Foz do Iguaçu, PR – A Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) concedeu o título de Doutora Honoris Causa (in memoriam) à Iyalorixá Mãe Marina de Tunirê, nome religioso de Marina Áureo Galdino. A entrega ocorreu no dia 24 de abril, durante sessão solene realizada no Auditório Lélia Gonzalez, no Campus Integração, em Foz do Iguaçu.
O evento reuniu lideranças negras, sociais, políticas, acadêmicas e religiosas da região, com destaque para representantes do Ilê Axé Ogum Funmilayo. A cerimônia marcou o reconhecimento institucional da trajetória de Mãe Marina e de sua atuação em defesa da igualdade racial, das tradições de matriz africana e do fortalecimento dos saberes ancestrais na Tríplice Fronteira.
Durante a solenidade, a reitora da UNILA, Diana Araujo Pereira, destacou o papel da universidade na preservação da memória e da ancestralidade africana e afro-brasileira.
“Esta cerimônia é um marco na nossa história, porque a UNILA, para cumprir sua missão, precisa atuar também na integração entre saberes que confere dignidade aos diversos grupos sociais. O reconhecimento da trajetória de Mãe Marina, voltada à luta antirracista e à valorização das culturas e religiões presentes na região, coroa ainda o protagonismo de mulheres fortes, potentes e inovadoras na universidade”, afirmou.
A concessão do título de Doutora Honoris Causa reconheceu contribuições excepcionais às artes, às ciências, à cultura ou à humanidade, independentemente da formação acadêmica formal. O processo que resultou na homenagem foi aprovado em outubro de 2025 pelo Conselho Universitário (Consun), com base na relevância da atuação de Mãe Marina na valorização da ancestralidade africana e afro-brasileira, no fomento à cultura e na promoção da igualdade racial.
A professora Angela Souza, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Latino-Americanos e Caribenhos (NEALA), ressaltou a importância do reconhecimento institucional.
“Temos que ter a responsabilidade institucional enquanto universidade de pensar estas questões e o legado milenar das populações negras e indígenas. A trajetória de Mãe Marina foi determinante para ações institucionais e para as práticas teórico-metodológicas dentro da universidade. A universidade precisa realizar reconhecimentos como este de forma mais frequente e valorizar o conhecimento ancestral que nos forma”, declarou.
Representando a família, Cristiane Áureo Galdino relembrou a atuação da mãe e sua contribuição para a comunidade local.
“Ela pensava no hoje há 40 anos, quando acatou a missão de vir para cá. Minha mãe transbordava amor, mas era uma mulher firme, que não media palavras e que dava força para a família e toda a comunidade para enfrentar o racismo cotidiano. Considero este reconhecimento uma vitória muito grande pela luta dela na fronteira”, afirmou.
A cerimônia foi conduzida pela estudante de Antropologia Kiara Silva e contou com manifestações de reconhecimento ao legado deixado por Mãe Marina na região.
Mãe Marina de Tunirê faleceu em 2021 e teve atuação destacada na promoção da diversidade cultural, no diálogo inter-religioso e na defesa dos direitos das populações negras e tradicionais. Na Tríplice Fronteira, consolidou-se como liderança religiosa e política, estabelecendo parcerias com a UNILA, especialmente em ações de extensão voltadas à educação para as relações étnico-raciais e à valorização das tradições africanas e afro-brasileiras.
Foi também a primeira presidenta do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Foz do Iguaçu, atuando como interlocutora junto ao poder público municipal e estadual. Ao longo de sua trajetória, participou de atividades em escolas e instituições de ensino, promovendo a educação antirracista como princípio fundamental para a garantia de direitos humanos e o reconhecimento da diversidade.
Entre suas contribuições, destacou-se a articulação da primeira Conferência Municipal de Promoção da Igualdade Racial e a atuação na organização das demandas dos povos tradicionais de terreiro, fortalecendo a presença dessas comunidades nos espaços institucionais.
O reconhecimento concedido pela UNILA reforçou o legado de Mãe Marina de Tunirê na construção de políticas e práticas voltadas à igualdade racial e à valorização dos saberes ancestrais na região da Tríplice Fronteira.
