Curitiba, PR – A diversidade de relevo, clima e composição mineral impõe condições distintas para a agricultura em cada região do Paraná, mas o uso de técnicas corretas de conservação consegue reverter limitações naturais da terra. É o que apontam os dados preliminares de um estudo conduzido pela Rede Paranaense de Agropesquisa e Formação Aplicada, ligada ao Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação Prosolo (Napi-Prosolo), com apoio financeiro do Sistema FAEP e da Fundação Araucária. O trabalho avalia como o manejo do solo influencia diretamente os índices de fertilidade, a retenção de água e a sustentação dos nutrientes nas lavouras.
As pesquisas de campo estão em andamento em megaparcelas instaladas em sete municípios: Presidente Castelo Branco e Cianorte, no Noroeste; Cambé, no Norte; Ponta Grossa, nos Campos Gerais; Guarapuava, no Centro-Sul; Dois Vizinhos, no Sudoeste; e Toledo, na região Oeste. A consolidação final dos levantamentos está prevista para 2029.
Nas áreas experimentais, os pesquisadores Marcelo Marques Lopes Müller e Edson Lucas Camilo, do Departamento de Agronomia da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), acompanham talhões com e sem curvas de nível (terraços). Em Guarapuava, os testes contam ainda com uma área gerida sob um pacote completo de boas práticas agrícolas. As coletas periódicas medem indicadores químicos e físicos: matéria orgânica, acidez (pH), capacidade de troca de cátions (CTC), fósforo e potássio, parâmetros que revelam a real capacidade da terra de nutrir as plantas e responder a adubos e calcário.
O levantamento identificou dois perfis centrais no estado. O primeiro abrange solos argilosos de Guarapuava, Dois Vizinhos, Toledo e Cambé, ambientes propícios ao cultivo de soja, milho e trigo pela retenção hídrica. Em Guarapuava, as temperaturas baixas freiam o desgaste biológico e ajudam no acúmulo de matéria orgânica, elevando a CTC acima dos patamares mínimos exigidos. Já nas faixas mais quentes de Dois Vizinhos, Toledo e Cambé, o calor acelera a decomposição da palhada, gerando índices menores de matéria orgânica mesmo em terrenos com alto teor de argila.
“Nestas áreas, é necessário produzir e manter palhada sobre a superfície ao longo do ano”, explicou Müller.
O segundo perfil reúne solos de textura arenosa, presentes em Cianorte, Presidente Castelo Branco e trechos de Ponta Grossa. Esses terrenos apresentam menor fertilidade original, seguram menos umidade e sofrem risco severo de erosão e esgotamento rápido de nutrientes.
Apesar dessas restrições geológicas, o estudo demonstra que o manejo correto consegue compensar vulnerabilidades estruturais. Em Ponta Grossa, lavouras de textura média a arenosa alcançaram índices de matéria orgânica e fertilidade semelhantes aos de solos argilosos após anos de plantio direto contínuo, rotação de safras e correção adequada de acidez.
As avaliações em Toledo registraram outro detalhe operacional: a movimentação de terra na construção de terraços reduz temporariamente a CTC e os volumes de fósforo e potássio na camada superficial.
“Isso não reduz a importância dos terraços, fundamentais para controlar o escoamento superficial da água e evitar a erosão. O resultado indica que a implantação precisa ser tecnicamente planejada e acompanhada de práticas capazes de recompor a cobertura e a estabilidade do solo”, destacou o pesquisador da Unicentro.
As variações de terreno explicam a ocupação produtiva no território paranaense:
- Litoral e Serra do Mar: relevo íngreme, umidade alta e solos pedregosos concentram culturas adaptadas, como a banana.
- Primeiro Planalto (Curitiba e entorno): clima frio e matéria orgânica favorecem hortaliças e fruticultura.
- Segundo Planalto (Campos Gerais): solos médios e arenosos abrigam grãos com manejo rigoroso, além de pastagens perenes e silvicultura.
- Terceiro Planalto (Centro-Sul, Oeste e Sudoeste): alta fertilidade e argila sustentam safras de soja, trigo e milho.
- Noroeste: solos arenosos sustentam cana, mandioca, citros e pecuária, exigindo reposição constante de palha e adubação equilibrada para barrar voçorocas e desgaste.
Sobre o alcance dos dados, o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, afirmou: “Esses estudos permitem estabelecer recomendações adequadas às diferentes condições de solo, relevo e clima do Paraná. Os resultados vão ampliar o conhecimento e contribuir para que produtores, técnicos e instituições adotem estratégias capazes de aliar produtividade e sustentabilidade na agropecuária estadual”.
Marcio Spinosa, diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação Araucária, ressaltou o papel da ciência no campo: “O trabalho mostra como os investimentos em ciência, tecnologia e inovação podem gerar resultados concretos para a sociedade. Essa entrega contribui para a sustentabilidade de um ativo fundamental para a nossa economia: o solo”.
Conforme resumiu Müller, não existe fórmula única válida para todas as propriedades do Paraná: o rendimento sustentável exige diagnóstico técnico da área, proteção da superfície e respeito aos limites de cada bacia hidrográfica.



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