Salvador, BA – A proposta de Flávio Bolsonaro para o Bolsa Família expõe a intenção da campanha do candidato da extrema direita de impor uma data limite para expulsar famílias da principal política de combate à fome do Brasil, a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial.
Em entrevista à rádio CBN Bahia nesta segunda-feira (19), a chefe da equipe econômica de Flávio, Daniella Marques, defendeu que o governo corte quem arrumar emprego com carteira assinada ou abrir pequeno negócio após um prazo de dois anos.
“Vai ter regra de transição de dois anos [no Bolsa Família] para poder abrir seu negócio ou aceitar emprego de carteira assinada. É um retorno automático caso dê errado. As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família. Aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada. Todo mundo merece sonhar com algo com mais oportunidade, dignidade.”
A promessa de desligamento atinge diretamente a sobrevivência da população mais vulnerável e provocou reação imediata. Para tentar conter o desgaste político gerado pela ameaça de tesourada nos benefícios sociais, integrantes da campanha vieram a público tentar desmentir a economista, alegando que a ideia seria apenas ampliar a proteção legal que já existe.
O projeto econômico da candidatura da extrema direita pressiona o trabalhador pobre a abrir microempresa ou aceitar vaga formal precarizada para perder o auxílio. A promessa é criar o Ministério da Prosperidade, jogando a garantia de sobrevivência nas mãos de microcrédito e cursos com empresas privadas.
“O coração do plano é focar na prosperidade. Colocar o brasileiro para crescer com o Brasil. Estão preservadas as proteções sociais, mas a gente quer que todo brasileiro tenha um plano para crescer mais, com crédito, capacitação e parcerias com empresas privadas para cursos livres.”
A equipe de Flávio não detalhou como funcionaria a retomada do pagamento para quem perder o emprego ou falir o pequeno negócio, nem apresentou qualquer garantia contra o risco de empurrar de volta à miséria os 19,3 milhões de lares atendidos pelo programa em agosto.
O histórico de ataques do candidato contra a transferência de renda também voltou ao centro do debate. Flávio apagou de sua conta no X (antigo Twitter) publicações antigas feitas entre 2010 e 2014, nas quais chamava o Bolsa Família de “bolsa-farelo” e acusava o benefício de “perpetuar a pobreza” e comprar votos.
As postagens deletadas pelo senador também miravam o programa estadual fluminense Renda Melhor. A faxina nas redes sociais foi feita às pressas na reta final da disputa para tentar esconder o histórico do candidato e frear a rejeição entre os eleitores mais pobres.
O plano de corte defendido pela economista de Flávio caminha no sentido oposto às medidas do governo Lula, que relançou o programa em março de 2023 e reajustou o benefício básico em 15%, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691 a partir desta quarta-feira (21).
Pela legislação em vigor, quem consegue trabalho com carteira assinada não é jogado no desamparo: se a renda da família subir além de R$ 218 por pessoa, mas ficar dentro do teto de R$ 706 per capita, o pagamento de metade do benefício continua garantido por até 18 meses, servindo de escudo para evitar a fome.
O Bolsa Família atual também assegura complementos de R$ 173 para crianças de até 6 anos e R$ 58 para gestantes, bebês e jovens de 7 a 17 anos, com exigência de vacinação em dia e frequência escolar no Cadastro Único, garantias que ficam sob ameaça direta diante da proposta de cancelamento do auxílio.



Deixe um comentário