Saiba identificar os sintomas ocultos de problemas na tireoide

Saiba identificar os sintomas ocultos de problemas na tireoide

Falta de hormônios e excesso hormonal afetam desde o humor e a memória até o desempenho sexual de homens e mulheres.

Localizada no pescoço, a tireoide produz hormônios essenciais para a regulação do metabolismo e de funções vitais. Foto: Divulgação/Internet.
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São Paulo, SP – Uma pequena glândula com formato de borboleta, localizada na parte frontal do pescoço e com peso de cerca de 20 gramas, exerce papel decisivo sobre o funcionamento do corpo humano. Responsável pela produção dos hormônios T3 e T4, a tireoide atua na regulação do metabolismo, na temperatura corporal, nos batimentos cardíacos, no funcionamento intestinal e na fertilidade, além de influenciar processos cerebrais como memória, atenção, raciocínio e equilíbrio emocional. Por apresentar sinais inespecíficos, as disfunções tireoidianas frequentemente passam despercebidas, o que adia o diagnóstico e o tratamento adequado.

Quando a glândula opera em ritmo reduzido, caracteriza-se o hipotireoidismo. A condição manifesta-se de forma gradual por meio de cansaço persistente, sonolência excessiva, dificuldade de concentração e raciocínio, esquecimentos, depressão, pele ressecada, queda de cabelo, unhas frágeis, prisão de ventre e sensação constante de frio.

“Como esses sintomas são inespecíficos e podem ocorrer por diversas situações clínicas, é comum que o paciente ignore-os e, consequentemente, o diagnóstico seja adiado”, aponta o tireoidologista Helton Ramos, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O hipotireoidismo nem sempre apresenta sintomas claros. Quando exames de laboratório indicam alterações hormonais sem que o paciente perceba mudanças na rotina, configura-se o hipotireoidismo subclínico.

“Alguns estudos demonstram que essa condição pode estar associada ao aumento do colesterol, maior risco de doenças cardiovasculares, piora da função cardíaca, redução da capacidade para atividades físicas e maior probabilidade de evolução para hipotireoidismo manifesto”, ressalta Ramos.

Especialistas esclarecem que o ganho de peso associado ao hipotireoidismo costuma ser discreto, variando entre 2 kg e 5 kg, não figurando como causa central da obesidade.

No cenário oposto, o hipertireoidismo ocorre quando a tireoide produz hormônios em excesso e acelera o organismo. Além da perda de peso, surgem sintomas como irritabilidade, insônia, tremores leves nas mãos, palpitações ocasionais e inquietação constante.

“Em idosos, o quadro pode ser ainda mais discreto, aparecendo como fadiga, fraqueza muscular ou alterações cardíacas”, descreve a endocrinologista Danielle Macellaro, do Hospital Israelita Albert Einstein.

A principal causa do hipertireoidismo é a doença de Graves, uma condição autoimune que pode atingir os olhos. Os sintomas oculares incluem vermelhidão, lacrimejamento excessivo, inchaço nas pálpebras, sensibilidade à luz e exoftalmia — projeção dos olhos para fora.

“O reconhecimento precoce desses sinais é fundamental, pois a doença ocular da tireoide pode impactar significativamente a qualidade de vida e, em casos raros, ameaçar a visão se não for tratada adequadamente”, alerta o professor Helton Ramos.

Os distúrbios da tireoide afetam homens e mulheres, provocando impactos específicos na saúde sexual e reprodutiva. Nas mulheres, causam irregularidade menstrual, redução do desejo sexual e dificuldades para engravidar. Nos homens, tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem diminuir a libido, prejudicar a ereção, alterar a qualidade dos espermatozoides e comprometer a fertilidade.

Uma revisão científica publicada em 2024 no Journal of Diabetes & Metabolic Disorders confirmou a associação entre doenças tireoidianas e maior frequência de disfunções sexuais masculinas. “Felizmente, em muitos casos, esses problemas melhoram após o tratamento adequado da doença tireoidiana”, ressalta Danielle Macellaro.

Nódulos e o aumento no volume da glândula — conhecido como bócio — nem sempre provocam sintomas imediatos. A elevação de volume pode gerar saliência no pescoço perceptível ao engolir. Devem ser investigados nodulações endurecidas, de crescimento rápido, acompanhadas de rouquidão persistente, dificuldade para engolir ou aumento dos gânglios linfáticos cervicais.

Entre 90% e 95% dos nódulos na tireoide são benignos, segundo a médica do Einstein. “Além disso, mesmo quando o diagnóstico de câncer é confirmado, os tumores mais comuns da tireoide costumam apresentar excelentes taxas de cura quando tratados adequadamente”, afirma Macellaro.

Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam cerca de 16 mil novos casos anuais de câncer de tireoide no Brasil, figurando entre os tipos mais frequentes na população feminina. O crescimento no número de diagnósticos em vários países decorre tanto do avanço dos exames de imagem e detecção precocemente quanto de fatores ambientais, metabólicos e mudanças no estilo de vida.

Especialistas alertam que não existem evidências científicas de que chás, fórmulas ou suplementos vendidos na internet tratem a tireoide. Nutrientes como iodo e selênio auxiliam na saúde da glândula, mas o excesso pode ser nocivo. No caso do selênio, a ingestão de uma a duas unidades diárias de castanha-do-pará atende às necessidades do organismo.

A investigação das disfunções tireoidianas exige exames de sangue para medição dos hormônios TSH, T3 e T4 livre, além de anticorpos para detectar doenças autoimunes como a tireoidite de Hashimoto e a doença de Graves. O exame de ultrassom é empregado para avaliar o tamanho da glândula e investigar nódulos.

O autoexame pode auxiliar na percepção de alterações no pescoço, embora não substitua a consulta médica. Diante do espelho, com o queixo levemente inclinado para cima, observa-se a região localizada abaixo do pomo de adão e acima das clavículas ao engolir um gole de água. Caso sejam percebidas assimetrias, saliências ou movimentos incomuns, a orientação é buscar um endocrinologista.

O tratamento do hipotireoidismo e do hipertireoidismo é prioritariamente medicamentoso, com o objetivo de restabelecer os níveis hormonais adequados. Para quadros de hipertireoidismo, podem ser indicadas a terapia com iodo radioativo ou cirurgia para remoção parcial ou total da glândula.

“Quanto mais cedo identificamos uma alteração da tireoide, maiores são as chances de evitar complicações e preservar a qualidade de vida do paciente”, conclui a endocrinologista Danielle Macellaro.


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