Curitiba (PR) — O avanço do debate sobre o transtorno do espectro autista (TEA) para além da infância pautou uma audiência pública realizada nesta segunda-feira (4) na Assembleia Legislativa do Paraná. O encontro reuniu especialistas, autoridades e familiares para discutir os desafios enfrentados por adolescentes e adultos autistas, com foco na inclusão, acesso à saúde e suporte às famílias.
A discussão expôs uma lacuna ainda presente nas políticas públicas: enquanto o diagnóstico precoce ganhou espaço nos últimos anos, a continuidade do cuidado ao longo da vida segue como um dos principais gargalos enfrentados por pessoas com TEA.
Falta de políticas para adultos amplia desafios
O debate apontou que o sistema público ainda não está estruturado para atender autistas na fase adulta, o que compromete o acesso a serviços de saúde, educação e inclusão no mercado de trabalho.
Entre os pontos levantados, está a dificuldade de continuidade no atendimento especializado e a ausência de políticas consistentes voltadas à autonomia e qualidade de vida dessa população.
“O autismo não termina na infância. É preciso garantir atendimento qualificado e políticas públicas que acompanhem essas pessoas ao longo da vida”, destacou o deputado estadual Bazana (PSD), responsável pela proposta da audiência.
A discussão também reforçou que o tema ainda é frequentemente tratado de forma limitada, concentrando esforços na infância e deixando de lado uma parcela significativa da população autista.
Impacto direto nas famílias e cuidadores
Outro ponto central do encontro foi o impacto do TEA na estrutura familiar, especialmente sobre mães e responsáveis que assumem o cuidado contínuo.
Dados apresentados durante a audiência indicam que cerca de 31% dos cuidadores desenvolvem algum tipo de transtorno emocional, resultado da sobrecarga, das dificuldades financeiras e da falta de apoio adequado.
“Muitas famílias enfrentam dificuldades enormes, principalmente mães solo que assumem sozinhas o cuidado de filhos que precisam de atendimento especializado”, apontou Rogério Carboni, ex-secretário de Desenvolvimento Social e Família do Paraná.
A fala reforça um cenário de desgaste emocional e social que acompanha a ausência de políticas públicas estruturadas.
Educação e inclusão ainda enfrentam limites
No campo educacional, o crescimento no número de matrículas de estudantes autistas na rede regular também revela novos desafios. Hoje, o Paraná registra milhares de alunos com TEA, incluindo uma parcela significativa já na fase adulta.
Apesar dos avanços na inclusão escolar, especialistas destacam que ainda faltam estruturas adequadas para atender casos que exigem suporte mais intensivo, além de caminhos efetivos após a saída da escola.
“Estamos avançando, mas ainda existem situações que exigem atendimento especializado e acolhimento contínuo”, afirmou Maíra de Oliveira, da Secretaria de Estado da Educação.
A ausência de encaminhamentos para a vida adulta foi apontada como um dos principais entraves, especialmente para autistas com maior nível de suporte.
Sistema ainda falha na continuidade do cuidado
A falta de continuidade no atendimento ao longo da vida também foi destacada por especialistas da área da saúde, que alertam para o aumento de comorbidades não tratadas em adultos autistas.
“Essa é uma geração que o sistema esqueceu. O diagnóstico vem na infância, mas o cuidado não acompanha o envelhecimento”, afirmou o psiquiatra Edvino Krul Junior.
Segundo ele, a ausência de acompanhamento adequado contribui para o agravamento de quadros clínicos e para o aumento de comportamentos considerados desafiadores.
A audiência também abordou instrumentos já existentes, como a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA), além da necessidade de ampliar o acesso a serviços, tratamentos e garantias de direitos.
O encontro reuniu ainda representantes da Defensoria Pública, profissionais da educação, gestores e familiares, que compartilharam experiências e apontaram a urgência de ampliar a rede de atendimento.
“Sem políticas públicas contínuas, essas pessoas se tornam invisíveis para o sistema”, resumiu um dos participantes do debate.
A discussão reforça um ponto central: o autismo não é uma condição restrita à infância, e a ausência de políticas para a vida adulta segue como um dos principais desafios no Brasil.
