Barcelona (Espanha) — Em um discurso marcado por críticas diretas ao neoliberalismo, à concentração de renda e ao avanço da extrema direita, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a desigualdade social não é um fenômeno inevitável, mas resultado de decisões políticas. A declaração foi feita neste sábado (18), durante o encerramento da Mobilização Progressista Global, que reuniu lideranças internacionais na capital da Catalunha para debater democracia, justiça social e governança global.
Ao lado do presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, Lula defendeu a reconstrução de um projeto progressista com capacidade de enfrentar o modelo econômico dominante e responder ao crescimento de forças extremistas em escala global.
O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda a semana, todo mês e durante 365 dias por ano, para que a gente restabeleça a coisa mais sagrada no mundo, que é a democracia e o multilateralismo
Neoliberalismo, austeridade e crise social
No centro da fala, Lula fez uma crítica frontal ao modelo neoliberal, apontando que ele fracassou em suas promessas e ampliou a instabilidade social.
Mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda praticam a austeridade
A declaração evidencia um diagnóstico político: a incapacidade de ruptura com a lógica econômica dominante abriu espaço para a ampliação das desigualdades e para o avanço de discursos autoritários.
O presidente destacou que, apesar de avanços históricos em direitos sociais, há uma reação organizada de setores conservadores contra esses progressos.
A situação dos trabalhadores, das mulheres, das pessoas negras e de muitas minorias é melhor hoje do que foi no passado. Não é coincidência que a reação das forças reacionárias tenha vindo de forma tão violenta, com a misoginia, o racismo e os discursos de ódio
Segundo Lula, esse movimento é parte de uma disputa política global que busca conter avanços sociais e reorganizar o poder em favor de elites econômicas.
Extrema direita e manipulação do descontentamento
O presidente apontou que a extrema direita tem conseguido capturar a insatisfação social gerada pelo fracasso das promessas econômicas.
A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo. Canalizou a frustração das pessoas inventando bodes expiatórios: as mulheres, os negros, a população LGBTQIA+, os migrantes
Em um dos momentos mais contundentes, Lula denunciou a concentração de riqueza global e a lógica de exclusão do sistema econômico.
Nosso papel é apontar o dedo para os verdadeiros culpados. Um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial. Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia. Mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam algoritmos. A desigualdade não é um fato. É uma escolha política
Ao abordar o papel dos governos progressistas, Lula afirmou que a coerência deve ser o princípio central da ação política.
Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo
O que faz de nós progressistas é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser estar sempre do lado do povo
Segundo ele, a população, independentemente de identificação ideológica, busca condições básicas de dignidade.
Mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos. Quer comer e morar com dignidade. Escolas e hospitais de qualidade. Um meio ambiente limpo e saudável. Um trabalho decente, com jornada equilibrada. Um salário que permita uma vida confortável
No cenário internacional, Lula criticou a lógica geopolítica que prioriza conflitos e gastos militares em detrimento de necessidades humanas básicas.
Os senhores da guerra jogam bombas em mulheres e crianças. Gastam em armas bilhões de dólares que poderiam ser usados para acabar com a fome
O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. É tratado como quintal das grandes potências
Multilateralismo e reforma das instituições globais
O presidente defendeu a necessidade de reformar o sistema internacional para garantir equilíbrio entre países.
É defender que a paz prevaleça sobre a força. É combater a fome e proteger o meio ambiente. É restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes
É criar um sistema em que as regras valham para todos
Lula também destacou a importância de enfrentar a desinformação e disputar o ambiente digital.
A internet se tornou um campo de batalha. A extrema direita grita, mente e ataca. Não podemos ter medo de falar mais alto
Em um dos trechos mais duros, o presidente alertou para riscos concretos à democracia.
O risco que a extrema direita representa à democracia não é retórico, é real. No Brasil, ela planejou um golpe de Estado
Ao final, Lula reforçou que a democracia só existe plenamente quando se traduz em condições reais de vida.
Não há democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo prato de comida
Não há democracia quando uma mulher morre por ser mulher
Temos que substituir o desalento pelo sonho. O ódio pela esperança
O encontro em Barcelona marcou um esforço de reorganização do campo progressista em escala internacional, com foco na construção de um projeto comum.
A política só tem sentido quando se tem uma causa
