Foz do Iguaçu, PR – O avanço das lojas francas nas cidades de fronteira brasileiras tem redefinido o comércio regional, o turismo e a dinâmica econômica local. Em Foz do Iguaçu, um dos principais destinos turísticos do país, o modelo se consolida como estratégia de integração entre consumo, experiência e desenvolvimento econômico.
A possibilidade de ampliar esse ecossistema com a comercialização de produtos da indústria nacional, aproveitando a suspensão de impostos prevista na legislação, surge como uma frente ainda pouco explorada. A medida pode impulsionar a economia local, gerar empregos e atrair novos investimentos, fortalecendo o posicionamento da cidade como polo estratégico de lojas francas.
Embora popularmente conhecidas como duty free, as lojas francas instaladas em cidades gêmeas operam sob legislação própria, distinta da aplicada aos free shops de aeroportos. O regime foi estruturado a partir de demandas de municípios do Rio Grande do Sul, que buscavam enfrentar a concorrência com países vizinhos, especialmente o Uruguai. A política pública evoluiu e hoje atende diferentes regiões do Brasil.
Localizada na tríplice fronteira com Paraguai e Argentina, Foz do Iguaçu reúne condições favoráveis para expansão do setor. Atualmente, sete lojas francas estão em operação, número considerado ainda aquém do potencial local.
A chegada de novos empreendimentos reforça esse movimento. A Luryx Duty Free iniciou operações com geração de 50 empregos diretos nesta primeira fase. O grupo, presente em 17 países, investiu na implantação de uma unidade de grande porte, voltada à comercialização de produtos importados livres de impostos no corredor turístico da cidade.
“Foz do Iguaçu se tornou um polo de lojas francas e a tríplice fronteira é um destino de turismo interessante para nós”, afirma o gerente geral Giorgios Kalfas.
Para a contadora e advogada Elizangela de Paula Kuhn, o setor representa uma mudança estrutural na economia local.
“Esse foi o primeiro movimento estruturado que conseguiu integrar efetivamente o comércio com o turismo. E isso muda completamente a lógica econômica da cidade”, afirma.
Esse impacto é observado em empreendimentos como o Shopping Catuaí Palladium, onde três lojas francas funcionam como âncoras de fluxo. Além das vendas diretas, o modelo amplia a circulação de consumidores e fortalece outros segmentos do varejo.
“O Catuaí Palladium é o único shopping do país com três free shops lado a lado, oferecendo variedade e compras parceladas com total conforto. Nossa estrutura climatizada evita filas de fronteira e integra o lazer familiar à praticidade de encontrar grandes marcas em um só corredor”, afirma a gerente de marketing Cheile Back.
O perfil do visitante também influencia esse cenário. Cresce o número de turistas de eventos e lazer com agendas reduzidas, que buscam alternativas práticas de consumo. As lojas francas atendem essa demanda ao permitir compras rápidas sem necessidade de deslocamento internacional.
Outro fator relevante é a retenção de recursos na economia local. Mesmo compras realizadas em lojas do aeroporto contribuem para a circulação de renda na cidade.
“Se essa loja não estivesse ali, esse valor simplesmente iria embora com o turista”, destaca Elizangela.
O empresário Jorbel Griebeler aponta que o público das lojas francas em Foz é dividido entre turistas e moradores, consolidando o destino também como polo de compras. Segundo ele, o crescimento do setor depende de medidas estruturais.
“Com investimentos de R$ 30 milhões e 130 empregos gerados em Foz, elevar a cota para 1.000 dólares é vital para corrigir a defasagem atual. Essa mudança impulsionaria vendas, impostos e novas vagas”, afirma.
Indústria nacional ainda tem espaço limitado
A integração com a indústria brasileira é apontada como uma das principais oportunidades do setor. A legislação permite que lojas francas adquiram produtos nacionais com suspensão de tributos na entrada, o que reduz custos e amplia a competitividade.
Produtos como vinhos, espumantes, cachaças premium, chocolates e temperos poderiam ganhar espaço nesse canal. Atualmente, a elevada carga tributária, que pode ultrapassar 70%, dificulta a competitividade desses itens nas regiões de fronteira.
“A loja franca poderia ser uma vitrine poderosa para a indústria nacional, mas essa conexão ainda não aconteceu como deveria em Foz do Iguaçu”, afirma Elizangela.
Do ponto de vista regulatório, o modelo também apresenta vantagens operacionais, como a suspensão de impostos na entrada de mercadorias e menor exigência de certificações em determinados casos, o que reduz custos e amplia a variedade de produtos disponíveis.
Comércio e turismo em integração
Com o amadurecimento do setor, a relação entre lojas francas e comércio local se mostra complementar. A percepção inicial de concorrência direta deu lugar a uma visão integrada do mercado.
“Hoje está claro que a loja franca soma com a economia. Ela gera empregos, atrai investimentos e fortalece os shoppings e outros empreendimentos”, afirma Elizangela.
O desenvolvimento do setor em Foz contou com atuação técnica especializada desde sua implementação. Profissionais participaram das primeiras discussões sobre o modelo em âmbito nacional e contribuíram para a estruturação local das operações.
O interesse de investidores internacionais segue em expansão. Três grupos empresariais do Paraguai demonstraram intenção de abrir novas lojas francas na cidade, reforçando o potencial do mercado e sua relevância estratégica na fronteira.
Em comparação com cidades como Uruguaiana, onde o setor já é um dos principais motores econômicos, Foz do Iguaçu ainda apresenta margem significativa de crescimento, com a diferença de contar com uma base turística consolidada.
Dados confirmam crescimento do setor
O desempenho recente reforça a expansão das lojas francas no Brasil. No primeiro semestre de 2025, o setor movimentou US$ 53,08 milhões, crescimento de 45,4% em relação ao mesmo período de 2024.
Em Foz do Iguaçu, o faturamento alcançou US$ 10,87 milhões no período, cerca de R$ 64 milhões, com alta aproximada de 22% na comparação anual, segundo a Receita Federal. O município responde por cerca de 20% do faturamento nacional.
De acordo com o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF), o Brasil movimentou US$ 89,1 milhões em 2024 com lojas francas distribuídas em 12 municípios, crescimento de aproximadamente 35% sobre 2023, consolidando o modelo como vetor econômico nas regiões de fronteira.
Com a expansão do turismo, o avanço do setor e a possibilidade de integração com a indústria nacional, as lojas francas ampliam seu papel na economia local, com impacto direto na geração de empregos, atração de investimentos e fortalecimento da atividade turística.
