Buenos Aires (Argentina) — Gravações de áudio divulgadas por veículos de imprensa internacionais indicam a existência de uma articulação política e midiática com atuação na América Latina voltada à produção e disseminação de desinformação. O material, atribuído a conversas entre o ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández e aliados políticos, menciona apoio financeiro do presidente argentino Javier Milei para a estruturação da operação.
Segundo reportagens publicadas pelos veículos Página 12, Diario Red e pela plataforma investigativa Hondurasgate, o projeto envolveria a criação de uma estrutura de comunicação baseada nos Estados Unidos, com o objetivo de influenciar o debate político em países da região, como México, Colômbia e Honduras.
Nas gravações, Hernández — condenado por tráfico de drogas nos Estados Unidos — descreve a montagem de uma “Unidade de Jornalismo Digital” com atuação internacional. Em um dos trechos, ele afirma:
“Vamos montar uma célula, Sr. Presidente. Daqui, dos Estados Unidos, um centro de informações, para que não possam nos rastrear lá em Honduras. Vai ser como um site de notícias da América Latina.”
O material também cita uma conversa com o atual presidente hondurenho, Nasry Asfura, na qual são mencionados recursos financeiros para viabilizar a operação:
“Eu estava em uma ligação com o Presidente Javier Milei, e foi um sucesso. Muito, muito bom, e acho que neste momento podemos fazer grandes coisas por toda a América Latina.”
Em outro trecho, o ex-presidente hondurenho afirma que o projeto teria financiamento internacional e detalha valores:
“Conseguimos falar com Javier Milei, e ele também está contribuindo com US$ 350.000. Outro grande amigo nosso do México também está contribuindo.”
As conversas também mencionam a intenção de utilizar a estrutura para influenciar disputas políticas na região. Em um dos áudios, Hernández afirma:
“Com o apoio de alguns republicanos, poderemos atacar e erradicar o câncer da esquerda aqui em Honduras e em toda a América Latina.”
A autenticidade das gravações, segundo os veículos que conduzem a investigação, está em processo de verificação técnica. A diretora do Diario Red América Latina, Daniela Pastrana, afirmou que o material — que reúne mais de 300 áudios — passa por análise detalhada com ferramentas de validação digital.
“Tudo estará disponível na próxima semana, assim que todos os vazamentos forem feitos. As gravações estarão abertas e disponíveis para que qualquer pessoa possa realizar qualquer tipo de análise que julgar necessária”, afirmou.
Juan Orlando Hernández negou a veracidade das gravações após a divulgação do conteúdo. A negativa, no entanto, é contestada pelos responsáveis pela investigação, que apontam coerência cronológica entre as conversas e acontecimentos políticos posteriores.
O caso reacende o debate sobre o uso de estruturas digitais e campanhas coordenadas de informação no cenário político latino-americano, especialmente em um contexto de disputas ideológicas e geopolíticas na região.
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