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Pressão dos EUA atinge comércio, STF e eleições no Brasil

Medidas americanas atingem autoridades brasileiras e ampliam a crise diplomática entre os dois países

Tarifas americanas atingiram milhares de produtos brasileiros em julho de 2026. Foto: EFE.

Brasília, DF – A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou em uma nova fase de tensão durante o governo Donald Trump. Desde o retorno do republicano à Casa Branca, Washington adotou medidas comerciais, sanções e ações diplomáticas que atingem autoridades brasileiras, instituições judiciais e o processo eleitoral. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva passou a responder às iniciativas americanas em defesa da soberania brasileira e contra o que considera interferência em assuntos internos.

Um dos principais focos da disputa é o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O Departamento de Estado americano promoveu uma campanha de críticas contra o magistrado e chegou a classificá-lo como “tóxico” para empresas dos Estados Unidos. As ações ocorreram em meio ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão por participação em uma tentativa de golpe para impedir a chegada de Lula ao poder.

A ofensiva americana também envolveu a Lei Magnitsky, utilizada pelos Estados Unidos para aplicar sanções contra cidadãos estrangeiros acusados por Washington de violações de direitos humanos ou corrupção. O mecanismo permite bloquear ativos submetidos à jurisdição americana e restringir operações financeiras.

Moraes foi alvo dessas medidas em julho de 2025. Meses depois, as sanções foram ampliadas para sua esposa, Viviane Barci. Em dezembro do mesmo ano, entretanto, os Estados Unidos retiraram as restrições impostas ao casal, em meio a esforços diplomáticos para recompor as relações entre os dois países.

A disputa alcançou também as plataformas digitais. O governo americano criticou medidas adotadas por Moraes contra empresas de tecnologia dos Estados Unidos, especialmente o X, de propriedade de Elon Musk. O ministro havia determinado a suspensão temporária da plataforma no Brasil após o descumprimento de ordens judiciais, entre elas determinações relacionadas à retirada de publicações e à nomeação de um representante legal no país.

As decisões ocorreram em meio à circulação de notícias falsas e conteúdos antidemocráticos nas redes sociais durante o período eleitoral de 2022. O material também registra que as redes foram utilizadas para disseminar conteúdos manipulados com o objetivo de influenciar o eleitorado e favorecer os interesses de Jair Bolsonaro.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, justificou a posição de Washington em defesa da liberdade de expressão. Segundo ele,

“a liberdade de expressão é essencial a nosso modo de vida, um direito inato sobre o qual os Governos estrangeiros não têm autoridade”.

A posição, porém, passou a ser questionada diante de medidas adotadas pelo próprio governo Trump contra veículos de comunicação dos Estados Unidos.

Em setembro de 2026, Trump determinou a exclusão de CNN, MS NOW e Politico da Casa Branca, acusando os veículos de divulgar notícias falsas. A decisão restringiu o acesso dos jornalistas à cobertura presidencial e foi temporariamente bloqueada por um juiz federal, que considerou que a medida violava a Constituição americana.

A disputa entre Washington e Brasília também ganhou uma dimensão econômica. Em julho de 2025, o governo Trump impôs tarifas de 50% sobre importações brasileiras, justificando a medida com acusações relacionadas à censura de plataformas tecnológicas americanas e à perseguição de figuras políticas.

A medida afetou as relações comerciais entre os dois países e posteriormente foi anulada pela Suprema Corte dos Estados Unidos, que, no início de 2026, concluiu que o presidente havia ultrapassado suas atribuições ao estabelecer os impostos.

Washington então recorreu à Seção 301 da legislação comercial americana para criar novas barreiras aos produtos brasileiros. Em 22 de julho de 2026, começou a vigorar uma tarifa de 25% sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros. Entre as justificativas apresentadas estavam acusações de práticas comerciais desleais, restrições ao etanol americano e danos ambientais relacionados ao desmatamento ilegal na Amazônia.

Poucos dias depois, as tarifas para determinados setores chegaram a 37,5%, sob a justificativa de novas investigações relacionadas ao trabalho forçoso.

Alguns produtos considerados importantes para o abastecimento do mercado americano foram retirados do pacote. Entre eles estavam café, carne bovina, laranjas, suco de laranja, petróleo, gás e componentes aeroespaciais, incluindo aeronaves. Já setores como aço, alumínio e madeira permaneceram expostos aos efeitos das restrições comerciais.

Lula classificou as medidas como “arbitrárias e ilegais” e acionou a Lei de Reciprocidade, que permite ao Brasil adotar contramedidas diante de ações comerciais unilaterais de outros países.

A tensão avançou ainda sobre o processo eleitoral brasileiro. Em julho de 2026, o governo brasileiro recusou os pedidos de entrada de dois altos funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos: Riley M. Barnes, secretário adjunto para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, seu homólogo.

A visita estava relacionada ao acompanhamento das eleições e seria apresentada sob o argumento de defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão. Para o governo brasileiro, porém, a iniciativa poderia abrir espaço para interferência externa no processo político nacional e para questionamentos sobre a transparência das instituições eleitorais.

Lula acusou os representantes americanos de tentar interferir nos assuntos internos do Brasil e condicionar o processo eleitoral. Entre os encontros previstos estava uma reunião com o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e principal rival de Lula nas eleições de outubro de 2026.

Flávio Bolsonaro tem questionado reiteradamente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), posição que recebeu apoio público de Trump. Para as autoridades brasileiras, permitir a entrada dos representantes americanos significaria oferecer respaldo institucional a uma operação externa capaz de questionar o processo eleitoral e beneficiar setores da oposição alinhados com Washington.

A negativa dos vistos provocou novas medidas de retaliação por parte dos Estados Unidos. O governo americano revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão não significou sua expulsão formal do território americano, mas aprofundou a crise diplomática. Washington também interrompeu o processo de aprovação de novas credenciais diplomáticas e paralisou o avanço das negociações bilaterais.

A disputa entre os dois governos passou, assim, a envolver simultaneamente comércio, sanções financeiras, decisões do Judiciário, plataformas digitais, liberdade de expressão, relações diplomáticas e o processo eleitoral brasileiro. Com a eleição presidencial marcada para outubro de 2026, as medidas adotadas por Washington e as respostas de Brasília colocaram a soberania nacional e a autonomia das instituições brasileiras no centro da relação entre os dois países.

Steve Rodríguez

*Steve Rodríguez é repórter do Fronteira Livre, pesquisador e doutorando pela UNILA com formação interdisciplinar em narrativa audiovisual, estudos culturais latino-americanos e práticas pedagógicas anticoloniais. Sua trajetória combina criação artística (teatro, cinema e cultura visual) com reflexão teórica, orientada pela perspectiva dos estudos visuais de Nicholas Mirzoeff.

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