menor do que o necessário para alimentar a família.
Para os mais pobres, com renda familiar de até dois salários mínimos (R$ 2.424), o problema é mais recorrente e é apontado por 35%. Entre os que ganham entre dois e cinco salários mínimos, 13% identificaram falta de comida na mesa. São níveis semelhantes aos registrados em 2021.
No grupo de desempregados, 38% declararam não ter alimentação suficiente. Entre os autônomos, foi de 26%, assim como para 20% dos assalariados sem carteira assinada e 28% dos desempregados que não procuram trabalho.
Para 42% das famílias com mais de dez salários mínimos, a quantidade de alimentos disponível foi considerada mais que suficiente. Este é um grupo seleto. Uma renda média mensal de R$ 10.812 coloca o cidadão entre os 5% mais ricos do Brasil, segundo dados da Pnad Contínua 2020 do IBGE.
Na boca do jacaré, a curva de custo dos alimentos básicos aponta para cima e a renda disponível para comprá-los se instala no maxilar inferior. São 13 produtos alimentares em quantidade suficiente para garantir, durante um mês, o sustento e bem-estar de um trabalhador adulto, de acordo com o Decreto-Lei n.º que continua em vigor.
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) calcula que, atualmente, a cesta básica representa 56% da renda de quem ganha um salário mínimo (R$ 1.212,00), descontando 7,5% referentes à Previdência Social.
Para 43,3% dos brasileiros, porém, a cesta é uma miragem. Esse é o contingente de pessoas que vivem com menos de meio salário mínimo por mês, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Penssan, divulgados em 2021, com dados de 2020, primeiro ano da pandemia . Na extrema pobreza, com renda per capita de até um quarto do salário mínimo, estão 14,1% da população – 19 milhões de brasileiros que enfrentam a extrema pobreza e a fome.
Os números alarmantes serão atualizados em breve. Uma nova rodada da pesquisa está em andamento e deve ser divulgada em maio. Maite Gauto, gerente do programa da Oxfam Brasil, organização dedicada ao combate às desigualdades que participa da pesquisa, acredita que os resultados vão piorar. A esperança é que, ao olhar para a dura realidade, as empresas e a sociedade recuperem o fôlego por doações como no primeiro ano da pandemia.
A questão é complexa e seu enfrentamento depende de um conjunto de fatores – incluindo políticas de distribuição de renda, emprego, saúde, educação. E é, paradoxalmente, a percepção dessa complexidade que, de certa forma, limita as doações para organizações não governamentais que atuam nessa área.
As pessoas doam para resolver o problema e a solução para a fome está longe. “Mas enquanto isso não basta, as pessoas precisam sobreviver”, diz Rodrigo “Kiko” Afonso, diretor executivo da Ação da Cidadania, organização fundada pelo sociólogo Herbert de Souza, conhecido como Betinho, em 1993 para ajudar ao máximo os 32 milhões de brasileiros que, segundo o IPEA, estavam abaixo da linha da pobreza.
Há também uma questão cultural: os brasileiros doam na tragédia, mas não na dificuldade, explica Kiko. Os momentos dramáticos das enchentes no sul da Bahia e Petrópolis neste verão mobilizaram a sociedade. Eles foram deixados para trás, mas as consequências persistem. Sem o apelo do drama aberto, os recursos diminuíram.
No campo corporativo, o processo estanca porque a promoção da marca fala mais alto. “Infelizmente, a ação social está muito ligada à questão do marketing, a fome é um tema difícil, que não proporciona momentos de brilho. Temas como meio ambiente, infância, educação são mais fáceis de lidar”, diz Kiko.
O termo do momento, ESG (Práticas Ambientais, Sociais e de Governança) mobiliza as empresas para apagar as pegadas de emissões e mitigar seus impactos. Mas as iniciativas e programas, na visão de Kiko, são muitas vezes impulsionados apenas pela pressão de investidores que querem reduzir o risco.
Na maioria dos casos, as ações contra a fome não estão na matriz de materialidade dos indicadores que os fundos utilizam para monitorar o desempenho ESG das empresas. Se a ajuda não se traduzir em números, dificilmente estará entre as prioridades, alerta Kiko.
A sociedade se vira como pode. A Coalizão Negra por Direitos liderou a campanha “Tem Gente com Fome” por quase um ano. Obteve R$ 30 milhões em alimentos, distribuídos a 100 mil famílias. Mas não bastou nem para atender a lista de inscritos feita pelas 240 organizações que compõem o movimento. Havia 223.000 famílias em todo o país.
Não há campanha que possa lidar com o tamanho do desafio. Para o ativista Douglas Belchior, coordenador da Coalizão, o esforço do poder público é condição básica para a solução do problema. E o setor privado é crucial. Além de ajudar na emergência, diz ele, ele pode usar sua influência política para pressionar por programas sociais.
A mobilização contra a fome, que está no topo do S da agenda ESG, precisa ser permanente.
No site da Oxfam há uma lista de organizações da sociedade civil que trabalham para garantir que os brasileiros tenham comida no prato.
















