Brasília, DF – A proposta do senador Flávio Bolsonaro de integrar o Brasil ao Escudo das Américas expôs uma fissura direta com a cúpula das Forças Armadas. O projeto busca atrelar o país a uma aliança militar regional conduzida por Donald Trump e sustentada por governos de extrema-direita no continente, com o objetivo de autorizar a atuação de contingentes norte-americanos em território latino-americano sob o pretexto de combater o narcotráfico.
Oficiais de alta patente ouvidos pela Folha de S. Paulo afirmaram que admitir operações armadas estrangeiras dentro das fronteiras nacionais rompe uma tradição histórica. As cooperações atuais entre o Brasil e as forças dos Estados Unidos são limitadas a treinamentos pontuais e compras de armamento, sem qualquer cessão de território ou comando de tropas.
Um integrante do Exército explicou que a Força não formalizou o debate, mas acompanha a manobra com desconfiança. A corporação aguarda o desfecho eleitoral para medir a viabilidade política do plano e contesta a própria lógica da estratégia militarizada:
“Ainda não há evidências de que isso esteja impedindo ou reduzindo o tráfico de drogas no longo prazo.”
A postura contrasta com o discurso de Erikson, ex-integrante do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O ex-funcionário sustentou que a iniciativa atende a interesses geopolíticos centrais de Washington e declarou que uma eventual adesão dependeria do crivo do Palácio do Planalto, sem liberação automática de território.
Nos quartéis, porém, o plano de Flávio Bolsonaro reabre o trauma da intervenção militar de 2018 no Rio de Janeiro. A cúpula militar passou a barrar a atuação direta em segurança pública após a sucessão de abusos, violações e crimes cometidos contra civis em áreas de favela e periferia. Desde então, os comandantes rejeitam ser empurrados novamente para o confronto urbano contra facções.
Além da resistência técnica, generais alertam para a reação popular a uma política de subordinação explícita aos Estados Unidos, ressaltando o sentimento nacionalista arraigado na sociedade brasileira:
“O Brasil deve poder dizer: ‘Sim, vamos fazer isso, mas, ao aderir, não estamos abrindo mão da nossa soberania nacional para tomar decisões sobre o que acontece dentro do nosso país’.”
A articulação política do Escudo das Américas expõe a costura internacional do projeto conservador. O bloco negociado por Washington engloba governos de extrema-direita e direita regional, incluindo Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Trinidad e Tobago, reposicionando o controle armado sobre recursos e populações do hemisfério sul.



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