Mais de 546 mil brasileiros foram afastados do trabalho por esgotamento em 2025. O burnout deixou de ser desculpa de quem não aguenta pressão e passou a ser diagnóstico reconhecido pela OMS. Mas o que acontece, de fato, dentro do seu organismo quando o trabalho te consome?
Por Dr. João Paulo Mendes
Tem gente que acorda já cansada. Não importa quantas horas dormiu. O café não resolve. A vontade de ir trabalhar foi embora faz tempo — e, com ela, a paciência, a concentração e aquela sensação de que o que você faz tem algum sentido. Isso não é preguiça. Não é frescura. É o seu cérebro pedindo socorro.
A síndrome de burnout — do inglês “queimar até o fim” — foi reconhecida como fenômeno ocupacional pela Organização Mundial da Saúde em 2022, com código próprio na CID-11. O termo tem raízes nos anos 1970, quando o psicólogo americano Herbert Freudenberger descreveu o esgotamento de voluntários que trabalhavam em clínicas de saúde com dedicação excessiva. Cinquenta anos depois, o quadro saiu das clínicas e entrou nas fábricas, nos escritórios, nas salas de aula, nos home offices.
O que os números dizem
Os dados de 2025 são difíceis de ignorar. Segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) com base no INSS, os afastamentos por transtornos mentais subiram de 219.850 em 2023 para 365.684 em 2025. O Ministério da Previdência Social registrou mais de 472 mil licenças médicas concedidas só em 2024 — aumento de 68% em relação ao ano anterior e o maior número da série histórica.
O Banco Mundial e a Opas estimam que os prejuízos ligados à saúde mental no Brasil equivalem a 4,7% do PIB — algo em torno de R$ 554 bilhões em 2024, considerando absenteísmo, queda de produtividade e custos com demissões e contratações. E, mesmo assim, grande parte das empresas ainda trata o assunto como tabu.
Segundo a ANAMT, cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros convivem com a síndrome, o que coloca o país na segunda posição do ranking mundial de casos diagnosticados. Atrás apenas do Japão.
“Os afastamentos mostram o estágio mais grave do adoecimento. Antes disso, existe um contingente enorme de trabalhadores atuando com sofrimento, mas que ainda não chegou ao ponto de se afastar formalmente.” Francisco Cortes Fernandes — Médico do Trabalho, ANAMT
O que acontece no seu cérebro
Burnout não é só cansaço de alma. É uma falha neurobiológica mensurável. Quando uma pessoa vive sob pressão constante, o corpo aciona o chamado eixo HPA — hipotálamo, pituitária e glândulas adrenais — que despeja cortisol na corrente sanguínea. O cortisol é o hormônio do estresse: fundamental em doses pontuais, tóxico quando cronicamente elevado.
Com o estresse se tornando rotina, o hipocampo — região do cérebro ligada à memória e à regulação emocional — sofre efeitos neurotóxicos diretos dessa exposição prolongada. O córtex pré-frontal, responsável por planejamento, controle emocional e tomada de decisão, também é afetado. O resultado prático é aquela dificuldade de se concentrar, a memória que falha, a irritabilidade que surge do nada. Não é fraqueza de caráter. É bioquímica.
A tríade clínica do burnout
O diagnóstico médico se estrutura em três pilares, definidos pela Escala de Maslach, referência mundial na área:
Os três pilares do diagnóstico
— Exaustão emocional: Esgotamento que não passa nem com repouso. A pessoa não tem mais energia emocional para enfrentar as demandas do dia.
— Despersonalização: Distanciamento afetivo e cinismo. O trabalho perde sentido. Colegas e clientes passam a ser tratados com indiferença — é o cérebro se protegendo de um ambiente que o machuca.
— Redução da realização pessoal: Sensação de incompetência mesmo entregando resultados. A pessoa sente que nada do que faz é suficiente.
Como o corpo sinaliza antes da quebra
O burnout raramente chega como uma avalanche. Ele acumula, silencioso, por meses — às vezes anos. O problema é que, culturalmente, o Brasil foi ensinado a admirar o esforço extremo. “Quem não está cansado não está trabalhando” é uma frase que muita gente ouviu crescendo. Esse elogio ao esgotamento atrasa o diagnóstico. Os sinais físicos e emocionais costumam aparecer assim, em ordem de progressão:
Sinais de alerta — Do início ao colapso
— Cansaço que não passa mesmo após férias ou fins de semana prolongados
— Queda brusca de motivação e interesse pelo trabalho
— Dificuldade de concentração e lapsos frequentes de memória
— Irritabilidade desproporcional a situações cotidianas
— Insônia ou sono em excesso
— sem sensação de descanso real
— Dores de cabeça recorrentes, problemas gastrointestinais e baixa imunidade
— Isolamento de amigos, família e colegas
— Sensação crescente de ineficácia
— “não sou bom o suficiente para isso”
Quem adoece mais — e por quê
Estudo publicado em 2025 no periódico científico indexado no PubMed analisou dados do SUS sobre burnout no Brasil entre 2014 e 2024. Os resultados mostram que 71,6% dos casos notificados são de mulheres, a maioria entre 35 e 49 anos. O Sudeste concentra 52,8% das notificações, seguido pelo Nordeste com 29,8%. O ano de 2024 registrou a maior taxa de notificação da série histórica — 28,4% de todos os casos da última década.
O perfil não é coincidência. Profissões com alta carga emocional e relacional — enfermagem, medicina, magistério, serviço social, atendimento ao público — concentram historicamente os casos mais graves. E a sobrecarga das mulheres é estrutural: além da jornada formal, há a chamada “segunda jornada” em casa, com cuidados de filhos e gestão do lar. Para uma trabalhadora na escala 6×1, não sobra tempo nem para o próprio esgotamento.
O que funciona no tratamento
Burnout não se resolve com um fim de semana de descanso ou com aplicativos de meditação. O tratamento efetivo exige intervenção em duas frentes simultâneas: o indivíduo e o ambiente de trabalho. Tratar apenas a pessoa sem mudar a estrutura que a adoeceu é como esvaziar um barco furado com um copo.
No plano clínico individual, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a abordagem com maior evidência científica para burnout, ajudando a reestruturar padrões de pensamento que perpetuam o esgotamento. Em casos moderados a graves, o médico pode associar medicamentos — antidepressivos ou ansiolíticos — e o afastamento temporário das atividades profissionais é muitas vezes necessário para a recuperação. Exercício físico regular e sono de qualidade não são complementares: são parte do tratamento.
No plano coletivo, desde maio de 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego determinou que empresas brasileiras adotem medidas formais de gestão da saúde mental dos trabalhadores. A lei nº 14.831, em vigor desde 2024, incentiva a criação de ambientes corporativos com foco em bem-estar. Mas legislação e prática ainda caminham em velocidades diferentes.
“Um corpo que não descansa produz menos e adoece mais. Reduzir a jornada é, antes de tudo, uma medida de saúde pública.” Medicina do Trabalho — consenso científico
Quando buscar ajuda
Se você se reconheceu em mais de três dos sinais listados acima, e isso persiste há mais de um mês, é hora de procurar um médico — preferencialmente com especialização em psiquiatria ou medicina do trabalho. O diagnóstico de burnout exige avaliação clínica criteriosa, com exclusão de outras condições como depressão, hipotireoidismo e transtornos de ansiedade generalizada, que compartilham sintomas.
Não existe exame de sangue que feche o diagnóstico de burnout. Mas existe escuta qualificada, e essa, infelizmente, ainda é o recurso mais escasso no sistema de saúde brasileiro. ⚕
NOTA MÉDICA
Esta coluna tem caráter informativo e educativo. Não substitui consulta com profissional de saúde. Se você ou alguém próximo apresenta sinais de esgotamento grave, procure o médico de família, uma UBS ou, em casos de crise, o CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo telefone 188.
FONTES E REFERÊNCIAS
Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) — Levantamento de afastamentos INSS 2023–2025, publicado em janeiro de 2026. Ministério da Previdência Social — Dados de benefícios por incapacidade por transtornos mentais, 2024. Treml, M.F.Q. et al. — “Burnout syndrome in Brazil (2014–2024): regional variations and temporal trends”. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, set. 2025. DOI: 10.47626/1679-4435-2025-1479. Organização Mundial da Saúde (OMS) — CID-11. Burnout como fenômeno ocupacional, código QD85. Jornal da USP — “Afastamento do trabalho por transtornos mentais cresce 68% no Brasil”. Abril de 2025. Banco Mundial / Opas — Estimativas de impacto econômico da saúde mental no Brasil, 2024. Sinapsys News — “Burnout sob a perspectiva neurocientífica”, dezembro de 2025.
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*Dr. João Paulo Mendes é pós-graduando em Psiquiatria, mestrando em Saúde Pública e médico com foco em saúde mental e medicina do trabalho. Escreve sobre políticas públicas de bem-estar e os impactos do esgotamento ocupacional.
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