Corinto, Fronteira Honduras–Guatemala – Famílias inteiras, mulheres com crianças de colo e jovens carregando mochilas improvisadas formam uma marcha coletiva rumo ao norte do continente. A mobilização, que reúne centenas de pessoas, partiu de San Pedro Sula e alcançou o posto de Corinto, na divisa com a Guatemala. Organizada sob o nome de caravana Fé e Esperança, a caminhada concentra migrantes de Honduras, El Salvador, Guatemala, Equador e Haiti que tentam escapar da falta crônica de trabalho, do avanço da violência armada e da miséria extrema.
A fuga em massa ocorre sob o governo do presidente hondurenho Nasry Asfura, líder do conservador Partido Nacional de Honduras (PNH), que assumiu o poder após receber o respaldo de Donald Trump e do presidente argentino Javier Milei. Apesar do alinhamento ideológico e da submissão da gestão Asfura às diretrizes de Washington, o quadro social do país permanece devastado, com 63% da população vivendo abaixo da linha da pobreza e sob a constante ameaça da Casa Branca de cortar repasses e acordos de financiamento caso suas ordens para conter a população não sejam cumpridas à risca.
A primeira etapa do trajeto conta com o acordo regional CA-4, pacto centro-americano que dispensa vistos e permite a entrada livre na Guatemala. O bloqueio real começa logo adiante, no território mexicano. Submetido a exigências e chantagens diplomáticas de Washington para travar a marcha de migrantes, o governo do México ampliou os cercos policiais na fronteira sul, onde as pessoas que caminham enfrentam batidas ostensivas, extorsões e prisões nas estradas.
A Embaixada dos Estados Unidos em Tegucigalpa divulgou notas com ameaças diretas de expulsão para tentar forçar a desmobilização do grupo ainda na saída: “As fronteiras dos Estados Unidos estão fechadas para aqueles que violam a lei. Não arrisque sua vida nem a de sua família empreendendo a perigosa viagem para o norte. Não acredite nas mentiras dos traficantes de pessoas. Se tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos, será deportado”, informou a representação diplomática. A advertência acompanha uma rotina de violência administrativa: autoridades norte-americanas e mexicanas já deportam milhares de pessoas toda semana, somando-se à anulação do Status de Proteção Temporária (TPS), medida que deixa em situação de vulnerabilidade milhares de hondurenhos com décadas de vida construída nos Estados Unidos.
Para quem marcha, a perda da própria casa começou muito antes do posto de fronteira. Relatório do Conselho Norueguês para Refugiados (NRC) aponta Honduras como a sexta crise de deslocamento forçado mais esquecida e negligenciada do planeta. Pressionadas pela extorsão e pelo controle armado de bairros inteiros, milhares de famílias precisam abandonar suas casas e vagar de um município a outro dentro do próprio território nacional, sem ter onde morar, sem amparo de órgãos públicos e sem receber comida ou remédios de organizações humanitárias.
Entre quem caminha pelo asfalto, o medo de ser barrado pela polícia ou deportado pelos governos não supera o desespero do cotidiano. Uma mãe que viajava ao lado dos dois filhos pequenos contou à imprensa que decidiu partir diante do desemprego total e da impossibilidade de conseguir comida em casa. Outro integrante da caravana afirmou que todos conhecem as barreiras impostas pelos Estados Unidos, mas que encarar os perigos da rota é a única alternativa que restou para garantir a própria sobrevivência.



Deixe um comentário