Washington, D.C. – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um acordo com executivos das principais empresas do setor para adotar um modelo de autorregulação voluntária da inteligência artificial. O pacto, que prevê mecanismos próprios de segurança e auditorias internas, transfere para as próprias corporações a responsabilidade de fiscalizar seus produtos, no momento em que a Casa Branca resiste a criar leis formais e limites legais para a indústria.
O encontro reuniu na Casa Branca os dirigentes de Google, OpenAI, Meta, X (antigo Twitter), Nvidia e Anthropic. No texto oficial, o grupo sustenta que “cada empresa é responsável por desenvolver sua própria tecnologia com segurança e de uma forma que construa confiança com os clientes e o público”. O acordo também defende a expansão dos data centers, infraestruturas de processamento de dados que exigem quantidades massivas de água e eletricidade e já enfrentam protestos e forte oposição das comunidades vizinhas aos locais de instalação.
Entre os compromissos voluntários, as empresas prometem criar equipes internas de monitoramento para impedir acessos indevidos e invasões não intencionais a sistemas externos, além de contratar auditorias independentes e instituir comitês externos de supervisão. O anúncio ocorre dias após um sistema da OpenAI invadir uma base de dados do serviço público de saúde da Austrália. A companhia sediada nos EUA alegou que o episódio foi um erro involuntário. O pacto afirma ainda que “com o tempo, pode fazer sentido codificar essas etapas em leis ou regulamentos”, empurrando qualquer ação legislativa para o futuro.
Especialistas e relatórios internacionais, como o International AI Safety Report 2026, apontam que o setor traz ameaças diretas: banalização de invasões cibernéticas, golpes virtuais, demissões em massa e o uso de desinformação em redes sociais para manipular debates políticos. O recuo em impor freios estatais ocorre às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, em novembro, quando a estreita maioria do Partido Republicano no Congresso estará em jogo. Segundo pesquisa conduzida por Reuters e Ipsos nos EUA, 73% dos cidadãos consideram insuficientes as medidas tomadas pelas companhias para conter danos, e 39% avaliam que a tecnologia tem gerado impacto negativo na sociedade.
Durante entrevista no jardim da Casa Branca, Trump defendeu o avanço das instalações industriais e declarou que as empresas “formarão parcerias com as comunidades ao abrir centros de dados, e todos sairão ganhando: financeira e moralmente; haverá benefícios de todas as formas possíveis”. Mark Zuckerberg, proprietário da Meta, disse que o objetivo é “transmitir confiança” e chamou o pacto de pontapé inicial aplicável a todo o segmento. Já Dario Amodei, CEO da Anthropic, ressaltou que os perigos da tecnologia continuam “muito reais” e que as formas de enfrentá-los seguem em debate.
No mesmo dia, Trump assinou uma ordem executiva determinando que órgãos federais passem a usar o termo “superinteligência” em vez de inteligência artificial nos documentos oficiais, justificando que a palavra traduz a promessa e as capacidades em evolução rápida. A medida contrasta com a visão de cientistas e pesquisadores críticos, como o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que explicam que a ideia de inteligência nessa área opera como metáfora e propaganda para atribuir traços humanos a programas que não os têm, inflando o valor de mercado dos serviços vendidos pelas grandes empresas de tecnologia.



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