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Incêndio florestal queima 1.200 hectares em Villa de Leyva

Fogo começou no sábado e atingiu o Santuário Iguaque; comunidade local denuncia demora no socorro e contesta versão do governo.

Fumaça encobre áreas rurais e morros próximos a Villa de Leyva durante combate ao fogo. Foto: Redes sociales de Victor Petro Miranda.

Villa de Leyva, Boyacá (Colômbia) – Um grave incêndio florestal já destruiu mais de 1.200 hectares em Villa de Leyva e em municípios vizinhos, ameaçando nascentes de água, a economia do turismo e áreas de preservação ambiental. O fogo começou por volta das 14h de sábado, no setor de La Marmolera, ao pé do morro San Marcos, com labaredas que alcançaram até 30 metros de altura. Três dias depois, moradores relatam um rastro de destruição e criticam a demora inicial e a versão oficial do poder público sobre o socorro prestado.

Segundo o relatório mais recente do Ministério do Interior colombiano, o incêndio florestal chegou a 75% de contenção, mas ainda mantém dois focos ativos, avançando inclusive pelos fundos do morro San Marcos e em direção a Chíquiza. Do total de área queimada, cerca de 715 hectares ficam dentro do Santuário de Fauna e Flora Iguaque. Embora 76 pessoas tenham sido retiradas preventivamente de suas casas, não há registro de mortos, feridos ou residências queimadas.

O combate às chamas mobilizou mais de 400 pessoas — entre Exército, Polícia, Bombeiros, Defesa Civil, Cruz Vermelha e voluntários —, além de três helicópteros, que realizaram 75 lançamentos de água, drones, viaturas 4×4 e maquinário pesado. A força dos ventos e o tempo seco associado ao fenômeno El Niño dificultaram a contenção. Diante da suspeita de crime ambiental, o Ministério do Meio Ambiente afirmou que o incêndio foi provocado, e o governo de Boyacá passou a oferecer até 45 milhões de pesos por informações anônimas que ajudem a identificar os culpados, por meio da Sijín, do Gaula Boyacá ou pelo telefone 123. Em Bogotá, o presidente Abelardo de la Espriella convocou um Conselho de Ministros para tratar da emergência.

Quem vive na região enfrenta dias de vigília e tensão. Mireya López, moradora da comunidade rural de Ritoque, em Sáchica, e comerciante de produtos artesanais em Villa de Leyva, contou que o fogo atingiu o principal aquífero de onde sai a água para sua vereda e para o município de Sáchica. O fogo também ameaçou fontes essenciais em La Castellana, Aqua Palma, quebrada San Francisco, La Mesopotamia, La Colorada e Chaina, responsável pelo abastecimento de Villa de Leyva.

López relatou que a água ainda saía das torneiras na segunda-feira, mas com receio de contaminação por cinzas e fuligem. A comerciante também criticou o atraso no combate logo nas primeiras horas: “Se essa ajuda tivesse chegado no sábado, assim que começou, isso não estaria acontecendo”, afirmou, ao lembrar que a comunidade precisou se mobilizar por conta própria para levar água e alimentos à linha de frente: “Temos que fazer tudo com as unhas”.

A narrativa oficial de socorro também foi contestada pelo setor hoteleiro. O ministro Rodrigo Lara declarou publicamente que uma ação heroica dos bombeiros salvou as cabanas do Hotel Suites Arcoíris e garantiu a retirada dos turistas. A administradora do hotel, Eliana Suárez, desmentiu a versão: “Há muita informação falsa. Todo o trabalho foi feito pelo hotel, com nossas redes e nossos conhecidos”.

A tragédia paralisou a economia local no momento em que a ocupação hoteleira estava no limite. Eventos como a corrida esportiva Carrera del Amor foram suspensos, turistas deixaram a cidade às pressas e feirantes rurais ficaram sem ter para quem vender insumos.

A crise ocorre em meio a uma crise política local: a prefeitura de Villa de Leyva está sob o comando interino de Nicolás Méndez Figueroa, que acumula o cargo com o de secretário de Governo. Ele assumiu após a prisão do prefeito titular, Víctor Alfonso Gamboa Chaparro, transferido para a penitenciária La Picota por suspeita de exigir 112 milhões de pesos em propina para liberar licenças urbanísticas no terreno San Cayetano.

Amilton Farias

Amilton Farias é jornalista, fundador e editor do portal Fronteira Livre. Com vivência em diferentes países da América Latina e atuação voltada ao jornalismo territorial, dedica sua escrita à análise política, social e cultural das fronteiras, dos territórios e das realidades que marcam a vida dos povos latino-americanos.

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